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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que anda Mário Centeno a preparar? Nós, neste momento, temos uma situação particularmente complexa. A despesa pública aumentou 24%. Há vários clássicos na política portuguesa. Há os ministros que desaparecem quando saem do poder e há os que fazem como Mário Centeno. De repente, voltou. O ex-ministro das Finanças de António Costa, o ex-presidente do Eurogrupo, o ex-governador do Banco de Portugal, Centeno é agora comentador regular na CNN Portugal, acabou de escrever um livro sobre contas certas e tem sido presença assídua à frente de um microfone, onde tem partilhado a sua visão crítica sobre o estado do país. Afinal, a que se deve tanta agitação? Está Mário Centeno a regressar à ribalta porque sim ou estará a preparar-se para mais qualquer coisa? É isso que eu vou perguntar à Rita Tavares, jornalista de política do Observador. Vamos olhar para os sinais que aí estão, para as críticas que o ex-ministro tem feito ao governo e ao próprio PS, para o livro, para os avisos. Vamos também perceber como o PS olha para tudo isto e que estratégia tem a liderança para lidar com Mário Centeno. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 23 de setembro. Olá, Rita, bem-vinda.
Olá, Pedro.
Temos aqui Mário Centeno, um homem que está a regressar à ribalta, porque tem uma série de coisas que coincidem no tempo. Ele lançou um livro, tem um comentário regular na televisão, isso às vezes quer sempre dizer qualquer coisa, sobretudo no que diz respeito a ex-políticos. Além de uma série de críticas que ele tem feito em intervenções políticas, em intervenções públicas. Como é que isto está a ser olhado no Partido Socialista?
O Partido Socialista está, como seria de esperar, a desvalorizar esta presença. Está a fazer duas coisas. Uma é desvalorizar publicamente. Na ideia, até Luís Testa fez umas declarações ao Observador, ele é secretário nacional do Partido Socialista, a dizer que Mário Centeno é um contribuinte líquido de propostas para o partido, é um livre-pensador, que é uma expressão curiosa.
Que já vamos falar sobre ela daqui a pouco.
Que já falaremos mais à frente. Está, na verdade, a encaixá-lo assim numa pessoa que tem liberdade de se expressar, e toda a gente tem, evidentemente, e Mário Centeno pela maioria de razão, porque nem sequer é militante do Partido Socialista, é bom lembrar isso. É um independente, sempre foi. Não sabemos se está interessado em filiar-se no Partido Socialista, isso já quereria dizer alguma coisa. Mas há outra coisa que o PS também procura fazer, que é pegar em Mário Centeno e trazê-lo para dentro do Partido Socialista.
Isso é a reação, porque obviamente quando se vê um homem que, ainda por cima, é bom recordar, no tempo de António Costa esteve para vir a ser o primeiro-ministro, no caso da saída de António Costa, ou pelo menos falou-se dessa possibilidade.
Era a alternativa que António Costa apresentou à presidência da República.
E que o presidente da República não quis. Portanto, poderia ter ocupado o cargo de primeiro-ministro. Está agora a fazer intervenções públicas onde ele não critica apenas a atual governação do Luís Montenegro, ele também critica algumas das propostas do próprio Partido Socialista. Tem um livro onde faz o elogio do seu legado. É natural que, sobretudo os círculos mais próximos de José Luís Carneiro olhem pra ele com uma certa desconfiança. Será que ele quer candidatar-se? Será que ele quer vir aqui? E o que eles fazem nessa circunstância?
Aqui há uns dois meses, eu escrevi um texto aqui no Observador já sobre este assunto, porque Mário Centeno estava nessa altura também já a marcar muita presença, e começava o texto com aquela frase muito típica, aquela lógica, que é: se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então é um pato.
E alguém do PS deve estar a pensar isso também.
Mário Centeno tem um comentário televisivo. Tem, neste momento, um livro, uma espécie de biografia dos tempos em que esteve no governo, portanto, da sua participação política a ser lançada no final desta semana. E faz intervenção no espaço político e no espaço público, com o quê? Com medidas alternativas e críticas. Portanto, se calhar é mesmo um pato.
E portanto, a estratégia do PS não é ostracizá-lo, é tentar trazê-lo para dentro.
