Bob Dylan esteve em Portugal há dez anos, para um concerto no Alive, festival que naquele tempo tinha outra marca antes do nome próprio. Esteve o tempo todo de pé, de lado para a multidão que o via. Mãos no teclado, chapéu na cabeça, fato bem escolhido e uma voz de quase 70 anos. Na altura, as reações dos fãs ficaram no campeonato do “assim-assim”. Uns gostaram muito porque era Dylan. Caramba, era Bob Dylan, o homem que mudou o mundo, ali no palco a dar uma hipótese aos comuns mortais de o verem e de o ouvirem. Outros não gostaram nada: ele não se mexe; mas que voz é esta?; e estes arranjos nas canções mais clássicas, de onde é que isto vem?

Dylan regressa esta quinta feira, dia 22, a Portugal, para um concerto na Altice Arena. E vamos continuar à espera de um impossível regresso ao passado ou vamos encarar a realidade? A segunda hipótese pode ser bem melhor.

Há precisamente um ano, a 22 de março de 2017, Bob Dylan deu uma entrevista. Só isso foi notícia, até porque Dylan não costuma dar entrevistas. Mas foi mais do que isso: o músico/poeta/ícone mostrou porque faz o que faz, em cada momento, revelou mais sobre a sua vontade artística, o que o preocupa e o que lhe passa totalmente ao lado. Acabara de lançar Shadows in the Night, um conjunto de versões de clássicos americanos tornados populares por Frank Sinatra. O entrevistador, Bill Flanagan, perguntava se Dylan estava preocupado com o que os fãs iriam pensar daqueles standards. Bob respondeu:

“Estas canções são dirigidas ao homem comum, que vai na rua, o tipo normal. Talvez seja um fã de Bob Dylan, talvez não, não sei.”

Ora bem. Ele não sabe. Ele não sabe e provavelmente não quer saber. Bob Dylan nunca quis saber. Não quis saber no início dos anos 60 se estava a desbravar novo caminho no meio da folk americana ou não; não quis saber o que iriam pensar quando o vissem de guitarra eléctrica; não se preocupou nada quando esteve fora de tudo e de todos depois de um “acidente de mota”; quando gravou Nashville Skyline com aquela voz; quando foi cristão velho, cristão novo, com o mau gosto que lhe chegou ao penteado, quando achou que era boa ideia fazer um super grupo como os Traveling Wilburys, quando desapareceu, quando voltou, quando tomou conta dos noventas, quando entrou pelo novo século adentro como se tudo fosse novo. Ele não quer saber, nunca quis saber.

[“Gotta Serve Somebody” de “Trouble No More”:]

Em resumo: Bob Dylan não quer saber se gostamos ou não do que ele faz em palco agora. Por que raio de razão é que isso haveria de o preocupar? Há dez anos vinha com as canções do então recente Modern Times, o extraordinário Modern Times, cheio de rock’n’roll com todos os clichés. Dylan é pop, pop de popular, os clichés não lhe fazem mal, ele não foge e abraça-os para lhes dar a volta, mesmo que por vezes seja através do bom uso da ironia. No mesmo ano lançaria Tell Tale Signs, mais uma colecção de raridades e etc. da colecção “Bootleg Series”. Quando chegou ao palco baralhou tudo como quis, como tinha de ser. Porque é que esperávamos o mesmo garoto dos anos 60? Porque é que esperávamos um “Like a Rolling Stone” com a mesma ginga, se a ginga deste Dylan é outra. A nossa ginga, é sempre a mesma? Então calemo-nos com esta choraminguice do “já vi o Dylan quando ele era bom”.

Bom é ele agora. O homem que mais conhece a América porque em parte foi ele que a moldou. O homem que decide qual a América que vale a pena tocar, gravar e cantar ao vivo, porque ele pode escolher, ele sabe-a de cor (fez o recente Triplicate, três discos só de história popular americana, para o provar). E, apesar de tudo, o homem que nunca vai ser profeta de nenhuma revolução ou desgraça. Não vai ser ele o salvador do mundo face a uma rede social, a um presidente louco, a qualquer ameaça que venha vestida de riscas e estrelas. Que se lixe. Que se lixem todos. Nós, que temos consciência, que tomemos as decisões como coisa nossa e não fiquemos à espera que uma canção nos salve — até porque Bob Dylan tem 76 anos, vai fazer 77 em breve. Vai na volta, nunca mais faz uma destas (mais vale encararmos a realidade). Ele não quer salvar ninguém, ele quer salvar-se a ele.

