“À Porta da Eternidade”

O cinema não deixa Van Gogh em paz. Agora, é Julian Schnabel, ele próprio também artista, que recria os últimos dias da vida do pintor, em Arles e Auvers-sur-Oise, dando a Willem Dafoe o papel de Van Gogh. É um filme muito desigual, em que Schnabel usa e abusa da câmara à mão, do ponto de vista subjetivo e dos grandes planos de caras, onde as personagens falam inglês, francês ou inglês “enlatado”, e parecendo querer evitá-los, contabiliza todos os clichés do filme biográfico convencional sobre Van Gogh (os tormentos mentais, a orelha cortada, a febrilidade criativa e a sobreexcitação emocional perante a natureza), pretendendo ainda filmar como ele pintava, de forma brusca, com gestos rápidos e pinceladas largas. Apesar de ser muito mais velho que Van Gogh, Dafoe personifica-o de forma convincente (está nomeado ao Óscar de Melhor Actor), há momentos visuais muito bons (o campo de girassóis mirrados pelo sol) e Julian Schnabel foi buscar muito do texto do argumento às cartas do pintor (o diálogo entre ele, o adorador do sol e da luz, e o sombrio padre de Mads Mikkelsen, é um dos pontos altos de “À Porta da Eternidade”). Mas o filme fica muito aquém do “Van Gogh” de Maurice Pialat (1991) e do realismo sóbrio com que este retrata o artista e mostra o seu olhar sobre o mundo.

“Destroyer: Ajuste de Contas”

Uma Nicole Kidman tornada feia e envelhecida prematuramente por via de maquilhagem e próteses, interpreta, neste filme de Karyn Kusama, Erin Bell, uma ex-agente do FBI e agora detetive da polícia de Los Angeles. Erin é uma mulher física, anímica e psicologicamente devastada, que volta a investigar o caso que lhe deu cabo da carreira de agente federal e mudou o rumo da sua vida pessoal e familiar, quando descobre que o perigosíssimo líder do bando de criminosos em que, 15 anos antes, esteve infiltrada com um colega, saiu da toca. “Destroyer: Ajuste de Contas” é um “thriller” literal e simbolicamente envolvido em negrume, narcotizado e arrastado (tirando uma eletrizante sequência em que Erin, de metralhadora nas mãos, procura frustrar um inesperado assalto a um banco), filmado por Kusama numa Los Angeles feia, encardida e de becos, baldios e ruas laterais, comprazendo-se no exibicionismo da devastação exterior e interior da personagem de Kidman, que atravessa o filme num estado algures entre o “zombie” e a ressaca permanente. Trata-se de um papel claramente concebido para namorar uma nomeação ao Óscar de Melhor Atriz, mas que não pegou com a Academia.

“Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro”

Primeiro filme de uma trilogia adaptada de um livro do escritor e argumentista François Bégaudeau (“A Turma”), “Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro”, conduz Abdellatif Kechiche de regresso à zona costeira francesa de Sète, onde rodou o seu melhor filme, “O Segredo de um Cuscuz”, em 2007. A história passa-se em meados dos anos 90 e acompanha o jovem Amin (Shaïn Boumedine), que quer ser fotógrafo e argumentista e vive há um ano em Paris, e voltou à cidade natal para passar as férias de Verão, reencontrar a família e os amigos e arranjar uma namorada. Ao longo de três horas, Kechiche filma, de forma sensual, impressionista e hedonista, como se estivesse a fazer um longo e despreocupado “home movie” de Verão, as movimentações de Amin e daqueles que o rodeiam, saltando de sítio em sítio e andando de personagem em personagem, nas praias, nos restaurantes e nas discotecas, sem grandes preocupações de enredo ou de interação e conflito dramático, deixando que a fita, que tem pormenores belíssimos e uma vigorosa aura erótica, acabe por se enredar no seu próprio estilo e comece a repetir-se.

“Correio de Droga”

Inspirando-se no caso real de Leo Sharp, um horticultor e veterano da II Guerra Mundial que se tornou no mais velho correio de droga do mundo, e foi objecto de uma reportagem no “The New York Times” em 2011, Clint Eastwood realizou e interpretou “Correio de Droga”, onde interpreta Earl Stone, um homem  de 90 anos que, devido à Internet, viu o seu negócio de flores ir à ruína e foi despejado de casa. Earl deixou-se absorver de tal forma pela paixão pelas flores, que alienou toda a família: ex-mulher, filha, genro cortaram com ele há muito tempo, e só a neta, que se vai casar em breve, ainda fala ao avô.  Apesar de ser um marido e pai deficiente, Earl é um cidadão-modelo. Cumpre rigorosamente a lei, não tem cadastro e guia tão bem e com tanto cuidado, que nunca sequer foi multado. Por isso, tem o perfil ideal para ser recrutado como correio de droga por um cartel mexicano. Quem desconfiará que um anónimo nonagenário, veterano da guerra da Coreia e cidadão exemplar, transporta na sua carrinha sacos com cocaína?  E o dinheiro dá-lhe jeito para tentar reconciliar-se com a família. “Correio de Droga” foi escolhido com filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.