“Pensam que a gente sabe tocar as músicas do meu pai? A gente não sabe. O avô Zequinha, pai do meu pai, era telegrafista; perguntem ao meu pai se ele sabe código Morse”, disse Moreno, arrancando do público múltiplas gargalhadas para depois acrescentar: “Mas eu gostei desta aventura de aprender uma música para cantar para vocês porque, em primeiro lugar, é muito bom fazer o nosso pai feliz”.

E assim foi: Moreno, Zeca e Tom fizeram o pai feliz ao cantarem “Leãozinho”. E com eles, todos cantaram o clássico de Caetano Veloso, plateia inteira a acompanhar, já o espetáculo ia a meio. Ritmo, cumplicidade e emoção foram as regras na apresentação de “Ofertório” que, mais do que um espetáculo, é uma reunião familiar com conversas entre pai e filhos, sempre com sentido de humor e descontração, quase como se estivessem na sala de estar e não numa sala de concertos.

Apesar do calor — a maioria das pessoas abanava leques, panfletos ou o que tivesse à mão — a noite não teve travão na festa, principalmente quando os baianos saltavam das cadeiras para dar um pezinho de dança. O primeiro a fazê-lo foi o mais novo, Tom Veloso, que sambou descalço ao ritmo de “Alexandrino”, sempre acompanhado pelos gritos, risos e palmas de quem assistia. E se em “Um passo à frente”, interpretada pelo mais velho dos filhos, Caetano já dava, ainda que sentado, passos à frente e atrás o melhor estaria para vir. Afinal, o que era um concerto de Caetano se Caetano não dançasse também? É certo que os movimentos de ombros, braços e pernas estiveram sempre presentes — aliás, era impossível não estarem –, mas foi depois mais tarde, com a contagiante “How Beautiful Could Being Be”, que o artista mostrou como se faz. Moreno, o filho mais velho, chamou-o para se juntar a ele e, para delícia do público, os dois sambaram acompanhados por palmas e muitos assobios.

Os quatro Veloso em palco (fotografia do concerto do Porto)

Para lá dos ritmos brasileiros, Caetano partilhou algumas histórias sobre as músicas escolhidas, tanto por ele, como pelos filhos. “Esta canção que acabamos de cantar, ‘Boas vindas’, fiz quando o Zeca nasceu. E agora o Zeca, a única estrela entre nós — porque Moreno já toca há 20 anos, Tom há mais de dois e eu há mais de não sei quantos — vai cantar uma música dele”. Eis que, no palco, se vê apenas o mais reservado dos filhos do baiano, o único iluminado pelo foco de luz. Senta-se ao piano para dar voz a “Todo Homem”, arrepiando até os menos sensíveis. E é quando os quatro cantam, em coro, “Todo o homem precisa de uma mãe” que as luzes se expandem e se pode ver novamente a família completa.

Entre a simplicidade do cenário e a euforia do público, entre a emoção e os ritmos mais alegres e mexidos, houve também espaço para homenagens. Uma delas, ao cenógrafo brasileiro Hélio Eichbauer — que foi casado com a mãe de Moreno “por quase 30 anos”, e que morreu na semana passada – e cujo trabalho está também representado em “Ofertório”. É que, no cenário que dá vida ao palco onde os quatro estão sentados em fila, há uma série de imagens projetadas — ora quatro linhas no horizonte,que se entrelaçam, ora uma esfera, em tons de amarelo e vermelho –, pensadas por Eichbauer.

Antes de se ouvir “Ofertório”, uma canção escrita originalmente em homenagem à mãe de Caetano Veloso “como se fossem palavras dela”, o músico explica o que aí vem. “Eu não sou religioso”, começa por dizer, para depois acrescentar: “Os meus filhos são religiosos e vou cantar esta música (…) como homenagem à religiosidade dos meus filhos”. Ao longo da noite, a cumplicidade entre os quatro e a dinâmica em palco foram prendas raras. É que os filhos de Caetano Veloso iam trocando de lugar entre si, bem como de instrumentos – havia um prato e uma faca (sim, era mesmo um prato e uma faca), utilizados por Moreno, pandeireta, guitarras e piano –, despertando particular atenção por parte do público. Caetano Veloso não quis deixar de fazer também uma homenagem às mães dos filhos, dedicando-lhes duas canções.

Quando saíram de cena pela primeira vez, o público estava esperançoso de que voltassem a pisar o palco. E aconteceu mesmo. “Incrível estar de novo no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Já estive aqui muitas vezes, mas nunca estive tão nervoso. Fizemos uma tour pela Europa e já é muita coisa. Chegamos a Lisboa e é muito especial”, tinham sido estas as palavras do músico logo depois de cantar as três primeiras músicas, “Alegria, Alegria”, “O seu amor” e “Boas Vindas”. E como o local é especial, Veloso e os filhos presentearam o Coliseu com uma canção conhecida do povo português. Da voz de Moreno ouviu-se “Noite de Santo António”, de Amália Rodrigues:

“Enquanto os bairros cantarem
Enquanto houver arraiais
Enquanto houver Santo António
Lisboa não morre mais”

Depois de Amália Rodrigues, foi a vez de cantar “Amar pelos dois”. Desta feita foi Caetano Veloso – que já tinha interpretado o tema com Salvador Sobral na final da Eurovisão — quem deu voz à letra de Luísa Sobral, acompanhado, claro, pelas cantorias da plateia. Depois, voltaram a sair de palco, lançando um sinal falso de fim de concerto.

Para o fim, deixaram “Eta, Eta, Eta”. O público acedeu ao pedido para cantar sozinho, depois de Caetano e os filhos terem dado o embalo necessário. Era o momento certo. Se havia felicidade na cara de todos, então chegava a hora e a noite acabava por ali.

Texto atualizado às 18h38 com alteração da música que Tom Veloso sambou descalço para “Alexandrino”.

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