Convidada para participar no Festival Literário da Madeira este sábado, a escritora Ottessa Moshfegh estava “entusiasmada” quando falou com o Observador na segunda-feira anterior, dia 12, em entrevista por correio eletrónico: “Nunca estive em Portugal e estou muito entusiasmada para ver como é a Madeira. Penso que vou ficar triste por não beber vinho! Gostava de saber falar português para conseguir perceber o que se diz nas conferências. Estou muito contente por ter sido convidada e estou com vontade de partilhar o meu trabalho com todos vocês”.

Com 36 anos, nascida em Boston e filha de pai iraniano e mãe croata (ambos violinistas e professores de música, ele descendente de uma família extremamente rica mas em declínio, ela bastante mais pobre), Ottessa Moshfegh publica regularmente contos há perto de uma década, em revistas como a Vice, The Paris Review, Granta e The New Yorker.

Foi em 2015, contudo, que ganhou reconhecimento na Europa, depois do seu primeiro romance de estrutura convencional, Eileen, traduzido para português como O Meu Nome Era Eileen pela Alfaguara (antes, havia escrito uma obra experimental, McGlue), impressionar crítica e leitores. Mereceu recensões elogiosas de múltiplas publicações — do The Guardian ao Financial Times, do The New York Times ao Los Angeles Times, do The Washington Post à rádio pública norte-americana –, só no Reino Unido vendeu mais de 50 mil cópias, ganhou o prémio PEN/Hemingway e chegou a finalista do Man Booker, um dos prémios literários de maior prestígio do mundo. Acabaria por perder para O Vendido, de Paul Beatty.

No Festival Literário da Madeira, quase a publicar o seu próximo romance (acontecerá no próximo verão, em solo americano), Ottessa Moshfegh participará num painel de discussão que inclui o escritor português José Gardeazabal e a jornalista, cronista e comentadora política do programa televisivo “Eixo do Mal”. Os três vão debater, às 16h deste sábado, a seguinte formulação de Philip Roth (a quem Ferreira Alves reservou os maiores elogios, por exemplo, no prefácio de “A Mancha Humana”, versão Leya): “Compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida.”

Sou uma grande fã do livro O Complexo de Portnoy. Infelizmente, é o único livro do Roth que li. Confesso que não compreendo na totalidade a citação porque não li o livro Pastoral Americana. De uma forma algo superficial, posso dizer que não oriento o meu trabalho para perceber mal as coisas. Tento afincadamente, arrogantemente e com alguma brusquidão estar certa. Aplicada à escrita, não concordo com a citação — mas concordo quando a aplicamos à vida. Acho que nunca nos conheceremos ou compreenderemos uns aos outros na plenitude, é o preço a pagar por sermos indivíduos com consciências que nos tornam mais contidos”, diz a escritora ao Observador.

Escrever contra as máscaras, a pose e a pretensão

A crueza da protagonista de O Meu Nome Era Eileen pode chocar os mais puritanos mas não deixa indiferente quase ninguém que com ela se tenha cruzado. Contado na primeira pessoa, o romance viaja pelos pensamentos mais recônditos e impudicos de uma jovem que perdeu a mãe, tem um pai alcóolico e trabalha numa casa de correção juvenil em que os rapazes são sujeitos às condições e práticas mais escabrosas.

Quase um monólogo em que a protagonista apresenta tudo através da sua perspetiva (que não confessaria a ninguém, exceto aos leitores a quem conta a sua história 50 anos depois de fugir de casa e mudar de identidade), em que relata aos leitores as suas práticas mais íntimas (desde logo a masturbação ou o prazer que tem ao ver um dos rapazes detidos satisfazer-se sexualmente na cadeia), O Meu Nome Era Eileen impressionou o júri do prémio Man Booker e manteve o registo que Moshfegh já havia explorado em contos, de humanização das suas personagens, expondo o que as pessoas habitualmente escondem dos outros.

Perguntamos à escritora se esse registo é uma reação aos tempos actuais, em que tantos “utilizadores” usam as redes sociais para se promover e vender uma imagem filtrada e melhor das suas vidas, por vezes como profissão. Ela diz que não é bem isso: “Não acho que seja uma reação a estes tempos. Simplesmente, odeio máscaras, pose e pretensão. Odeio mesmo tudo isso. É tudo tão alienante e repugnante para mim”.

Essa atitude surge [reflectida] no meu trabalho porque tenho uma grande sensibilidade com ela. De certa maneira, é-me mais fácil expressar a minha posição de forma apaixonada através da literatura. Se a expressasse no meu dia-a-dia em igual medida, ia ofender pessoas a toda a hora. Portanto, tento ser educada e suspender o meu julgamento ou não o expressar quando penso que as pessoas estão a ser falsas ou irritantes. Mas ter paciência e compaixão quanto a isto não é algo que me seja especialmente fácil”.

O mundo que a rodeia não lhe é, portanto, notoriamente indiferente. Isso nota-se, por exemplo, na crítica acentuada que faz no seu anterior romance às condições em que vivem os jovens detidos na casa de correção em que a personagem Eileen trabalha — crítica essa que Ottessa estende para abranger as condições em que vivem todos aqueles que estão presos: “Sabia que os rapazes de Moorehead — como aparentemente acontece com todos os prisioneiros do mundo — poderiam estar a ser pressionados pelos guardas para lutarem uns contra os outros por diversão à noite, que eram obrigados a defecar nas próprias fronhas, que eram frequentemente obrigados a despirem-se pelos agentes correcionais que lhes cuspiam, lhes batiam, os amarravam, humilhavam e abusavam? Sabia dos rumores, mas não racionalizara as implicações”, lê-se.

