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Crítica de Livros

Dino Buzzati e a vida, esse monstro silencioso

Nestes "Sessenta Contos", Buzzati parece muito interessado em descrever a vida como uma força silenciosa que nos arrasta para um destino trágico. João Pedro Vala dá-lhe cinco estrelas.

Autor
  • João Pedro Vala

Título: “Sessenta Contos”
Autor: Dino Buzzati
Editora: Cavalo de Ferro
Páginas: 456
Preço: 16,90€

É relativamente frequente reduzir Buzzati, como todas as coisas que não conseguimos compreender muito bem, a palavras vagas e que não querem dizer grande coisa como ‘surrealista’, ‘kafkiano’ ou ‘escritor do absurdo’. Estes chavões, mais do que resolverem o problema, criam a ilusão de o ter resolvido, tornando o objecto estranho diante de nós num objecto semelhante a todos os outros que julgamos conhecer, com apenas uma ou outra variação. É, portanto, por vezes necessário dar um passo atrás e tentar descrever esses mesmos objectos (no caso em questão, Buzzati) prescindindo dos mecanismos que nos consolam e amparam.

Tal como acontece no seu romance mais famoso, O Deserto dos Tártaros, nestes sessenta contos Buzzati parece muito interessado em descrever a vida como uma força silenciosa que nos arrasta para um destino trágico, ao qual não conseguimos escapar e do qual nem sequer nos apercebemos. Em Sete Andares, por exemplo, Giuseppe Corte decide internar-se num sanatório para tratar uma doença (que, como seria de esperar em Buzzati, nunca se diz qual é) que o afecta apenas ligeiramente. Este santório está organizado por andares, sendo que Corte é colocado inicialmente no mais alto de todos, onde estão os pacientes “muito ligeiros”. No entanto, à medida que o tempo passa, por razões sempre de ordem prática e com a promessa de regressar imediatamente ao piso inicial, Corte vai descendo e descendo, até que chega ao rés-do-chão, onde já paralisado “olhou para o relógio que estava na mesa-de-cabeceira, ao lado da cama. Eram três e meia. Voltou a cabeça o para o outro lado e viu que as persianas de correr, obedecendo a um misterioso comando, desciam lentamente, impedindo a entrada da luz.”

Esta ideia de que somos arrastados imperceptivelmente para o fim que nos aguarda, sempre com a ilusão de que o nosso mal é apenas passageiro e de que ainda nos cabe inteiramente a nós escolher o nosso futuro vai-se repetir em inúmeros dos restantes contos. A vida é então, para Buzzati, um monstro silencioso que nos destrói convencendo-nos de que está tudo como sempre esteve, de que estamos em controlo absoluto de nós mesmos.

Para esta ilusão, a vida parece contar sempre com um assistente fundamental: nós próprios. Ou, mais especificamente, os mais sábios, os mais selectos, os mais articulados, os mais urbanos e civilizados de entre nós. Nos contos de Buzzati, as criaturas sobrenaturais, as lendas, os fantasmas, os espíritos e Deus têm uma realidade concreta tão palpável como a cadeira na qual estou agora sentado. É comum Deus aparecer sob a forma de uma luz ou de uma garra, é frequente ler que “Deus neste caso não era uma fábula incerta, não estava apartado, na igreja, entre círios e incenso; andava para cá e para lá por entre as casas, transportado, por assim dizer, por um cão”. No entanto, por mais evidente que seja a existência de Deus e a Sua vontade, as personagens mais poderosas e civilizadas recusam-se a reconhecer esta presença divina ou a aceitar o que quer que seja que caia fora do decoro, dos bons costumes e da mais absoluta normalidade, o que quer que ponha em causa a sua própria omnipotência.

É isso que acontece, por exemplo, em “Contudo, Batem à Porta”, onde se conta a história de Maria Gron, uma senhora de bem, com posses, que se recusa a reconhecer que o rio está a subir, estando já perigosamente perto de sua casa, porque não pode aceitar tornar-se numa vítima das inundações, num alvo da caridade, igual aos pobres a quem dá esmola. O rio, no entanto, continua a subir e entra mesmo em sua casa, como se previa desde o princípio do conto. Nesse momento, Buzzati diz-nos que, indignada com esta desfaçatez da Natureza, a senhora Maria Gron, “pálida como a morte, com uma ruga dura a marcar-lhe o rosto, avançou em passos ansiosos para o cortinado que palpitava. E fazia que não com a cabeça, querendo dizer que proibia que aquilo acontecesse, que agora acorria ela em pessoa e a água não se atreveria a passar.”

Apesar de Buzzati parecer querer dizer coisas muito concretas nos seus contos, o escritor procura sempre evitar que estes sejam lidos como metáforas ou alegorias. Para Buzzati, estes sessenta contos devem ser lidos apenas como histórias, porque é no momento em que reduzimos estas histórias a bonitas parábolas sobre a morte ou a aristocracia que a estranheza do mundo, para a qual o escritor aponta insistentemente, se esfuma, tal como acontece quando classificamos Buzzati com palavras bonitas como ‘surrealista’ ou ‘escritor do absurdo da vida’.  É isso que parece acontecer no final de “Uma Gota” em que o autor esclarece que a história da singular gota que sobe em vez de descer é apenas sobre uma singular gota que sobe em vez de descer. Transformá-la numa história sobre a passagem do tempo, a poesia ou o que quer que seja faria com que o mistério e o terror da gota ficassem resolvidos, deixando-nos a nós, homens práticos e de bons costumes, serenos e em paz, prontos para seguir com a nossa vidinha séria e regrada (“Mas não, digo-vos, não é uma brincadeira, não há duplos sentidos, trata-se, felizmente, apenas duma gota de água, tanto quanto é dado entender, que de noite vera pelas escadas acima. Tic, tic, misteriosamente, de degrau em degrau. E é por isso que temos medo”).

A importância da literatura, para Buzzati, é então, como se percebe em “O Burguês Enfeitiçado”, a de podermos por uns minutos abandonar a ilusão de que controlamos e percebemos a vida, encarando assim o monstro silencioso nos olhos, percebendo desta forma que somos afinal apenas cativos quando nos julgávamos carcereiros. É pela literatura que, sendo adultos, nos tornamos crianças, mas agora sem a sua “angélica leveza”. É pela literatura que percebemos o absurdo dos nossos companheiros de bridge e dos nossos jantares. Porque só quando olhamos para o mundo pondo de parte o olhar sério e sisudo com que normalmente o encaramos é que podemos ver a seta espetada que trazemos no meio do peito e podemos enfim adquirir a convicção de Gaspari no final do conto de que se tornara num “homem finalmente, e não num miserável. Um herói, e não um verme, não se confundia com os outros, destacava-se. E era só. A cabeça caía sobe o peito, como convinha à morte, e os lábios enregelados continuavam a sorrir um pouco, significando desprezo — venci-te, mundo miserável, não conseguiste agarrar-me”.

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