Sim, essa parte de trazer para dentro é porque é quase como se José Luís Carneiro tem feito isto com várias das personalidades dentro do partido, no caso do Mário Centeno não é dentro do partido, que podem ser indicadas como potenciais desafiadores no futuro. Por exemplo, Fernando Medina chamou para a Comissão Política Nacional, Duarte Cordeiro também tentou fazer esse movimento, mas Duarte Cordeiro, percebendo ou interpretando que a intenção de José Luís Carneiro era precisamente esta, de fazer com que quem estivesse dentro automaticamente concordasse com as políticas do PS, não quis ficar na Comissão Política Nacional. No caso de Mário Centeno, não sendo militante, não estaria nestes órgãos de direção do partido, mas é um ativo importante para o Partido Socialista, foi ministro das Finanças dos governos Costa até 2020 e, portanto, é uma figura que Mário Centeno quer ter nas suas fileiras e chamou para integrar várias das iniciativas que tem a decorrer para produzir ideias para um futuro programa do governo e tenta sempre integrar Mário Centeno. Chamou para as jornadas parlamentares, para uma das sessões das jornadas parlamentares do Partido Socialista Ainda recentemente, depois acabou por ouvir críticas à sua proposta de IVA zero no cabaz alimentar por parte de Mário Centeno, nessa mesma cadeira das jornadas parlamentares.
Aliás, há um episódio curioso. Mário Centeno sempre foi contra a história do IVA zero, que entrou em vigor no tempo do governo de António Costa, e ele até tinha um episódio curioso que tu recordas no teu artigo.
Nesse texto das jornadas parlamentares, que é ele a dizer que quando já não era ministro, na altura era governador do Banco de Portugal, em 2023, quando essa medida esteve em vigor, que Mário Centeno enviava às vezes fotografias do supermercado de um queijo, que era o queijo pecorino com trufas. E enviava a membros do governo para os picar e dizer que de fato aquela medida acabava por beneficiar pessoas que não precisavam dela.
Pessoas que podiam comprar queijo pecorino com trufa.
Exato, e que também recebiam IVA zero.
Nesse produto. Portanto, ele não deixou de criticar as medidas do PS. Eu estou aqui a passar à frente das críticas que ele tem feito regularmente ao governo, porque essas são as mais expectáveis e por si só não diriam rigorosamente nada sobre ambições políticas de Mário Centeno. Mas ele, mesmo sendo posto dentro do que é possível dentro do PS, junto do círculo de José Luís Carneiro, ele tem sido crítico também. Essa é uma das propostas que José Luís Carneiro quer recuperar. Mário Centeno já disse publicamente, não concorda com ele. Portanto, ele é, desse ponto de vista, recordamos aqui a expressão, o livre-pensador. O problema é que esta expressão livre-pensador também não é uma expressão inocente, ela tem histórico no Partido Socialista.
Tem, tem um histórico interessante. Foi utilizada por quem? Por Pedro Nuno Santos, em 2023. Não sei se te recordas, mas quando Pedro Nuno Santos se demite de ministro das infraestruturas, depois daquela polêmica indenização na TAP, faz um período de travessia do deserto que acaba uns meses depois, em outubro desse ano, quando ele entra para a SIC Notícias para um comentário semanal. Um comentário semanal esse que seria pouca-dura, mas essa é outra conversa.
Porque a vida política deu ali uns trambolhões.
É a primeira vez que Pedro Nuno Santos vai para o comentário, posiciona-se e diz ao que vem. E diz que é precisamente um livre-pensador, um comentador que é um livre-pensador, que é aquela tentativa de não se colocar como alguém que vem desafiar a liderança, na altura de António Costa, mas que quer dar as suas opiniões e fazer o seu caminho, evidentemente, e o caminho depois até se atravessou mais rápido do que ele gostaria.
Sim, no caso de Pedro Nuno Santos, a coisa era demasiado evidente e a própria realidade acabou por tornar a coisa muito às claras.
Mas aqui é a direção do Partido Socialista que está a chamar livre-pensador a Mário Centeno.
Lá saberão por que escolheram essa palavra.
Luís desta lá saberá por que escolheu esta expressão, que é uma expressão que já desembocou num líder. Faço sempre a ressalva, Mário Centeno não é filiado no Partido Socialista.
Sim, e as circunstâncias também são diferentes.
E as circunstâncias são diferentes, evidentemente, e a vantagem, aquilo que ele procura mais capitalizar nesses tempos é precisamente essa sua liberdade de independente e a sua leitura das contas públicas e a bandeira das contas certas, de que ele era a principal cara no governo de António Costa, porque era o ministro das Finanças, e trazer para cima da mesa numa altura especialmente sensível. Por isso, quando tu há bocado dizias que é normal que ele faça críticas ao governo e que isso não o coloca, evidentemente, como alguém que quer suceder a José Luís Carneiro do outro lado. Mas a verdade é que colocar-se como alternativa também a Luís Montenegro acaba por mostrar que está ali uma figura que pode ter vantagens, e uma das vantagens é o conhecimento das contas públicas, pelo menos ele está todos os dias a lembrar isto, e como era mais importante ir por medidas do lado da despesa e não por medidas do lado da receita, que são aquelas que mexem na fiscalidade e que são tanto as que estão na proposta de Luís Montenegro como também de José Luís Carneiro.
