Rádio Observador

Ciência

“Homo luzonensis”: uma nova espécie de humanos foi descoberta nas Filipinas

770

Foram descobertos ossos e dentes nas Filipinas que pertencem a uma espécie humana que era até ao momento desconhecida. Chama-se "Homo luzonensis".

No total, foi encontrada numa gruta nas Filipinas uma dúzia de partes do corpo fossilizadas, desde dentes, um osso da coxa, ossos dos dedos e ossos do pé

PROJECTO ARQUEOLÓGICO DA GRUTA DE CALLAO

A árvore genealógica humana cresceu e os livros de história vão ter de acrescentar mais uma espécie humana às que, até agora, eram conhecidas. Um grupo de cientistas revelou esta quarta-feira à revista Nature a existência de uma nova espécie humana.

Para chegar a essa conclusão, os cientistas analisaram alguns ossos fossilizados encontrados numa gruta na ilha de Luzón, nas Filipinas, que correspondem a três indíviduos. A espécie, designada Homo luzonensis (em homenagem ao nome da ilha), terá habitado a Terra há 67 mil anos, o que indica que estes hominídeos viveram simultaneamente com a nossa espécie, Homo sapiens, que surgiu há cerca de 300 mil anos. A grande diferença é que os Homo sapiens caminhavam apenas recorrendo às duas pernas, enquanto que os Homo luzonensis utilizavam também os braços e mãos para o fazer.

Os ossos foram sendo descobertos entre 2007 e 2015, mas foi em 2011 que o arqueólogo Armand Mijares, da Universidade das Filipinas, juntamente com a sua equipa, encontrou a maior parte dos fósseis. Nessa altura não conseguiram identificar a espécie, apenas chegaram à conclusão de que os ossos pertenciam a um ser humano que tinha lá vivido há 67 mil anos. Agora, a equipa decidiu comparar os ossos encontrados na gruta de Callo, no norte da ilha de Luzón, com os de outras espécies humanas.

Ainda que a constituição deste hominídeo continue a ser, de certa forma, um enigma — uma vez que é impossível saber como era o rosto destes indivíduos por não terem sido encontrados fragmentos do crânio, nem qual era a estrutura do corpo porque o único osso que o permitira saber estava partido –, certo é que a investigação levada a cabo pelos cientistas sugere que as características físicas desta espécie são uma mistura de espécies humanas antigas com características dos humanos atuais. Os dedos e ossos dos pés são curvos, o que leva os cientistas a concluir que a escalada ainda era uma atividade importante para esta espécie.

Gruta de Callao, nas Filipas, onde foram encontrados os ossos fossilizados

No total, foi encontrada na gruta uma dúzia de partes do corpo fossilizadas: dentes, um osso da coxa, ossos dos dedos e ossos do pé, que representam três indivíduos – dois adultos e uma criança. Os cientistas tentaram extrair o ADN através destes ossos, mas sempre sem sucesso.Em declarações ao jornal Público, Armand Mijares explica que os cientistas chegaram à conclusão de que se tratava de uma nova espécie combinando as características acima referidas. “Se observarmos cada característica uma por uma, perceber-se-á que estão numa ou em várias espécies de hominídeos ao mesmo tempo”, afirmou Mijares. Ainda assim, há uma maior aproximação às espécies do género Homo do que às do géneros Australopithecus e Paranthropus.

Como as partes do corpo são pequenas, os investigadores sugerem que esta espécie, Homo luzonensis, não passou de um metro de altura. Florent Detriot, paleoantropólogo do Museu Nacional de História Natural de Paris e um dos autores do estudo, explica ao The Washington Post que esta descoberta leva a confirmar que “há alguns milhares de anos, o Homo sapiens não estava, definitivamente, sozinho na Terra”.

Mas como é que esta espécie chegou à ilha de Luzón?

Os cientistas não têm uma resposta para dar a esta pergunta. O que inquieta nesta questão, é o facto de a ilha de Luzón estar cercada pelo mar há dois milhões e meio de anos. Tendo isso em conta, como é que estes hominídeos chegaram à ilha? Como é que atravessaram esse mar?

O El País refere duas teorias avançadas pelos investigadores: a primeira, considerada também a mais plausível, coloca a possibilidade dos Homo luzonensis serem descendentes do Homo erectus, o primeiro hominídeo que deixou a África e povoou a Ásia há 1,8 milhão de anos. Assim, a espécie teria evoluído ao longo dos milhares de anos, tendo dimensões menores do que as dos seus antepassados. Esta hipótese permite justificar o tamanho dos dentes, por exemplo, cujas dimensões correspondem às do ser humano que vive nas Filipinas, na Malásia e nas Ilhas Andaman.

A segunda opção é que o luzonensis seja descendente de uma espécie que deixou a África antes do erectus, possivelmente de Australopithecus. Não existem fósseis para apoiar esta hipótese, sendo por isso mais difícil de a sustentar, mas o argumento apresentado pelos cientistas remete para a aparência “frankensteiniana” destes hominídeos.

Já o paleoantropólogo americano Erik Trinkaus acredita que nenhuma destas opções é plausível e defende que o luzonensis era um humano doente, já que viveram numa época em que as “malformações eram muito abundantes”. O mesmo tinha dito em relação ao hobbit de Flores, descoberto em 2014, na Indonésia, depois de encontrados alguns fósseis que revelavam que já tinham existido ali pequenos humanos há centenas de milhares de anos, designados como Homo floresiensis.

Armand Mijares refere ao Público que não há, para já, mais registos de outros humanos em Luzón nessa altura. Nas Filipinas só se tinha datado ossos do Homo sapiens com 30 a 40 mil anos. Ou seja, os vestígios do Homo luzonensis são os mais antigos para uma espécie humana nesse arquipélago.

Até agora eram conhecidas então cinco espécies Homo: os neandertais, denisovans, hobbits de Flores, erectus e sapiens. Com os Homo luzonensis, passam a ser seis.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: sfaria@observador.pt
Rússia

A Cortina de Ferro volta a fechar-se? /premium

José Milhazes
249

Os cientistas estrangeiros, quando de visitas a organizações científicas russas, só poderão utilizar gravadores e máquinas copiadoras “nos casos previstos nos acordos internacionais".

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)