Óscar Alberto Martínez Ramírez e Valeria, a sua filha de um ano e 11 meses, morreram este domingo quando tentavam atravessar o rio Bravo, que separa Ciudad Juárez, no México, de El Paso, nos Estados Unidos. Era o último obstáculo natural que os separava do território norte-americano. Pai e filha foram encontrados a alguns quilómetros da ponte de Matamoros, que faz a ligação entre o México e a cidade de Brownsville, no Texas. Valeria estava abraçada ao pai, dentro da sua camisola, para que não se separassem com a força da corrente. A fotografia dos seus corpos, de cara para baixo, mostra a realidade da crise migratória na fronteira do sul dos Estados Unidos e está a ser publicada por muitos jornais em todo o mundo e a relançar o debate sobre este tema.

Tania Ávalos, a mãe da bebé, conseguiu ser resgatada e viu o marido e a filha serem levados pela corrente. Os três iam a caminho dos Estados Unidos em busca de uma vida melhor para Valeria, depois de estarem dois meses num albergue de migrantes em Tapachula, no México. Tinham saído de El Salvador, de onde são naturais, no dia 3 de abril, apesar dos pedidos da família para ficarem naquele país. O homem, de 25 anos, despediu-se do trabalho numa pizzaria e tinha emprego a aguardar na cidade de Dallas, no Texas. A mulher, de 21, estava desempregada e a cuidar da filha. Segundo o jornal local El Salvador, o casal chegou ao México e ficou dois meses à espera do pedido de asilo nos Estados Unidos. Como o processo foi mais lento do que era suposto, entraram em desespero e tentaram atravessar o rio, juntamente com outros migrantes.

Apesar da aparente calma da corrente daquele rio, os níveis de água estão nos valores mais altos dos últimos 20 anos. Mas a espera desesperante para conseguir asilo levou-os a esquecer estes perigos. Neste caso, Óscar tinha levado a filha para o outro lado da fronteira e ia buscar a mulher quando Valeria, a filha, voltou para a água. O pai voltou atrás para a salvar e morreram afogados. “O rio é traiçoeiro e as pessoas não sabem disso. Eu cresci aqui ao longo do rio Bravo (ou rio Grande). Não entraria naquela água nem para tomar banho nem para nadar. Há molas e remoinhos e quando a corrente nos leva, pode puxar-nos para baixo”, explicou ao The Guardian Claudia Hernandez, membro da polícia mexicana.

A Unidade Geral de Investigação já está a analisar as circunstâncias da morte dos dois migrantes, mas há outro problema que se segue: as funerárias podem cobrar até 7.500 dólares (mais de 6.500 euros) só para repatriar os corpos para El Salvador.

Nas redes sociais, as mensagens e comentários sobre o caso vão-se multiplicando. A foto, dizem alguns utilizadores, “é um lembrete chocante dos perigos que os migrantes enfrentam” na fronteira. Há também quem tenha feito uma homenagem a Óscar e Valeria e uma referência ao outro lado do “sonho americano”.

Uma repórter do The Guardian que esteve no local fez o relato da história e comentou: “Sou repórter policial há muitos anos e já vi muitos corpos — e muitos afogamentos. O rio Bravo é um rio muito forte: acham que é pouco profundo, mas há muitas correntes e redemoinhos. Ficamos entorpecidos, mas quando vemos algo como isto, voltamos a ficar sensibilizados”.

A fotografia captada por Abraham Pineda-jácome está a ser comparada nas redes sociais e nos jornais com a imagem que surgiu em 2015 da criança síria, Aylan Kurdi, que se afogou quando tinha três anos numa praia turca, depois de o barco onde vinha com a sua família se ter virado quando tentava chegar à Grécia no mar do Egeu. A imagem correu o mundo e tornou-se num símbolo da crise dos refugiados.

Mas este não é um caso único. Só na semana passada, menos de quatro dias antes deste caso, sete migrantes morreram ao tentar entrar nos Estados Unidos através do rio Bravo. Num dos casos, conta o departamento de Bombeiros de El Paso, as equipas de resgate encontraram os corpos de um homem com cerca de 30 anos e uma criança de quatro anos.

No mesmo domingo em que Óscar e Valeria morreram, também os corpos de uma mulher de 20 anos e três crianças foram encontrados na margem do rio Grande, na cidade de McAllen, no Texas, informou Eddie Guerra, xerife do condado de Hidalgo.

Entretanto, os democratas norte-americanos com maioria na Câmara dos Representantes aprovaram esta quarta-feira um pacote de 4,5 mil milhões de dólares (3,9 mil milhões de euros) de ajuda humanitária destinada ao apoio dos imigrantes detidos nas fronteira dos Estados Unidos com o México.

Presidente mexicano desmente ordem para deter emigrantes que atravessam fronteira para EUA

Já esta terça-feira, o Presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, desmentiu ter emitido uma ordem para os militares deterem emigrantes ilegais que atravessam a fronteira para os Estados Unidos reconhecendo, contudo, possíveis excessos das forças mexicanas. “Nenhuma ordem foi dada nesse sentido (…) este não é o nosso papel”, indicou o chefe de Estado numa conferência de imprensa.

Sobre as recentes mortes de emigrantes da América Central que atravessam o Rio Bravo do México para os Estados Unidos e se as forças mexicanas recorrerem à violência para impedir tais passagens, López Obrador reconheceu que “pode ter havido esses excessos, mas a instrução que todos têm é que respeitem os direitos humanos e isso vai continuar”.

Se houve casos [de excesso de força], essa não é a instrução que eles têm. É um trabalho que em todo o caso corresponde aos agentes de emigração, não ao exército”, frisou.

O Presidente mexicano disse ainda que o assunto será revisto para alcançar um controlo efetivo da emigração, “mas respeitando os direitos humanos e abordando as causas”. Na segunda-feira o ministro da Defesa, Luis Cresencio Sandoval, anunciou que o México tinha deslocado cerca de 15.000 polícias e militares para a fronteira com os Estados Unidos no âmbito do acordo concluído com Washington para travar a entrada ilegal em território norte-americano.

Uma foto divulgada pela agência noticiosa AFP no fim-de-semana junto à fronteira com os EUA suscitou uma vaga de críticas contra o Governo de Obrador. O registo mostra duas mulheres, acompanhadas por uma rapariga, detidas por membros da Guarda Nacional no momento em que se preparavam para atravessar o Rio Bravo, que separa Ciudad Juárez, no México, da cidade de El Paso, nos Estados Unidos.

“Vamos examinar este caso para que nenhum abuso seja cometido”, referiu López Obrador acrescentando que o México deve “evitar qualquer confronto com o Governo dos Estados Unidos”

Ao ser interrogado sobre a possibilidade de o exército e a Guarda nacional — que integra militares e polícias federais — não apenas intercetarem emigrantes durante a sua travessia em território mexicano, mas também proceder à sua detenção quando tentarem atravessar a fronteira com os Estados Unidos, o ministro confirmou essa disposição. “Considerando que não é um crime, mas um delito administrativo, vamos deter essas pessoas e coloca-las à disposição das autoridades” migratórias, indicou o general Sandoval.

No final de maio, o Presidente norte-americano Donald Trump ameaçou impor taxas alfandegárias sobre todos os produtos mexicanos importados para os EUA caso o México não adotasse medidas para travar a vaga de emigrantes dos países da América Central que atravessam o país com o intuito de entrar em território norte-americano. A 7 de junho os dois países anunciaram um acordo. Além do envio de forças policiais e militares para as fronteiras do país, o México comprometeu-se a acelerar o regresso dessas pessoas ao país de origem.

(Artigo atualizado às 13h24 desta quarta-feira, com mais informações sobre o caso e a fotografia captada)