Chama-se Louis CK e foi, até há dois anos, o mais importante comediante do mundo – mas o homem que atuou por quatro vezes no lobby do agora hotel Maxime (em Lisboa), duas na sexta e duas no sábado, é outra coisa: alguém com uma mancha no currículo, alguém que tenta recuperar a sua vida.

Quando não está num palco a dizer piadas simultaneamente negras e pejadas de humanidade é bem capaz de estar em casa a comer gelado até não poder mais – ou na casa de banho de um clube de comédia a masturbar-se em frente a uma mulher que possivelmente não estará satisfeita com a situação, apesar de ter dado permissão. E sim, falou disso, e não, não era disso que ele estava a falar quando se atrapalhou. Quando ele se atrapalhou o tema era religião – ou era suposto vir a ser religião. Ele perguntou:

“Quem aqui acredita em Deus?”, e só três pessoas levantaram o braço, numa sala que devia ter uns 300 lugares.

A ideia, percebemos depois, era mostrar a contradição que há em praticar o mal para supostamente defender a ideia de Deus; mas quando só há três crentes na sala toda a preparação da piada vai à vida – e de repente os presentes tiveram direito a algo muito raro: ver um comediante habituado a controlar a multidão e a debitar um texto com uma precisão metronómica, a patinar e gaguejar e a ter de improvisar como se estivesse a fazer 15 minutos de comédia num pequeno clube.

A palavra essencial do parágrafo anterior é (exatamente) “multidão”, e o próprio CK sabe disso – e sabe usar isso:

“You know, I used to play arenas”, disse CK, logo no início, e a reação foi imediata: gargalhada de toda a audiência, aquele tipo de gargalhada que se larga quando se está razoavelmente nervoso, aquele tipo de gargalhada que contém no seu cerne uma espécie de alívio e excitação: OK, ele vai falar disso / espera, ele vai falar disso?

O timing foi perfeito: “Agora atuo para 50 pessoas em fucking Lisbon”, continuou, antes de – cínica mas realisticamente – concluir que quando aconteceu aquilo os lisboetas devem ter pensado:

“Isto é ótimo, vou poder vê-lo muito mais barato”.

Piada após piada em que ia gozando consigo mesmo, CK foi preparando a estocada, o momento em que disse:

“You know, if you wanna masturbate looking at a woman…”, disse, fazendo uma pausa, “Just ask”. E neste momento, sim, a dose de inusitado incluída na gargalhada atingiu o seu máximo – porque ninguém estava francamente à espera que CK abordasse o assunto de forma tão direta. Pelo menos, as notícias que vinham das suas esporádicas aparições em clubes de Nova Iorque não continham qualquer referência ao caso. Mas o bit – a rábula, em português – não tinha acabado:

“And if they say yes”, continuou ele, fazendo nova pausa antes do remate, “ask ‘Are you sure?’”, tudo isto com um sentido de timing admirável. Por fim, ele dá um laçarote: e mesmo que digam que sim, que têm a certeza, é melhor não aceitar.

A piada começara com “This is what I learned”, sendo que aquando das atuações em Nova Iorque CK fora acusado de não ter aprendido nada. Terá escrito a piada para lavar a sua imagem pública? Ou será que está simplesmente a fazer o que sempre fez: refletir sobre o bem e o mal, de forma crua? E será que veio testar material à Europa, onde as plateias, ainda que mais escassas, tendem a perdoar mais certos pecados – ou simplesmente não consegue datas nos EUA?

É difícil dizer – do mesmo modo que quando tudo aquilo aconteceu era difícil dizer se CK alguma vez se levantaria (e não estou a tentar ter piada). Há cerca de dois anos, já depois de Harvey Weinstein ter sido acusado de chantagear atrizes de modo a ter sexo com elas (e, posteriormente, de ter sido acusado de violação), já depois de Kevin Spacey ter sido acusado de violação, já depois de milhares de mulheres contarem, nas redes sociais, as suas histórias de abuso ou coação sexual, Louis CK, o mais brilhante humorista vivo, foi acusado por cinco mulheres de se masturbar em frente delas.

CK perguntava se podia – mas era claro pelas histórias que ele e as mulheres que assistiam não estavam no mesmo patamar: uma das mulheres fora sua assistente na série “Louie” (que ele escreveu e realizou) e admitiu que só disse que sim por medo de ser despedida; duas comediantes jovens contaram que ficaram repugnadas mas não quiseram dizer não, com medo que ele prejudicasse as suas carreiras.

O #MeToo acabou por tornar-se mais que uma questão de legalidade, de decidir o que é violação ou abuso ou coação; é o início de uma re-educação dos homens para a feminilidade; é a forma de as mulheres dizerem que basta de pôr a mão no rabo, no ombro, que basta de piadas sobre o decote e bocas sexistas.

Talvez por ser a primeira vez que estamos a ter esta conversa, talvez por muita gente só agora ter conseguido falar (e muito mais ainda não ter conseguido), em alguns aspetos a conversa não tem sido muito eficaz – um exemplo é a celeridade com que se decide que acusações são prova de culpa; outro é a confusão acerca da gravidade dos atos (porque uma boca sexista não está no mesmo patamar de uma violação); e um terceiro, tão grave quanto os anteriores, é querer que os acusados (que ainda não são oficialmente culpados) não possam exercer a sua profissão.

Os atos de CK não são comparáveis com os de Weinstein e de Spacey (a provar-se a veracidade dos mesmos); o que não significa que as suas masturbações não sejam patéticas, tristes e de um narcisismo extremo – e que a relação de poder com algumas daquelas mulheres estivesse enviesada ao ponto de terem dito “Sim” por medo de possíveis vinganças caso dissessem “Não”. É óbvio que vivemos num mundo com demasiados desequilíbrios de poder (porque é disso que se trata) e em que demasiada gente diz “Sim” a situações em que, noutras situações, diriam não.

Para ser bem claro: o que CK fez tem laivos de coação e se assim for que seja punido. Mas não sei se concordo que quem incorre neste ou noutro crime tenha de deixar de exercer a sua profissão. Tê-lo-á enquanto cumprir pena – depois disso já não tem (e não estou falar sequer deste crime mas de todos).

Há dias, após ver os documentários da HBO sobre Michael Jackson, fui tomar um banho antes de sair de casa e pus o Spotify numa playlist qualquer – quando estava a secar-me dei por mim a bater o pé ao som de “Don’t stop ‘till you get enough”, de Michael Jackson. É uma canção (e um disco) importante para mim (ao passo que Thriller e Bad não me dizem nada): foi ali que eu descobri a soul, o funk, o disco. Mas não houve qualquer raciocínio nisto: o meu cérebro decidiu por mim.

A música de Jackson não é pedófila – e as piadas de CK não são abuso, embora o abordem. E talvez por isso tenha doído, perceber que CK poderia coagir mulheres a assistirem às suas masturbações: é que o humor dele versava (da forma mais crua possível) sobre as zonas cinzentas, as falhas morais – mas ele tinha empatia (mesmo quando havia crianças mortas nas piadas).

Isso não desapareceu: numa rábula particularmente bem conseguida, CK faz ver que deixámos de dizer “atrasados” (retard) não porque as pessoas com dificuldade de aprendizagem (peço desculpa, desconheço o eufemismo vigente) se importem com isso mas para satisfazer o nosso próprio ego e fazer de conta que somos ótimas pessoas.

Essa rábula acaba com uma frase escabrosa mas moralmente inatacável: “If you wanna make a retarded person happy, go suck a retarded guys dick”. O inusitado da proposta moral alcança o fim desejado: a multidão rebenta a rir. Noutra rábula CK faz ver que já não há simples mutilados: hoje todo o mutilado “é um over-achiever”, um campeão da superação e só falta dizer que perder as pernas foi a melhor coisa que lhe aconteceu.

CK não está a gozar com os mutilados – pelo menos nas piadas as vítimas dele não costumam ser os fracos. Está a pôr a nu um tipo de discurso que domina o nosso mundo: o discurso que não permite espaço à tristeza, à fealdade, à gordura, à mediania – ou à ausência de pernas. Toda a gente (e vemos isso na publicidade, nas reportagens dos jornais e até no discurso dos amigos) acredita que a pior coisa possível é sempre uma oportunidade de melhoramento pessoal. Não é: às vezes está-se de cadeira de rodas e não há rampa para as cadeiras e fica-se dependente dos outros.

CK é, possivelmente, o melhor do mundo neste tipo de piada: que revela o egoísmo escondido por trás de atos supostamente generosos e que os revela contrapondo, de forma bruta, o extremo oposto. Como a piada, ainda na rábula em que abordou o seu caso masturbatório, em que se irritou com quem diz que é nos maus momentos que se descobre quem os nossos verdadeiros amigos realmente são.

