Michael de Adder foi dispensado de vários jornais canadianos por ter desenhado um cartoon que nunca chegou a ser publicado. Na imagem, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, surge de taco na mão, junto a um carrinho de golfe; no chão, a seu lado, estão Óscar e Valeria, pai e filha (esta com apenas um ano e 11 meses) que morreram no passado domingo quando tentavam atravessar o rio Bravo, que separa Ciudad Juárez, no México, de El Paso, nos Estados Unidos. Ainda no cartoon, Trump coloca a seguinte questão: “Importam-se que continue o jogo?”.

“O que é mais doido, um cartoonista ser despedido de um jornal por causa de um cartoon que não desenhou ou um cartoonista ser despedido de um jornal por um cartoon que eles não publicaram?”, questionou Michael de Adder no sábado na respetiva conta de Twitter, onde explica que, tecnicamente falando, não foi despedido porque não tinha qualquer contrato com os títulos em causa.

De acordo com a publicação Daily Cartoonist, Michael de Adder “desenha aproximadamente 10 cartoons por semana” e tem mais de um milhão de leitores por dia. É, por isso, considerado um dos cartoonistas mais lidos no Canadá. O cartoonista foi dispensado de todos os jornais do grupo Brunswick News Inc. (um grupo de media regional canadiano, dono de três diários e várias publicações semanais) 24 horas depois de o cartoon onde figura Donald Trump ao lado de Óscar e Valeria se ter tornado viral nas redes sociais. Michael de Adder trabalhava para este grupo há 17 anos.

Para Wes Tyrell, presidente da Associação Canadiana de Cartoonistas citado pelo Daily Cartoon, apesar de não terem sido dados motivos para o “despedimento” de Michael de Adder, a altura em que tal aconteceu “não foi uma coincidência”. Independentemente disso, o cartoonista já deixou claro, através do Twitter, que não quer ser encarado como uma vítima, tendo terminado recentemente um livro que será lançado em setembro, onde constam alguns dos seus trabalhos.

Também no Twitter, Michael de Adder tem recebido bastante apoio: exemplo disso é comentário de Mark Hamill, ator da saga “Guerra das Estrelas”, onde escreve que o cartoon em questão merece um Pulitzer.

Óscar e Valeria, pai e filha, foram encontrados a alguns quilómetros da ponte de Matamoros, que faz a ligação entre o México e a cidade de Brownsville, no Texas. Valeria estava abraçada ao pai, dentro da sua camisola, para que não se separassem com a força da corrente. A fotografia dos seus corpos, de cara para baixo, mostra a realidade da crise migratória na fronteira do sul dos Estados Unidos e foi publicada em vários jornais em todo o mundo.