Em 2018, ano em que já ninguém duvida que o hip hop irrompeu pela indústria musical (somado ao R&B, ultrapassou o rock nos géneros mais ouvidos de 2017, apontou a empresa americana Nielsen no seu relatório anual), em que todas as semanas saem álbuns a rodos e em que rimar ou compor para rappers parece dar mais retorno económico e mediático do que nunca, talvez soe estranho ouvir, do outro lado da linha, alguém dizer o seguinte:

“Como o álbum anterior foi emocionalmente exigente, estou a dar um tempo para refletir sobre isso e para ter coisas novas para dizer às pessoas”.

Quem está na linha é Hugo Oliveira, de 29 anos, também conhecido por Minus e Mr. Dolly, os dois pseudónimos que usa para fazer música (respetivamente rimada e instrumental). O disco de que este músico de Gaia fala é Árvores, Pássaros & Almofadas, lançado há quase três anos e meio e antecessor do novo Man With a Plan, que Hugo editou (enquanto Minus & Mr. Dolly) há poucas semanas, em janeiro passado.

[“Árvores”, tema do primeiro álbum de Minus:]

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Talvez estejamos a cair num engodo a que o também recepcionista do Gallery Hostel, do Porto, já está habituado, como contava na primeira faixa vocal (pós-intro instrumental) de Árvores, Pássaros & Almofadas, álbum que o apresentou como um dos melhores novos valores do rap do Grande Porto (a par de Keso e Virtus, por exemplo, também eles posteriores aos dois grupos mais icónicos e duradouros dessas paragens, Dealema e os recém-extintos Mind da Gap): “Ausente, alguns dizem que eu sou diferente, usam um método fácil por não me perceberem”. Nessa faixa (“Árvores”, com participação de Keso), como aliás em todo o disco, Hugo Oliveira expunha-se sem filtros nem ego-trips mas com muita poesia:

“Querem saber de mim? 
Sou de uma vila pequena que nem se lembra de mim,
um canto abandonado em Gaia, espaço da minha mãe, o berço da minha infância. (…)
O meu pai nasceu na periferia, um homem da bola
que sempre lhe deu uma vida nova
longe daqui. (…)
Quem me conhece sabe que eu sempre fui assim,

teimoso e concentrado a ponto de me esquecer de mim.
Eu não distingo os sonhos de objetivos,
ou vives ou ficas à espera que eles fiquem vivos.”

Simplificar tudo chamando-lhe “diferente” pode ser redutor, mas a diferença existe, como se confirma aliás pelo seu novo álbum, Man With a Plan, que pode ser um passo importante no percurso de Hugo Oliveira. Ele, aliás, não tem medo de a assumir, em conversa com o Observador:

Eu nunca criei para estar ao nível ou para fazer a mesma coisa que se faz na cultura [hip hop]. Estive sempre à parte disso e fui fazendo as coisas porque me sentia bem e porque gostava.” Voltemos então a “Árvores”, onde ele já o sintetizava: “Talvez não me conheça assim tão bem / porém / não sou um qualquer a escrever o que outros querem.”

Do skate e graffiti a um disco instrumental

A história de Hugo Oliveira e da sua ligação ao hip hop começa quando tinha 14, 15 anos e só surgiu porque, à época, o rap, mais do que um género musical ouvido em massa no Youtube, era uma cultura urbana. “Com essa idade andava de skate e se calhar por causa disso ouvia mais rock e punk mas comecei a ter uma ligação ao graffiti e à cultura do género”, conta.

Inseparável não do graffiti, que já deixou (“Ainda tenho umas latas por casa e às vezes dá vontade, mas sinto que também não ia trazer nada de novo ao que está feito e bem feito na cidade”), mas do início do amor ao hip hop estava o amor à “música negra”, que foi começando a descobrir também “no funk, na soul e sobretudo no jazz”, que estavam muito presentes na chamada “época de ouro” do rap norte-americano (os anos 1990).

O gosto pelo hip hop vinha do fascínio pelas rimas mas sobretudo pelo prazer que Hugo tinha a ouvir as batidas. Isso mantém-se. “Sempre fui mais dedicado e se calhar mais apreciador da parte instrumental, a minha atenção debruçou-se sempre mais sobre a produção do que sobre o resto. O que oiço mais lá de fora também é mais música instrumental que rimada”, diz. Talvez assim se perceba melhor que, depois de um EP e um primeiro álbum como rapper, Minus & Mr. Dolly tenha-se agora dedicado mais aos beats, compondo um álbum instrumental (cheio de samples — ou excertos selecionados — de temas jazz e soul) que lançou, até ver sem singles e telediscos mas com direito a audição integral gratuita no Youtube.

[0 novo disco:]

https://www.youtube.com/watch?v=cIeCBjXKWUo

Sem ser um álbum envolto num conceito ou estética determinada — ao contrário de Beats: Vol 1: Amor, de Sam the Kid, ou O Último Tango em Mafamude, este último um disco maioritariamente instrumental lançado também este ano pelo também gaiense David Bruno e pensado a partir de uma carta de amor de um poeta a uma cidade que não o ama e que este troca por Rio Tinto –, Man With a Plan foi idealizado e composto por Hugo como espécie de manual de fuga à rotina diária. É um “refúgio”, diz o produtor de batidas, para logo de seguida explicar porque não quis vender esse conceito às pessoas por antecipação:

Normalmente trabalho os conceitos depois de fazer os instrumentais. Arranjo um caminho, uma estética e essa estética vai-me levar a decidir o percurso do disco. Trata-se mais de ir buscar umas coisas ali e outras ali e compilar tudo. Acho que se partisse para os temas já com um conceito definido elas acabariam por ficar diferentes [do que queria] e se calhar já sem a mesma estética. Ia circunscrever os temas a um conceito.

Inspirado pela música eletrónica e sobretudo pelo jazz que tem ouvido — com destaque para os vários trabalhos lançados na editora britânica de Gilles Peterson, Brownswood Recordings, que acaba de lançar uma compilação e que editou o disco Black Focus, de Yussef Kamaal, que “acompanhou muito” Hugo Oliveira no processo de composição de Man With a Plan –, o novo trabalho é um “objectivo cumprido”.

É também o primeiro lançamento de uma nova editora fundada por este autor de três personalidades e pelo seu amigo DJ Spot (que aliás faz os scratches do álbum), chamada Kids Alone, que não se prenderá por estéticas nem abordagens, prometendo ser eclética. Os motivos para o novo projeto editorial? “Existem muitas editoras com que me identifico mas eu e o Filipe (DJ Spot) decidimos criar a Kids Alone para termos o controlo na escolha dos artistas. Procurar características e registos de outros artistas também é um trabalho super interessante”, diz ainda Hugo Oliveira.

[um dos poucos telediscos de Minus/Mr. Dolly foi feito para o tema “Gestos Cinematográficos”:]

“A música é o meu ponto fraco”

Hugo Oliveira divide o tempo entre a música, o trabalho num hostel e os estudos, que o têm enriquecido como artista: primeiro foi aprender piano jazz na Valentim de Carvalho, agora está a concluir uma licenciatura em Produção e Tecnológicas da Música, na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (ESMAE), no Porto. Esta última foi motivada pela vontade de “estudar novamente” e de dominar a mistura dos temas, uma parte do processo que Hugo não controlava e em que dependia do amigo e ex-colega de casa Virtus (“estava sempre ao lado dele a ver e a aprender”).

Das aulas de piano jazz também só guarda boas memórias. “Adorei e até é uma coisa a que gostava de voltar mas com o trabalho e a música tornou-se impossível”, aponta, acrescentando: “Inscrevi-me porque estava a sentir-me um pouco limitado no que queria fazer e foi um bom desbloqueio para criar os instrumentais do Árvores, Pássaros & Almofadas, que são muito diferentes dos deste, que é mais baseado no sampling. No anterior toquei imensa coisa e há muitos instrumentos, até porque também convidei outras pessoas”.

Com participações de Keso, Enigma, Blasph, Virtus, Ana Alvarez, Vítor Pinto e ActivaSom, esse disco terá tido o eco merecido? “Têm-me questionado mais sobre o Árvores, Pássaros & Almofadas ultimamente e acho que haver pessoas a ouvi-lo, algumas pela primeira vez, e a considerá-lo importante, deixa-me contente. Falo em causa própria mas trabalho os discos para que tenham camadas e capacidade de se tornarem mais eternos, não tão efémeros como outros trabalhos que se ouvem”, aponta.

Depois desse álbum, Hugo ainda teve “uns tempos em que estava praticamente só a viver da música, fazia uns trabalhos em publicidade e assim”. O que o fez mudar, diz, foi o stress: “Achava um bocado stressante acordar e pensar sempre que tinha de arranjar trabalhos e fazer coisas para me sustentar, por isso é que arranjei um trabalho que me desse essa estabilidade para estar mais tranquilo a fazer música. Mas claro que gostava de viver da música — em especial da minha — se houvesse mais possibilidades”.

É muito complicado gerir o tempo. Costumo dizer que a música é o meu ponto fraco, se tiver de fraquejar é sempre para o lado da música porque gosto mesmo muito do que faço e preciso mesmo disto para chegar ao fim do dia e sentir que estou concretizado, sentir-me bem”, diz o músico.

No Gallery Hostel, onde Hugo Oliveira e os colegas costumam “passar muita música instrumental”, até se tem “passado uns temazitos” do seu novo disco e “a reação tem sido boa”. A dupla vida —  de produtor e rapper, Mr. Dolly e Minus, recepcionista e músico — por enquanto preenche Hugo Oliveira e, apesar de ter uma atenção crescente às batidas, o artista de Gaia não vai preterir as letras, considerando até “começar a trabalhar em algo de rimas” em breve. Mas quem disse que as batidas não têm poesia?

Até voltar a juntar as duas vertentes — palavra e música — num novo trabalho, o desejo do músico português passa por casar ao vivo os temas lançados este mês com o público: “Gostava muito que isso acontecesse até no formato banda, que é um daqueles em que tenho estado a trabalhar. Para já, a primeira apresentação deverá ser numa espécie de lançamento da editora [Kids Alone] e em formato DJ set, mas depois queria começar a trabalhar o disco em banda e tocá-lo”, resume, esperançoso.