E eu acrescentaria aí outra coisa, que uma das revelações que foi feita por Mário Centeno foi que ele chegou a propor a António Costa assumir uma espécie de pasta que, olhando de fora, parecia quase de vice-primeiro-ministro, mas que era uma pasta que olhava para o Serviço Nacional de Saúde e que tinha uma visão de gestão sobre aquilo que devia ser feito. Tu achas que essa revelação feita agora também, se quiséssemos acreditar numa tese de que Mário Centeno está a preparar, eventualmente, um caminho político dentro do Partido Socialista, também era importante ele posicionar-se em áreas que não sejam estritamente áreas financeiras.
Sim, é que é uma área muito sensível da governação, nós todos sabemos. E, portanto, o que ele está a procurar mostrar é que tem capacidade para combinar essa vertente das contas certas com uma vertente que vem por ordem, que é uma ideia que eu acho que ainda vinga no eleitorado português, de pôr ordem numa área que está caótica, que é a saúde, e eu acho que não é inocente. Sendo certo que nós estamos sempre aqui com aquela ideia de que está a preparar-se ou está a fazer... eu acho que a palavra será posicionamento. É alguém que está no panorama público a posicionar-se para, se um dia esse comboio passar, ele saltar lá pra dentro e tentar agarrar. Olha, agora fui para termos ferroviários e depois não sei sair desta.
Ferroviários também remete para Pedro Nuno Santos, não sei se...
Mas ir ao comando da carruagem.
Muito bem. Rita, e a verdade é que ele, não estando comprometido, porque este posicionamento não significa um compromisso com nenhuma candidatura, nem com coisa nenhuma, até porque o lugar não está em aberto Mas ele próprio até tem olhado para as sondagens. A questão é: tu achas, olhando agora para as circunstâncias políticas atuais, que é viável, num tempo mais próximo, que Mário Centeno anuncie que quer desafiar o poder de José Luís Carneiro?
O quadro é muito apertado para Mário Centeno, porque ele tinha que estar dentro de um partido, porque são os partidos que concorrem a legislativas obrigatoriamente. Portanto, Mário Centeno tinha que estar dentro de um partido, tinha que liderar esse partido para ser ele o candidato a primeiro-ministro. Ninguém está a imaginar que possa ser o líder do partido. Alguém pode estar, mas José Luís Carneiro não está, com certeza, em ser ele o líder do partido e arranjar alguém que esteja mais capaz para ser candidato a primeiro-ministro. Seria assumir que não era um líder forte do partido, portanto, não me parece que isso esteja em cima da mesa da atual liderança. Nesse texto de há dois meses, havia socialistas que diziam que não viam muito Mário Centeno encaixar no perfil do Ruteiro da Carne Assada, daquele político que faz essa corrida, quando a concelhia aconselha, tentar recolher apoios, e não bastaria que alguém fizesse por ele. E concorrer contra José Luís Carneiro, nesta altura, seria também complicado, porque José Luís Carneiro já fez variadíssimas voltas ao país e dessas mesmas concelhias, portanto, tem o aparelho mais ou menos na mão.
E verdade é que está a recuperar nas sondagens.
E tem esse problema, que está a recuperar nas sondagens, e isso tem feito recolher alguma dessa oposição, ou pertence à oposição interna no Partido Socialista. Porque foi um trauma tão grande aquilo que se passou nas últimas legislativas, que ninguém ousa criar problemas ao partido numa altura em que o partido está a subir na confiança junto dos portugueses. Há esse cuidado, há essa cautela agora de ninguém querer estragar este quadro, que ainda é um quadro que saberemos mais adiante se dará uvas ou não. Faltam muitos anos para haver eleições. Esperamos nós, que não temos vontade de ir já para uma campanha eleitoral.
É isso mesmo. Rita, obrigado.
Obrigada, Pedro.
Eu conversei hoje com a Rita Tavares, a jornalista de política do Observador, que há anos cobre os corredores do Partido Socialista. Mário Centeno vai andar por aí. Para já, não há nenhuma vaga em aberto e ele nem sequer é militante do Partido Socialista. Mas a política em Portugal, nesta fase, não convida a previsões de mais de seis meses. E portanto, nestas coisas, ter um lugar já marcado para o que der e vier, não prejudica, pelo contrário. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.