Em 1999, Plácido Domingo visitava Portugal e cantava “Otello”, de Verdi. Não sabemos como estava o Largo São Carlos nessa data, mas diríamos que estava como neste domingo, com aquela sensação de que este não era apenas mais um dia no Chiado. Uma hora antes do começo do evento, já não sobravam bancos de jardim, havia gente apressada com fatos ao ombro que fintava muitos outros sem pressa, de vestidos esvoaçantes ou de laço ao pescoço; cigarrilhas e cachimbos acesos; bigodes de tempos idos e ainda uns quantos que foram só a casa tomar banho, “acabadinhos de chegar de Tróia”. Era dia de ópera, mas não era uma ópera tradicional.

A Operalia – criada pelo mítico tenor e maestro espanhol Plácido Domingo em 1993 – é uma competição que visa premiar e lançar as melhores jovens vozes de ópera do mundo e por isso o burburinho, as expectativas, o tradicional “o-meu-preferido-é” estiveram sempre a rondar o edifício. Isso e Patrick Dickie, o inglês que é diretor artístico do TNSC e trocou dois dedos de conversa connosco sobre o evento:

“O Plácido queria passar algum tempo em Portugal e portanto fui abordado para fazermos o Operalia no verão do ano passado. A Operalia já esteve em vários cantos do mundo e acho que Portugal era um destino óbvio. Consegues sentir a história quando estás no São Carlos, é um grande palco de ópera. E o Operalia é um grande evento, chama o público local, é transmitido online e na televisão, para nós é uma oportunidade fantástica, e também que ele trabalhe com a nossa orquestra, claro”.

O trabalho entre a Orquestra Sinfónica Portuguesa e Plácido Domingo correu na perfeição. Durante a final, na qual o espanhol dirigiu a orquestra em todas as árias a concurso, nenhum dos catorze finalistas se queixou (caso para dizer “era o que faltava”). E o segundo em palco – na categoria de ópera – foi Luís Gomes. Os aplausos e gritos que encheram a sala antes e depois da interpretação de “Tombe degli avi miei”, de “Lucia di Lammermoor”, de Donizetti, pareciam mais de claque futebolística do que de público de ópera. O que não nos pareceu nada mal, se está um português a competir só temos é de apoiar.

Pavel Petrov, Plácido Domingo e Emily D’Angelo

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A euforia em torno de Luís Gomes já sugeria que ele fosse vencer o Prémio do Público, cortesia de quem joga em casa e muito bem. Pois lá ganhou. Mas melhor foi ter vencido também o 1º Prémio de Zarzuela (onde cantou “La roca fría del calvario”, de “La Dolorosa”, de José Serrano). E por causa de um empate, a organização decidiu atribuir dois primeiros prémios, tendo o tenor português dividido o protagonismo com o bielorrusso Pavel Petrov.

E se dividiu, pois bem, é a vida, sobretudo quando Pavel Petrov é anunciado ainda como vencedor do 1º Prémio de Ópera (voz masculina), saindo do São Carlos de mala cheia e talvez com uma ou duas propostas de trabalho. Essa que é também a maior esperança de Luís Gomes, que já no final, nos confessou estar surpreendido com o prémio arrecadado na categoria de Zarzuela:

“Recusei alguns trabalhos para poder estar aqui, mas agora espero ter outras propostas, estão aqui os mais importantes diretores de casting e das melhores salas do mundo. Esta vitória na Zarzuela já compensou esses trabalhos que tive de recusar. O Prémio do Público é obviamente muito especial porque significa que as pessoas vieram aqui para me apoiar, é jogar em casa, foi uma noite fantástica”.

Mais cedo, ainda a procissão ia no adro ou a competição a meio caminho, subiu ao palco Emily D’Angelo, meio-soprano nascida no Canadá e com família italiana, que nos surpreendeu pelo seu vestido preto discreto, por contraste às coloridas e ousadas opções das candidatas anteriores. Não é que sejamos especialistas, mas havia ali qualquer coisa. Isto ainda antes de D’Angelo começar a cantar. Escolheu “Dopo notte”, de “Ariodante”, de Georg Friedrich Händel e cantou-a até arrepiar pelo menos três quartos da plateia – embalada talvez pela forma como os violinos da Orquestra Sinfónica Portuguesa se agitavam de modo tão sincronizado, tal e qual aquela natação olímpica que tanta admiração nos dá. Os bravos ouvidos no final indicavam o que viria a acontecer: Emily D’Angelo venceu o 1º Prémio em Ópera (voz feminina), o prémio do público para voz feminina e o prémio Zarzuela Pepita Embil de Domingo.

Levou ainda para casa, tal como a norte-americana Samantha Hankey, o Prémio Birgit Nilsson. Aplaudimos, tal como aplaudimos novamente Luís Gomes. Que ninguém nos leve a mal, mas esta é das poucas vezes onde podemos ser assumidamente tendenciosos sem grandes questões éticas. E se estamos em modo “viva Portugal”, então viva Marcelo: o Presidente da República também apareceu no palco, a meio da cerimónia, para dizer que Plácido Domingo “parece um teenager”. O mesmo Presidente que ainda há uns dias andava a banhos no centro do país com uma performance também ela digna de um jovem. Talvez para o ano torçamos por ele na Operalia. Entretanto, viva Luís Gomes.