“[Em momentos destes] You get to know your true friends. Which sucks. Nobody wants that… I don’t want my true friends. I want my fake cool friends.” Tão simples, tão cruel, tão real e tão exato: um génio (pelo menos com a braguilha fechada.)

Nem todo o espectáculo andou à volta disto – houve piadas simplesmente crassas, como de hábito, sobre diferenças culturais (a namorada francesa que coloca o termómetro no rabo), a habitual piada auto-depreciativa sobre comida (não pararia de comer nem que isso resolvesse uma crise mundial) e um par de piadas brilhantes sobre órfãos que talvez sejam duras de mais para reproduzir aqui (porque um espectáculo de comédia tem uma temperatura própria, que não é reproduzível em palavras).

Os humoristas americanos costumam experimentar o seu material em clubes de comédia – fazem sets de 15 minutos em que testam várias piadas que exploram um tema comum. Depois, quando têm muito material, estão preparados para os teatros, as arenas – aquilo a que chamam “Specials”.

Apesar da duração deste espectáculo (cerca de uma hora), a atuação soube mais a clube que a arena – mais a experimentação que a espectáculo já completamente cerzido, mais a sentir a temperatura das águas que a prova de natação. O que é natural: CK é um entertainer e não sabe fazer mais nada – tem de continuar. Como, é provável que ainda não saiba. Entre a rábula de ser o masturbador mais conhecido do mundo e a rábula da superação dos amputados tem 25, 30 minutos de material imaculado – no fundo sobre o mesmo tema: as pessoas falham. É impossível dizer se terá coragem e arte de estender isso até uma hora.

Estive na dúvida até à última sobre se iria ou não ver CK; e estive na dúvida até à última sobre se escrevia no momento ou tirava dois ou três dias para pensar. CK foi importante para mim, mesmo antes de ser conhecido, pela forma como expôs o negrume humano com imensa empatia e pela forma como expôs a vulnerabilidade masculina.

Mas não quero desculpá-lo. Não quero desculpar ninguém que magoe quem quer que seja. Compreendo toda e qualquer pessoa que diga que não quer ver mais CK, que não quer ouvir mais Michael Jackson. Mas isto é – e continuará a ser durante muito tempo – demasiado complicado para haver uma só atitude correta.

O que o #MeToo nos trouxe foi uma espécie de curso intensivo ao lado feminino do mundo, um bootcamp nessa linguagem a que até hoje os homens não tinham acesso: o que as mulheres calam por medo ou sofrem em silêncio. É uma linguagem feita de “Nãos” que não são ditos, que ficam encravados na garganta. O #MeToo já não é sobre legalidade – é sobre outra coisa mais básica, mais primária: sobre empatia e ouvir e ler o outro e assumir que podemos estar a magoar mesmo quando aparentemente nos estão a dar autorização para o que quer que seja que nos dá pica.

Na rábula de CK sobre os “retards” a dada altura ele faz uma revienga e diz que as palavras mudam, a sociedade muda, o que hoje é certo amanhã é errado – está a falar sobre a palavra “retard” ter sido banida mas está, também, a falar de si próprio: está a assumir que o que fez não é aceitável. Quando, nos últimos dois anos, CK apareceu para 15 minutos de palco em Nova Iorque, os seus sets foram (um após outro) recebidos com acusações de não ter aprendido nada. Esta talvez seja a sua resposta: o mundo muda, o que hoje é certo amanhã é errado, mesmo quando uma mulher diz “Sim” convém perguntar “Tens a certeza?” e mesmo assim talvez seja sensato não avançar.

Louis CK está à procura – talvez apenas do próximo espectáculo que lhe encha a conta bancária. Quero acreditar, também, que está à procura de ser um pouco menos mau. É que foi essa a razão pela qual nos apaixonámos pela sua comédia: porque nos fez acreditar que talvez pudéssemos ser isso: um pouco menos maus.

E se calhar isso passa por não acabar este texto com CK, mas sim com uma menção às mulheres que o acusaram: inevitavelmente as pessoas esquecê-las-ão; porém, pela vida fora, elas encontrarão outros homens que lhes farão propostas mais ou menos semelhantes à que CK lhes fez. Espero que nunca mais sintam que têm de dizer sim quanto querem dizer não.