“Black Panther” é um filme muito aguardado não apenas por se tratar de mais uma incursão ambiciosa da Marvel pelo seu próprio universo. É verdade que a palavra Marvel costuma ser suficiente para despertar o interesse de muita gente, mas o realizador Ryan Coogler — de “Creed” ou “Fruitvale Station” — e os EUA dos anos 2000 encarregaram-se de tornar este filme mais um capítulo numa narrativa de lutas sociais que o movimento Black Lives Matter apenas trouxe de novo à tona. A avaliar pelas primeiras críticas ao filme e pela banda sonora dirigida por Kendrick Lamar, não será apenas mais um capítulo mas um momento marcante de reafirmação e aproximação à cultura afro-americana.

A capa da banda sonora de “Black Panther” (Top Dawg/Afthermath/Universal)

O termo é especialmente importante neste caso, já que “Black Panther” conta a história de T’Challa, um dos Avengers e príncipe do reino de Wakanda, nação africana imaginada à qual este príncipe regressa para honrar o falecido pai, fazer cumprir a lei e evitar uma nova guerra mundial com a ajuda de um exército de rainhas africanas chamado Dora Milaje. As premissas desta história e a expectativa gerada (entretanto confirmada pelos críticos norte-americanos que já viram o filme) justificavam uma banda sonora à altura do talento de Ryan Coogler e do contexto cultural em que este filme surge. Isto para dizer que Black Panther já tinha o ativismo e génio artístico de Kendrick Lamar escrito por todos os lados antes mesmo de sabermos que seria ele a criar/dirigir a banda sonora do filme. Felizmente, K Dot não é rapaz para frustrar expectativas e deu-nos um disco que tem tanto dele quanto dos muitos talentos que pontuam esta mixtape e que é para já um dos melhores discos de 2018.

Os singles com SZA e The Weekend — “All The Stars” e “Pray For Me”, respetivamente — já anunciavam que vinha aí uma coisa grande, grande no sentido qualitativo e quantitativo. A primeira abre o disco, a segunda encerra-o. São duas produções tão aptas a preencher o espaço que separa os headphones dos nossos ouvidos quanto as arenas em que SZA e The Weekend irão interpretar estes temas até ninguém os conseguir ouvir mais ou “Black Panther” ser vendido em DVD numa estação de serviço da A2 a 3.99€.

[“All the Stars”, de Kendrick Lamar e SZA:]

Em “All The Stars”, ouvimos Kendrick cortejar a voz poderosa de SZA como que dizendo “estamos tão a caminho da playlist da Mega Hits”:

“Love, let’s talk about love
Is it anything and everything you hoped for?
Or do the feeling haunt you?
I know the feeling haunt you”

Como em outros duetos dele, Kendrick consegue conciliar o rap e a pop com uma produção que separa a água do azeite. “Pray For Me”, último tema deste disco, tem The Weekend e Kendrick a ecoarem as angústias de uma personagem a braços com o peso da responsabilidade numa saga de super heróis.

O subtexto é, claro o das angústias e do porvir incerto que caracteriza as tensões raciais nos EUA. Essa intersecção conseguida entre o protagonista do filme e o seu espectador, encontrados algures a meio caminho na sua humanidade, darão pano para mangas. Aliás, há tanto subtexto nesta banda sonora que devíamos considerar chamá-lo de sobretexto. Kendrick continua a ser exímio numa coisa: falar dos temas pulsantes da sua comunidade e escarafunchar a ferida sem deixar que o ativismo se sobreponha à necessidade de, primeiro, nos fazer prestar atenção, e isso ele conseguiria mais que não fosse com a ajuda dos excelentes criadores de beats que aparecem na ficha técnica. Felizmente há muito mais para ouvir aqui.

[“Pray for Me”, de The Weeknd e Kendrick Lamar:]

Os dois singles poderiam indicar que o disco seria um carrossel de vedetas, e são muitas de facto. É verdade que há uma Marvel e um Ryan Coogler na origem do projecto, mas que outra pessoa no rap em 2018 seria capaz de juntar Schoolboy Q, 2 Chainz, Khalid, Sway Lee, Vince Staples, Future, Ab Soul, Anderson .Paak, James Blake — “Bloody Waters” é perfeita — ou Travis Scott, e alinhá-los com o resto da orquestra? Mas King Kendrick não se fica por aí e encontrou espaço para algumas revelações. Destaque-se, por exemplo, Yugen Blakrok, rapper sul-africana que leva tudo à frente numa malha dançável de Vince Stapes que parece saída dos prodigiosos brainstorms que levaram a Big Fish Theory, disco mais recente de Staples. Não é por acaso que isso acontece. É por talento, e até nisso a curadoria de Kendrick acerca quase sempre.

Jorja Smith, cujo talento a tem colocado algures entre a revelação e a confirmação, tem aqui 3 minutos e 29 segundos sem grande margem para dúvidas. Não é só: há um viagem a África com escala em Sacramento na excelente “Seasons”, que junta os versos em zulu de Sjava, rapper sul-africano, ao talento recentemente descoberto de Mozzy, espécie de protegido de Kendrick que teve direito a shout-out nos Grammies e, tudo indica, terá direito a muito mais num futuro próximo. Há também “Paramedic”, mais um banger com ajuda do amigo Zacari, que aparece numa mão cheia de canções, e o colectivo SOBxRBE, de quem muito se espera em 2018, mas que aqui presta vassalagem, e bem, a um beat à medida de Kendrick.

[o trailer de “Black Panther”:]

Não é bem um disco de Kendrick, mas nunca deixa de ser uma obra sua. Talvez esta banda sonora de Black Panther nos diga tanto acerca do filme quanto da influência de Kendrick na música feita hoje, esteja-se de que lado da história estivermos. É uma banda sonora em que não se regista uma única cisão entre nova escola ou velha guarda, porque cabe tudo na estética de Kendrick. A sua música aproxima o herói (T’Challa) e o vilão (Kilmonger), faz-se de contradição. É, afinal, um super herói com o talento de soar humano e nos aproximar a todos — ainda mais — dele.

“I am T’Challa
I am Killmonger
One world, one God, one family
Celebration”

Em suma: ainda não vimos o filme e já adoramos “Black Panther”.

Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj