Já não contávamos voltar ao Estádio da Luz este ano. O campeonato já tinha terminado, já tínhamos levantado a taça e feito a festa. Ossos do ofício, coube-nos, afinal, fazer a crónica do primeiro concerto da “nova” Luz – se é que, 15 anos depois, ainda a podemos chamar assim. E o que descobrimos? No fim, o jogo tinha sido muito diferente do habitual: mais povoado, mais educado, certamente muito mais feminino; o resultado, porém, era o mesmo, a vitória. Melhor: goleada. A primeira das duas noites de Ed Sheeran em Lisboa, em nome próprio, foi como o Benfica-Nacional de há poucos meses: 10-0. 10-0 e ninguém perdeu.

O homem, 28 anos, ruivo que só ele, sobe ao palco às nove em ponto, como quem não quer deixar mal aquela coisa da pontualidade britânica. Vem com a sua guitarrinha acústica, tem uma pedaleira e mais nada. Nem banda, sequer. Um palco aquece-o, amplifica-o, agiganta-o, mas é só isso: um tipo ruivo com ar de bom rapaz e a sua guitarra, contra um estádio de 60 mil. O palco está montado do lado da gaiola que recebe a claque adversária, o que quer dizer que Sheeran ataca no sentido de que o Benfica gosta: da esquerda para a direita do campo, tal como o senhor telespectador o vê no seu recetor aí em casa. Isto é, se fosse a segunda parte, ele andaria ali na meia-lua onde vai o guarda-redes quando a equipa tem bola ou fecham os centrais quando defende. Se fosse a primeira, anda na zona de Jonas ou Seferovic. Sim, a história dos britânicos na Luz não foi brilhante. Gary Charles, Steve Harkness, Michael Thomas – salve-se Brian Deane e Scott Minto. Mas Sheeran, que tem mais ar de Mark Pembridge, ou de Andrade, ou mesmo de Coentrão, joga hoje na posição de João Félix. Tem ar de médio discreto, mas, na verdade, é um segundo avançado letal.

Aquele que é muito provavelmente o cidadão mais célebre de Halifax e que, em 2018, se confirmou como o músico que mais fatura no mundo em concertos, está há mais de dois anos na estrada com a tour de “Divide”, o terceiro álbum. Não espanta, portanto, que tenha o espectáculo muitíssimo bem oleado, mas surpreende, porventura, a frescura, a energia, a jovialidade com que se apresenta, louvavelmente longe do automatismo frio dos “boas noites”, “lisbons”, “obrigados” e fatais “you’re amazings”. Segue o alinhamento escrupulosamente planeado e esperado, sem deixar arrefecer a plateia por um instante, e conversa descontraidamente entre os temas, como se fôssemos todos velhos conhecidos.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Começa em “Castle on the Hill”, segue por “Eraser”, lembra que a última vez que cá esteve foi em 2014, no Rock in Rio, onde nem era cabeça-de cartaz (isso ficou para os Arcade Fire) e pede desculpa por ter demorado tanto a voltar. Explica que se segue uma canção que escreveu aos 18 anos e que, desde então, incluiu em todos os concertos, isto é, desde que tocava para apenas duas pessoas até multidões como esta – “The A Team”. Faz um mashup de “Don’t” e “New Man”, pede ao povo para cantar alto e desafinado até acabar sem voz. Depois de “Dive”, entoado a plenos pulmões pelo público feminino, comenta – de forma convincente – que o pessoal dele lá atrás está a dizer que somos o público mais ruidoso da Europa. O estádio enche-se de orgulho e trata de não desapontar no acompanhamento a “Bloodstream” e “I Don’t Care”, necessariamente cantada sem Justin Bieber.

Quando o artista pede que mostremos agora se conseguimos ser também a plateia mais silenciosa, batendo o Japão e fazendo o pleno, falhamos clamorosamente: um sector particularmente histérico – qual claque insistindo nos petardos apesar dos pedidos do speaker – não deixa que “Tenerife Sea” seja mais intimista que qualquer outra até aqui. Ainda assim, é decerto a noite mais bem comportada da história da Luz, sem um único “fora o árbitro”, um “cegueta”, um “bandido”, um “vai-te embora, ó palhaço”, e demais palavreado, porventura pouco próprio para uma crónica de família.

Sheeran segue em rapsódia por “Lego House”, “Kiss Me” e “Give Me Love”. Dirige o público e vai distribuindo jogo nos cânticos, ora uma ala, ora outra, qual Pizzi da canção ligeira. Arranca, na última da trilogia, um momentozinho de arrepio, enésimo testemunho (mas nunca serão de mais) do poder inexplicável que conseguem ter um homem e uma banal guitarra. Vamos depois a sonoridades mais irlandesas com “Galway Girl”, uma rápida incursão pelo “Wayfaring Stranger” de Johnny Cash e uma transição suave para “I See Fire”. Talvez ninguém na pop contemporânea use mais a palavra “amor” do que Ed Sheeran – não deve ter canção que não a diga – mas, neste tempo de reggaetons e funks da favela, não deixa de se ver nisso um certo acto de resistência.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Já passa das 22 quando avisa que, até ali, tinha sido apenas um aquecimento. E a verdade é que embala até final numa sequência em que os decibéis atingidos pelos gritinhos do público poderão muito bem ter feito estalar a calota polar. “Thinking Out Loud”, “Photograph”, “Perfect”, “Nancy Mulligan” e “Sing”, antes de sair um minuto certo e regressar com a camisola da seleção portuguesa vestida para o encore, com “Shape of You” e “You Need me, I Don’t Need You”. A escassos minutos das duas horas de concerto, sai do palco com a mesma tranquilidade com que entrou, só um rapaz de Halifax voltando para o camarim, debaixo da ovação da multidão que não o fará transgredir o rigoroso plano traçado e ceder à tentação de um novo encore que nada acrescentasse.

Sheeran é talvez o grande baladeiro do presente, o fazedor de slows que embala as adolescências, mesmo as docemente tardias. Mas tem aquele ar de vítima de bullying que, hoje, tem as raparigas todas a gritar por ele e isso é de valor. Arrisca, nesta tour, ser um tipo com uma guitarra acústica a pôr um estádio inteiro duas horas a dançaricar – e isso é de muito valor. E há ainda que dizer que nunca tínhamos visto a Luz com tanta rapariga – e isso é ainda de mais valor.

Respeito, meu puto. Deixem jogar o Sheeran.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR