Entre 1837 e 1969, a principal biblioteca pública do país funcionou no Convento de São Francisco, em Lisboa, na zona do Chiado, mas desde a primeira hora as instalações revelaram-se exíguas e desadequadas, a ponto de o diretor, José Feliciano de Castilho, ter registado num relatório em 1844: “Tudo no Convento de São Francisco, por todos os lados que se considere, é impróprio para o fim a que foi destinado.” A Biblioteca Nacional de Lisboa, como era então conhecida, tinha tido origem algumas décadas antes na Real Biblioteca Pública da Corte, localizada no Terreiro do Paço, com inauguração a 13 de maio de 1797, dia de aniversário do príncipe regente e futuro rei D. João VI.

Uma nova exposição, que pode ser vista até outubro na atual Biblioteca Nacional de Portugal (BN), no Campo Grande, mostra fotografias da instituição no Chiado – imagens pelas quais se percebe o estado de degradação dos livros, atacados por insetos e humidade – e algumas peças de mobiliário que sobreviveram à mudança em 1969, quando finalmente abriu um edifício criado de raiz, aquele que temos hoje, à época considerado um dos mais avançados da Europa no que a bibliotecas dizia respeito. Mas há mais: são também exibidos o mobiliário e o equipamento criados há 50 anos e foi a partir deles que os responsáveis pela exposição concluíram: o conservadorismo do Estado Novo conheceu aqui um momento de abertura à vanguarda.

Intitulada “Do Convento ao Campo Grande”, a mostra foca-se nos interiores do edifício atual (não deixando de ter objetos usados nas antigas instalações de São Francisco, como sejam as pinturas a óleo ou a cadeira de pau-santo do gabinete do diretor). Sobretudo, oferece ao público um resumo de como foram pensados e escolhidos os interiores no Campo Grande. Quase todas as peças exibidas vêm de 1969 e ainda hoje estão em uso. Na perspetiva dos autores da exposição, isso demonstra a qualidade e longevidade dos materiais e o grau de exigência da indústria portuguesa contratada para a produção: Fábrica Osório de Castro, Móveis Olaio e Móveis Serrano, por exemplo. Essa longevidade fará também prova de como sucessivas direções da BN, já no período democrático, têm procurado seguir as escolhas feitas no regime anterior.

Na essência, trata-se de uma pequena exposição de mobiliário, que poderá atrair curiosos, académicos ou estudantes. Foi inaugurada a 30 de abril, a propósito dos 50 anos da BN, que agora se assinalam, e resulta de uma parceria entre a instituição e a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. A curadoria ficou a cargo do arquitetos e professores João Paulo Martins e João Pardal Monteiro (filho de António Pardal Monteiro, autor do projeto arquitetónico da BN), com base em investigação da historiadora Sofia Diniz, que está a preparar uma tese de doutoramento sobre mobiliário para edifícios públicos.

Numa visita guiada que decorreu na quinta-feira à tarde, à qual o Observador assistiu, os responsáveis disseram ter sido fundamental a recolha em arquivo, na Biblioteca do Forte de Sacavém e no arquivo pessoal do primeiro diretor da atual BN, Manuel Santos Estevens (1913-2001), mais o cruzamento com o mobiliário ora em depósito, ora em uso.

“Não temos hoje as salas como naquele tempo, isso seria impossível, até porque há peças que se estragam ou que não resistem a novos hábitos”, explicou Sofia Diniz. “Algumas cadeiras seriam hoje muito desconfortáveis, há mesas impossíveis de utilizar com computadores, etc. Mas a instituição foi mantendo a integridade e a coesão das peças. Houve atualização, mas sem descaracterizar os interiores originais.”

No desenvolvimento dos interiores da BN, destacaram-se o arquiteto José Luís Amorim (1924-1999) e sobretudo o designer Daciano da Costa (1930-2005), responsável por áreas emblemáticas, como as salas da direção, a sala de leitura, o auditório ou restaurante. A BN chegou a ter um restaurante e um serviço de loiça próprio, com o monograma “BNL”, fabricado pela SPAL em 1969 de propósito para aquele fim – e na exposição encontram-se exemplares.

Quase todas as peças agora expostas ainda hoje são utilizadas, o que demonstra a qualidade dos materiais

Por entre cartazes com reprodução de fotos e desenhos do edifício e dos equipamentos, o visitante observa cadernos com documentação dos “concursos para arrematação da empreitada de fornecimento e assentamento de mobiliário”, estantes dos depósitos, carros de transporte de livros, relógios de parede, cinzeiros, mesas, poltronas e cadeiras. Há também folhas originais com notas do diretor Manuel Santos Estevens, que seria um homem de minúcia extrema, sobre como deveriam ser as mesas da sala de leitura, qual a distância mínima entre gavetas e fundos dos móveis ou qual a cor e tamanho das etiquetas a colocar nas estantes dos livros.

“Com uma intervenção permanente e minuciosa em todo o processo, o diretor da BN participou ativamente na recolha de informação, na avaliação e discussão das soluções; em diálogo constante com os projetistas, prestando atenção aos detalhes mais ínfimos, zelando pela garantia da funcionalidade e da representação hierárquica, esgrimindo os seus argumentos para a definição da imagem da instituição”, lê-se na folha de sala.

O projeto arquitetónico foi encomendado em 1952 a Porfírio Pardal Monteiro  (1897-1957), o mesmo arquiteto modernista do Instituto Superior Técnico, da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Hotel Ritz, do Diário de Notícias. A partir de 1957, por morte daquele, passa para as mãos do sobrinho, António Pardal Monteiro (1928-2011), que o terminou. A inauguração foi a 10 de abril de 1969, com a presença do presidente da República, Américo Thomaz; o ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva; o ministro das Obras Públicas, Rui Silva Sanches; e o cardeal Cerejeira.

O edifício acabaria por transmitir a monumentalidade característica das obras públicas do Estado Novo, além de evocar, em muitos pormenores, valores nacionalistas que o salazarismo defendia – por exemplo, nas estátuas de granito de Camões ou Fernão Lopes, no exterior, ou nos painéis dos Descobrimentos, à entrada. Mas essa é informação mais que conhecida. No dizer de Sofia Diniz, a exposição aponta um novo caminho, tendo em conta o mobiliário escolhido e a história de como ele ali chegou.

“O então diretor da Biblioteca, Manuel Santos Estevens, era muito conservador, tinha uma visão muito específica sobre como deveria ser o interior edifício. Ao mesmo tempo, a pessoa escolhida para criar os interiores foi um vanguardista como Daciano da Costa, considerado o pai do design português. Entraram em conflito por causa dos materiais a utilizar, e não só, mas quem ganhou, digamos assim, foi Daciano da Costa. Prevaleceu a vontade dele e aí temos uma grande interrogação. Alguém deixou isto acontecer. Quem foi? Apesar do peso do diretor, terá havido dentro dos ministérios ou das direções gerais alguém que optou pela visão de Daciano”, explicou a historiadora ao Observador.

É uma interpretação ou hipótese que Sofia Diniz está a investigar, ainda sem nenhum documento que a comprove, até porque muitas decisões como esta não ficavam registadas, eram tomadas a partir de conversas. “É habitual arrumar o Estado Novo numa categoria muito negra, mas o que se passou na Biblioteca Nacional, as opções dos interiores, mostram-nos que havia muitas nuances no pensamento da época. Tivemos aqui um compromisso entre o antigo e moderno”, contextualizou a investigadora.

A exposição é de entrada livre e pode ser vista até 4 de outubro. Se houver número suficiente de inscritos, a BN organizará outras duas visitas guiadas: a 27 de junho e a 4 de julho.