[ATENÇÃO: este texto tem SPOILERS sobre a oitava temporada da Guerra dos Tronos. Se não quer saber mais, não leia]

É difícil saber imediatamente o que dizer de relevante quando chega ao fim uma história de oito anos. À hora a que ler este texto, já a internet estará a encher-se de críticas, bitaites, memes, piadinhas e abaixo-assinados, uns a favor e quase todos contra. E portanto, uma vez que a última coisa que faz falta ao mundo é mais um texto cínico à procura do melhor sound bite sobre o fim da “Guerra dos Tronos”, tentemos outra coisa: um texto indeciso, ou apenas moderado, no fundo uma coisa assim-assim. Como o fim da “Guerra dos Tronos”.

A dado momento, todos sonhámos que “Guerra dos Tronos” seria mais do que isto. É indiscutível. Que seria uma grande reflexão sobre a morte e, portanto, (ó chavão dos chavões!, mas não há outra forma de o dizer) o sentido da vida, como nunca antes o grande entretenimento televisivo ousara fazer. Ou que, pelo menos, seria um esplêndido tratado de ciência política – e, nesse sentido, um discurso para os nossos tempos – que levaria as personagens do tempo do absolutismo à fundação da democracia.

Mas GoT não chega a ser a primeira e apenas cumpre em parte a segunda. Sofre de ter apressado tudo, sem explicação, talvez não apenas nesta última temporada, mas nas duas últimas. Chegou tão perto da obra-prima e deixou escorrer o génio por atalhos simplistas e soluções rápidas. Será que os autores não tiveram mãos para a própria obra? Foram simplesmente negligentes e sobranceiros? Ou teremos sido nós, esta insuportável plateia de milhões de espertinhos a opinar pelo mundo inteiro, quem elevou demasiado as expectativas por considerar todas as hipóteses e mais alguma quando, no fim do dia, continuavam a ter de ser dois tipos numa sala a decidir o que ia acontecer – e era bom que não fosse nada que já tivéssemos pensado e que fosse pelo menos melhor do que tudo o que tivéssemos pensado?

Hoje, só queria escrever-lhe que o final da “Guerra dos Tronos” foi do caraças (pedimos desculpa pelo vernáculo, mas, como já explicámos em ocasião própria, não sabemos como isto se diz em Alto Valiriano). Mas não foi. Também não foi um fracasso nem um flop, ou já não nos importaríamos com estas personagens. E importamos – rolam os créditos finais e custa-nos dizer-lhes adeus. Chateia-nos saber que seguirão sem nós.

Todas as semanas choveram teorias sobre como acabaria GoT: quem viveria e quem morreria, quem se sentaria no trono. E todas falharam. Mesmo com o restrito número de personagens que sobreviveu até ao derradeiro episódio, GoT conseguiu surpreender nas combinações e ser, ainda assim, consistente. Não é pouco.

Mas qualquer coisa volta a falhar neste último dia. Uma nova promessa que se levanta e não cumpre. Qualquer coisa que acaba antes mesmo de começar – como o Inverno tão anunciado. Temos dois episódios dentro de um: um é belo, frio e terrível. A ascensão de Daenerys a rainha má, a antecâmara do novo mundo, da nova ordem, os exércitos marchando sobre as cinzas, o requiem de Westeros – o plano estrondoso de Daenerys confundindo-se com o dragão. Mundo sufocante, claustrofóbico, sem esperança – a neblina de neve e cinzas impossibilitando qualquer possibilidade de horizonte. O mundo crepuscular da antiga capital caída em desgraça, o trono de ferro a céu aberto, exactamente igual à visão profética de Daenerys.

E depois aquele encontro magistral entre Daenerys, Jon Snow, o trono e o dragão. Os quatro elementos-chave de tudo isto, clímax de toda a história de Westeros. A cena que alguém teve de escrever, sabendo que tinha de fazer, simplesmente, a cena mais importante da história da televisão… E que tem o som de punhal de que nunca nos esqueceremos. E um dragão que, no fim do dia, toma a decisão mais razoável da história de Westeros.

Só que a seguir começa um segundo episódio que é um telefilme simpático em que tudo se resolve com meia dúzia de piadas, dois ou três perfis solenes olhando o horizonte e um sorriso para um lobo que abana a cauda. (Sim, esse momento, caro leitor. Esse terrível momento em que voltamos à Muralha e juraríamos estar num episódio d’ “O Cão Vagabundo”). Que, mais uma vez, desprestigia o nosso sofrimento. Abre a porta e deixa entrar toda a luz e todo o som, como se não houvesse, afinal, nenhuma razão para o nosso medo. Que resolve num estalar de dedos o que tinham acabado de nos dizer que era irresolúvel. E que, ainda assim, vai avançando tropegamente, porque os autores parecem demasiado preocupados em não fazer nada óbvio, nada exactamente igual ao que os milhões de espertinhos pudessem ter pensado.

Às 3h16, hora de Lisboa, acaba a “Guerra dos Tronos”. A tristeza de nos despedirmos disto tudo vai pousando sobre a sala como a cinza. Ou é a tristeza dessa despedida não ter sido feita como achávamos que merecia? Salve, Bran, the Broken! Sabe-se lá quando voltaremos a ter uma história assim? Bem diz Tyrion – quem mais? – Lannister: “O que une as pessoas? Exércitos? Ouro? Bandeiras?… Histórias. Não há nada no mundo mais poderoso do que uma boa história.”