Dúvidas sobre isto? Ele ganhou o Nobel. Bob Dylan é prémio Nobel da Literatura, com o aplauso de muitos e a crítica de tantos outros. O que é que isso interessa? Tanto o prémio como as críticas ou a falta delas: o que é que isso interessa? A ele não lhe interessa nada, de tal maneira que vai aqui uma aposta: só apareceu para discursar porque não queria pagar multa. Ele quer fazer música, quer fazer parte de uma banda, andar na estrada enquanto puder. Que culpa tem o homem de ter escrito o que escreveu durante toda a vida?

[“Stardust”, de “Triplicate”:]

Na mesma entrevista que deu em 2017, às tantas Bill Flanagan diz-lhe: “Alguns dos músicos que o acompanham na estrada e que fazem as primeiras partes dos seus concertos, alguns até são nomes grandes, já expressaram alguma desilusão porque não socializa com eles. Porquê?”. Dylan, que é um homem educado, responde:

“Não faço ideia. Porque é que eles haveriam de socializar comigo? Eu passo tempo com a minha banda”

É um tipo do rock. Gosta da sua banda, da sua guitarra e do seu piano. Põe o chapéu porque sabe que vai ser fotografado. E controla quem o fotografa porque quer ter a certeza que aparece bem na internet e nos jornais. É patrão, é ele que paga aos músicos e quer que eles correspondam. Sobe ao palco para dar um show, mesmo assim, “show”, porque isto é tudo um negócio. O baterista tem que tocar como ele quer, quando ele quer, caso contrário sai um e entra outro. Dylan não dá um concerto – pelo menos um que seja digno de nota — desde 25 de novembro do ano passado, quando actuou no Beacon Theatre de Nova Iorque. Na altura, foi este o alinhamento:

“Things Have Changed”
“It Ain’t Me, Babe”
“Highway 61 Revisited”
“Why Try to Change Me Now”
“Summer Days”
“Melancholy Mood”
“Honest With Me”
“Tryin’ to Get to Heaven”
“Once Upon a Time”
“Pay in Blood”
“Tangled Up in Blue”
“Soon After Midnight”
“Early Roman Kings”
“Full Moon and Empty Arms”
“Play Video”
“Desolation Row”
“Thunder on the Mountain”
“Autumn Leaves”
“Love Sick”
“Blowin’ in the Wind”
“Ballad of a Thin Man”

Uma mistura entre clássicos dele, clássicos dos outros e gravações mais recentes. Se é para tocar ao vivo, se há bilhetes pagos e bem pagos, então que a coisa saia bem feita. Que se faça o circo que tem de ser feito, que o alinhamento vá a todas mas que não se esforce por ser o melhor de sempre. Afinal, que raio é isso de “o melhor alinhamento de sempre”? Dylan acredita que as canções que levar ao palco serão as melhores de sempre. Com a interpretação mais afinada e com todos os quilómetros que o homem conseguir colocar na voz.

[“Dylan” ao vivo em 2009:]

E se a rapaziada que por lá passar não estiver de acordo, enfim, será problema deles e não do artista. Ele é grande, é daqueles a quem podemos atirar o epíteto de “o maior” à confiança. Mesmo que ele diga coisas como as que disse em entrevista, na tal conversa com Bill Flanagan: “Não sei dizer quem é grande e quem não é. Se alguém se torna grande isso só acontece durante um minuto e qualquer um é capaz disso. Isso está fora do nosso controlo, é algo que acontece por sorte, mas dura pouco tempo”. Dylan deve saber que quem o ouve a dizer algo assim fica na dúvida: ele acredita mesmo nisto? Ah, a maravilhosa capacidade de chegar aos 76 de idade e aos mais de 50 de arte com tanto por revelar.

Bob Dylan ao vivo na Altice Arena esta quinta feira, dia 22, às 21h. Bilhetes entre os 39 e os 240 euros. Mais info aqui.