No mesmo fim de semana em que recebe o Prémio Nobel, Bob Dylan edita Triplicate, um disco — obviamente — triplo em que recupera canções imortais do cancioneiro americano. Isso mesmo: Dylan, o homem que definiu boa parte da música popular americana dos últimos 50 anos a cantar a obra de outros que procuraram ocupar o mesmo lugar. Uns estiveram próximos, outros nem por isso. Todos deixaram temas notáveis mas ninguém fez o mesmo que Dylan, não da mesma maneira: assimilar a tradição para mudar o mundo a partir dos EUA. E o melhor disto tudo é que gravou o disco pelo gozo que isso lhe deu, nada mais.

Prazer. Bob Dylan vive hoje pelo prazer de fazer o que quer, quando quer, como quer. Coloquemo-nos na pele do herói: quantos de nós teriam a coragem de não fazer exatamente o mesmo? Gravou canções pelas quais não perde a paixão e há muito que não o ouvíamos cantar tão bem. Reuniu os seus camaradas mais habituais dos últimos anos, não tem tempo a perder com rapaziada que nunca lhe passou pelos ouvidos. O técnico a tomar conta de estúdio foi o imbatível Al Schmitt. A produção tem a assinatura Jack Frost, pseudónimo do próprio Dylan. Deixem-no estar.

“Triplicate”, de Bob Dylan (Sony Music)

Do outro lado, lá longe do estúdio, a Academia do Nobel, a Suécia à espera de um discurso, de uma canção de agradecimento, de um reconhecimento que nunca teria transmissão pública. Dylan podia ter sido mais diplomático, mais educado. Mas tal como meio mundo não terá levado a mal, Bob não deu grande importância à coisa. Reconheceram-lhe o mérito das palavras, da escrita, da transformação da Canção em obra escrita que merece respeito maior.

E o que fez ele? Gravou as palavras dos outros, gravou-as em três discos, com a emoção que a sua própria escrita não parecia dar-lhe há muito. E saca uma interpretação de “The Best is Yet to Come” que é uma jóia rara. Cy Coleman e Carolyn Leigh, se eles soubessem que depois de Sinatra ou Bennett e seriam agraciados com este charme. Mas é o que ele canta: o melhor ainda está para vir. Ouviram?

Mas há mais, muito mais. “September of My Years”, uma “Stardust” de notas difíceis mas e então, o que é que isso interessa? “Stormy Weather” ou “Once Upon a Time”, delicada mas vivida. Caramba, Bob, recebe o Dylan, diz obrigado, explica porque é que a escrita te deu a volta à cabeça e canta uma cantiga. É fácil, tão fácil como foi gravar este disco que é coisa de fã, de miúdo que não larga a guitarra ou o piano, não os larga por nada deste mundo, absolutamente nada. Curioso que este mundo só o seja como o conhecemos por tua culpa, meu sacana.

Em “My One and Only Love”, de Guy Wood e Robert Mellin, Dylan não tem aquele fato de bom corte do bom velho Frank; e não tem o sex appeal da versão de Sting; mas tem na voz a gravilha de anos de romance (feito e desfeito), sabe como é que uma coisa a dois funciona e deixa de funcionar mas ainda assim (ou também por isso) continua a apaixonar-se, não sabe viver sem cair sempre na Grande Armadilha.

E é currículo que o leva a dominar tão bem as palavras, as dele e as dos outros. A dramatúrgia de cada verso, a tónica onde ela tem de estar, as pausas, os silêncios, a intensidade e todos os outros truques. Antes de aprender a escrever, o Nobel da Literatura aprendeu a ler. Em Triplicate junta as duas coisas e dá lições de vida. E é exatamente isto que se espera de um Nobel.