Tudo terá começado ainda no longínquo ano de 2014, quando Portugal tinha apenas no seu currículo a nível sénior uma final perdida frente à Grécia, no Campeonato da Europa de 2004. Nessa altura, Tiago Craveiro, diretor geral da Federação Portuguesa de Futebol, discutia com o grego Theodore Theodoridis, que era o líder do Comité de Competições de seleções, uma nova prova que pudesse acabar de vez com os particulares que pouco ou nada acrescentavam aos próprios técnicos nacionais e pudesse trazer outro tipo de competitividade de receitas nos anos em que não houvesse fases finais de Europeus ou Mundiais. Tirou notas, num caderno. Uns anos depois, percebe-se que foi daí que nasceu aquilo que hoje se festeja: a Liga das Nações.

Michel Platini, que era à data presidente da UEFA, recebeu de Gianni Infantino esse draft de ideias através de uma fotografia e teve dúvidas sobre a possibilidade. As oportunidades que daí poderiam nascer eram percetíveis mas, como contou o jornal Record, as renitências eram muitas, o que promoveu um encontro com algumas das principais federações europeias. Wolfgang Niersbach, da Alemanha, mostrou-se contra. Michel van Praag, da Holanda, também. Ángel Villar, da Espanha, idem. Quando Tiago Craveiro respondeu às dúvidas existentes, mostrando ainda o impacto financeiro que daí poderia surgir através das próprias transmissões televisivas, percebeu-se que afinal poderia fazer sentido. Com um novo líder na UEFA, o esloveno Aleksander Ceferin, a Liga das Nações avançou mesmo e Portugal conquistou a sua primeira edição, tendo organizado a Final Four da competição no Porto e em Guimarães com Suíça, Holanda e Inglaterra (a isso podemos acrescentar ainda no toque made in Portugal da prova as empresas que estiveram ligadas à criação do logo e do troféu oficial).

Depois do triunfo no Campeonato da Europa de 2016, em França, a Seleção Nacional conquistou mais um grande troféu, quase que apagando também a derrota no jogo decisivo do Europeu de 2004 na Luz, com a Grécia. Ponto comum aos dois sucessos, jogadores à parte: Fernando Santos, o Engenheiro que comandou Portugal às duas maiores páginas de sucesso. Um feito ao nível que tinham conseguido Vicente del Bosque e Joakim Löw por Espanha e Alemanha, respetivamente.

Existem ainda dois fatores adicionais a este feito, um económico e um desportivo. Na soma total do dinheiro que recebeu pela participação na prova (2,25 milhões), pela vitória no grupo A com Polónia e Itália (2,25 milhões) e pelo triunfo na Final Four da competição (seis milhões), os seis jogos de Portugal nesta primeira edição da Liga das Nações – que se realiza apenas nos anos ímpares, para não coincidir com as fases finais de Europeus e Mundiais – acabaram por render 10,5 milhões de euros. Dentro das quatro linhas, existe um maior “conforto”: caso a Seleção Nacional não assegure um dos dois primeiros lugares no grupo de qualificação para o próximo Campeonato da Europa (onde está com Ucrânia, Sérvia, Lituânia e Luxemburgo, com dois empates nas duas partidas iniciais), já tem garantida a presença no playoff seguinte de apuramento.

“Os jogadores têm feito um trabalho fantástico. Não temos tempo para criar rotinas e automatismos, eles acreditam no treinador. Às vezes as coisas não são perfeita, mas não é por falta de empenho. Para este jogo entendi que esta era a melhor forma para ganhar. Mesmo nos momentos maus esta equipa é fortíssima. Não é só a entidade A, B, ou C, são 60 ou 70 pessoas que quando se encontram vêm com um sorriso nos lábios. Para nós é um grande prazer estarmos juntos num estágio, nem que seja só de seis ou sete dias”, destacou o selecionador nacional no final do encontro, já na sala de conferências de imprensa.

“Graças a Deus que vamos atrás dos objetivos, procuramos com toda a capacidade, os jogadores são incansáveis. Isto é fruto do trabalho deles e dos meios que a Federação coloca à nossa disposição. Há cinco anos que somos uma família quase indestrutível, que sabe do que é capaz e o que pode fazer. Sabíamos que podíamos vencer este jogo. Sempre disse isso aos jogadores, eles sabiam que podíamos ganhar. Do outro lado tivemos um grande adversário, a Holanda é uma grande equipa mas Portugal fez um excelente jogo”, tinha salientado antes, a propósito de uma final onde a Seleção conseguiu sempre ser melhor.

Mas esta foi também uma semana especial para Fernando Santos, um técnico sempre avesso aos destaques individuais ao seu trabalho: depois do triunfo com a Suíça, o Engenheiro tornou-se o selecionador com mais vitórias pela equipa portuguesa em jogos oficiais, superando os 25 triunfos de Luiz Felipe Scolari; esta noite, subiu para os 27 e também aí aumentou o seu legado, que poderá ser prolongado agora nas partidas de qualificação para o próximo Europeu.

“Esta alegria é para os portugueses, pelo apoio constante que nos deram, mais uma vez a claque. As claques são fundamentais, houve momentos em que parecia que o jogo estava a acalmar e a claque puxava por eles [jogadores]. A Seleção Nacional é, acima de tudo, a representação do povo. Quando digo o povo digo as pessoas, os portugueses. Hoje é a véspera do Dia de Portugal, amanhã será ainda mais risonho. É assim quando se ganha. Muito obrigado a eles. Divirtam-se que eu também o vou fazer”, comentou. “Gratidão? “Não gosto de falar sobre mim, acho presunção. A apreciação do meu trabalho tem de ser feita por vocês, o que vou levar é este carinho que sinto na rua todos os dias. Este carinho é o ‘obrigado’. Escusam de o dizer, porque foi de muito boa vontade”, concluiu o selecionador nacional ainda no Estádio do Dragão.