Não sinto que tenha responsabilidade ou obrigação de refletir os tempos que se vivem no meu trabalho mas é impossível escrever numa bolha”, diz Ottessa Moshfegh ao Observador, aprofundando logo de seguida: “Tento muito arduamente proteger-me da estupidez violenta que incendeia a cultura e a política dos Estados Unidos neste momento, mas ela infiltra-se na minha mente e no meu espírito, tal como nos de toda a gente.

O próximo romance e a ambição do Man Booker:

Com uma coletânea de contos publicada há um ano no seu país, com o título Homesick for Another World (que em português poderia traduzir-se para Com saudades de um outro Mundo ou Com saudades de voltar para outro Mundo), Eileen é ainda o seu único livro traduzido para português. Ottessa diz que, até agora, nenhuma editora portuguesa comprou os direitos de qualquer outro livro seu, já editado ou por editar.

No verão, a escritora publica no seu país o seu novo romance, sucessor de Eileen. Vai-se chamar My Year of Rest and Relaxation e passa-se pouco antes do ataque terrorista do 11 de setembro. Os temas são “a mortalidade. A morte e o seu carácter definitivo”, diz a escritora, acrescentando: “O objetivo inicial não era falar disso, era retratar a dificuldade que uma pessoa tem em aceitar o seu próprio karma”. No livro, aponta, a protagonista (tal como em Eileen, novamente mulher, novamente a narrar a história na primeira pessoa) “tenta mudar o seu destino e engana-se a si mesma pensando que foi bem sucedida. Ou terá sido? O livro é mais sobre a auto-ilusão do que sobre verdade”.

A personagem de My Year of Rest and Relaxation é uma versão do que sou e a Eileen também era. Mas provavelmente a primeira é mais parecida comigo do que a segunda, em alguns aspetos. Não a sinto como uma estranha, é mais uma reflexão distorcida de mim própria.”

O próximo romance é também, até certo ponto, um regresso de Ottessa Moshfegh a Nova Iorque, cidade onde estudou e onde viveu durante dez anos. “Adoro Nova Iorque. O que gosto mais na cidade é como ela funciona como uma moldura para as pessoas — cada momento é uma fotografia, cada pessoa é diferente e tem uma história própria, o ato de descer uma rua está impregnado da arte de viver. Adoro a comida e os museus, também, mas o que gosto mais é mesmo de flanear. Não o posso fazer tanto em LA. Já do que não gosto em Nova Iorque é da postura de prestígio e riqueza, a rat-race [expressão idiomática que se refere a um estilo de vida centrado na ambição competitiva visando riqueza e poder]. Isso e a atitude de que a cidade justifica que trabalhes até à exaustão só para conseguires pagar a renda. Nova Iorque é bastante cheia de si mesma”.

Com o novo romance, Ottessa Moshfegh terá a expectativa de conseguir ganhar o prémio Man Booker, depois de ter ficado à porta com Eileen? Ela responde: “Não. Pareceu-me uma casualidade e um erro que o Eileen tenha sequer entrado na ‘shortlist’. Vou sempre considerar-me uma ‘outsider’. Qualquer sucesso ou celebração que tive a honra de receber fez-me e ainda me faz pensar que alguém cometeu um grave erro de avaliação. Estou mais ou menos a brincar, mas acho que essa atitude [defensiva] protege-me de dar muita importância ao sucesso e aos prémios. Se desse demasiada importância a essas coisas, isso distorceria a minha atitude em relação ao meu trabalho. Tenho de tentar separar o melhor que posso o processo de trabalho das consequências e resultado do trabalho”

Keith Jarrett, Saramago e a falta de tempo para esfregar uma banheira

Fã do português José Saramago, o único escritor português que leu, Ottessa Moshfegh lembra ao Observador como ficou “impressionada e aterrorizada” com o início de Ensaio sobre a Cegueira. Quando se deparou com o livro, a escritora achou que era “lindo e uma exposição sensível que me pareceu apocalíptica mas ainda assim profundamente íntima e pessoal. Adorei-o”.

Outro dos artistas dos quais é fã é “o incrível pianista” Keith Jarrett. “Os seus concertos de improviso traduziram-se em álbuns a que estou sempre a regressar. A música dele parece que é uma transmissão pura de Deus. É isso que me move na arte, seja música, cinema, literatura, o que for, quando o ser humano é o condutor de uma energia que é muito maior do que a dele”.

Escritora que publica regularmente desde 2007, mas que descobriu a sua vocação no verão de 1994, quando tinha apenas 13 anos (num campo de férias artístico em Michigan, onde conheceu um escritor chamado Peter Markus, que lhe reconheceu o talento e se tornou seu mentor na adolescência), Ottessa Moshfegh diz que não tem participado em muitos festivais literários, mas tem viajado bastante e feito muitas visitas a escolas e universidades para discutir o seu trabalho.

As vantagens disso são contactar com muitas pessoas, o que é fascinante. Além de esses eventos acontecerem em locais que nunca visitei, o que me permite viajar e ver novas partes do mundo. As desvantagens são ser por vezes extenuante e falar do trabalho passado distrair-me muitas vezes daquilo em que estou a trabalhar no momento.”

Gerir o tempo é uma das tarefas com que a escritora mais se debate. “Há alguma anarquia na forma como trabalho, porque trabalho de forma maníaca e obsessiva. Mas também sou muita organizada e beligerante, isto é, trabalho roubando tempo às minhas responsabilidades diárias. Pergunta ao meu noivo e ele dir-te-á que nos últimos quatro meses escrevi um guião e múltiplos ensaios e artigos mas ainda não consegui esfregar a minha banheira…”.