Earl Stone, o protagonista de “Correio de Droga”, odeia a internet. Foi a internet que lhe deu cabo do seu negócio de horticultura, outrora próspero, que lhe trazia prémios, prestígio e a adulação dos colegas e dos amigos nas exposições de flores. Assim, Earl vê-se, aos 90 anos, sem a estufa, despejado de casa pelo banco, e sem ter para onde ir. Porque Earl deixou-se absorver de tal forma pela paixão pelas flores, que alienou toda a família: mulher, filha, genro cortaram com ele há muito tempo, e só a neta, que se vai casar em breve, ainda fala ao avô. Mas apesar de ser um marido e pai deficiente, Earl é um cidadão-modelo. Cumpre rigorosamente a lei, não tem cadastro e guia tão bem e com tanto cuidado, que nunca foi multado.

[Veja o “trailer” de “Correio de Droga”]

Por isso, Earl tem o perfil ideal para ser recrutado como correio de droga por um cartel de narcotráfico mexicano. Quem desconfiará que um nonagenário, veterano da Guerra da Coreia e cidadão exemplar, transporta na sua carrinha sacos com cocaína, ao pé de outros com nozes-pecãs ou sementes de flores? Entusiasmado e deslumbrado com as grandes somas que recebe de imediato por cada viagem, Earl vai usá-las para se reconciliar com a família, compensá-la por toda a deceção e amargura que lhe causou, e todas as vezes que lhe falhou, e ainda para beneficiar os veteranos de guerra como ele (e gozar um pouco a vida). Earl é uma pessoa de bem que se mete com as pessoas erradas pelas razões certas.

[Veja uma entrevista com Clint Eastwood e Dianne Wiest]

Earl Stone (o filme baseia-se no caso real de Leo Sharp, o mais velho correio de droga do mundo, objeto de um artigo no “The New York Times”) é uma daquelas personagens que Clint Eastwood tem vindo a encarnar em muitos dos filmes que assina e protagoniza desde a década de 90, de “Imperdoável” até “Gran Torino”. Um homem na reta final da vida, individualista, teimosa e orgulhosamente dessintonizado do mundo contemporâneo, fiel aos seus valores, sem filtro no discurso e na forma de pensar, por vezes com dificuldade em traduzir pelo verbo os seus sentimentos. E, no caso de Earl, também um homem imperfeito, que se apercebe de súbito do mal que fez àqueles que amava, e tenta corrigir os erros e sarar as feridas do passado antes que seja tarde demais.

[Veja uma entrevista com Bradley Cooper]

“Correio de Droga” não é mais um filme sobre o tráfico de droga, e deve ser o único que envolve cartéis e a DEA em que não é disparado um só tiro. Escrito por Nick Schenk (“Gran Torino”), esta é mais uma das meditações de Eastwood sobre a velhice, com o fardo de experiência que traz, mas também as suas indignidades e deceções; a par de uma história de redenção familiar tardia e com contornos insólitos. (Para que Earl Stone estivesse bem acompanhado na sua jornada pelo lado errado da lei, Eastwood recrutou nomes como Bradley Cooper, Andy Garcia, Laurence Fishburne ou Michael Peña, e para interpretar os membros da família, Dianne Wiest, a sua filha mais velha, Alison Eastwood, e Tessa Farmiga na neta fiel ao avô).

[Veja uma entrevista com Laurence Fishburne]

O filme é esplendidamente realizado, com a sobriedade clássica, eloquente e pragmática que é característica de Clint Eastwood, o seu sentido consumado da geometria narrativa e o seu domínio da contenção emocional  (ver a comedida mas intensa cena entre Earl e a ex-mulher, interpretada por Dianne Wiest, em que ela sintetiza tudo numa frase: “Foste o amor da minha vida, foste a dor da minha vida”), sem um grama de ganga, no gesto visual, no discurso dramático, no desenho das personagens, no contar da história ou na apresentação da moral — porque “Correio de Droga” é um filme moral, embora nunca moralista.

[Veja Clint Eastwood com a família na antestreia de “Correio de Droga”]

Eastwood, de 88 anos, interpreta o nonagenário Earl com a sua consabida parcimónia expressiva, na afabilidade e na simpatia como na revolta e na amargura, olhos semi-cerrados e boca que tanto pode rasgar um sorriso como contorcer-se num esgar, a cara encarquilhada formando um mapa para as emoções e as reações da personagem, o andar de idoso exagerado na fragilidade mas nunca demasiado vulnerável (ele é um daqueles atores que, como John Wayne, James Stewart ou Cary Grant, desenvolveu uma maneira pessoal e inconfundível quer de estar, quer de se movimentar perante a câmara).

“Correio de Droga” é, mais uma vez, um filme em tudo contra a corrente do que se faz hoje em Hollywood. E Clint Eastwood é um dos seus últimos resistentes à enxurrada da vulgaridade, da uniformização e da diluição do humano no digital.