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Super Bock Super Rock

Marlon Williams, cowboy sem chapéu, deu no Meco o melhor concerto que poucos viram

Houve quem dissesse "isto é quase fado" quando o neozelandês levou as entranhas à garganta. Tem drama na voz, consegue sustê-la até às palmas, mas abre o coração derretendo o dos outros com sussurros.

“Isto é quase fado”, dizia um espectador esta quinta-feira à tarde na Herdade do Cabeço da Flauta, ao pé do palco secundário do festival Super Bock Super Rock. Lá em cima, com árvores e uma paisagem atrás que fazia esquecer o Parque das Nações, estava Marlon Williams. Crooner-rocker neozelandês, estava ali para puxar todo o drama da garganta. Tinha acabado de cantar “When I Was a Young Girl”, canção que apresentou como sendo uma “little funk song”.

Descrição curiosa, a que fez de “When I Was a Young Girl”. Talvez irónica: é que Marlon Williams começou sozinho, guitarra acústica nos braços, “uma pequena folga” dada à banda que o acompanhava em palco. E a canção começou country-folk assombrada — pelas notas da guitarra, pela voz que exalava mistério —, até que de repente o neozelandês foi do sussurro ao quase grito-ópera, entranhas todas metidas nos versos finais, nota suspensa lá em cima tanto tempo e com tanto pathos que o citado ouvinte declarou: “Isto é quase fado”. Comentário certeiro? Talvez: no verão passado, Marlon Williams dizia à Blitz que gostava muito dessa “música sobre o destino”.

É uma personagem difícil de decifrar, Marlon: falta-lhe o chapéu de cowboy para ser country, alegria e dança para ser Elvis (mas a voz, poderosa e hipnótica, já originou comparações, com o chamado rei do rock,  não que o fosse para todos, e com Jeff Buckley), subtileza acústica para ser folk. E no entanto é um bocadinho de tudo isso, uma porção de cada vez.

Depois de fazer o teste de som e de sair do palco (mais tarde do que o previsto, dado que o seu concerto acabou por tocar na hora dos portugueses Glockenwise), para ser depois recebido com palmas, voltou com óculos de sol postos, camisa branca e a sua banda do costume — teclista, baterista, baixista.e um multi-funções que tocou de guitarra a violino. À sua frente, algumas dezenas observaram-no atentas, mas a relva colocada em frente ao palco secundário era mais nítida do que as pernas e pés de quem chegara cedo ao Meco para o ouvir.

O concerto começou logo por uma “canção nova”, que versava, dizia o seu autor, sobre isto de “estar vivo” e tudo o que vem com isso. “Estão felizes por estarem vivos?” Podia ser uma canção feliz mas ele, que fez de um coração partido um disco, não é ligeiro nem quando está alegre q.b.. A dada altura, ali pelo meio da canção, dizia ao interlocutor a que se dirigia que ele há-de estar feliz por estar vivo, que um dia há-de se sentir assim, quando “estiver nos braços de alguém” — e isto vindo de quem editou um álbum com uma canção gravada com a ex-namorada que na altura ainda lhe revolvia o estômago, é sempre de desconfiar.

O piano de salloon aparecia ocasionalmente, quando Marlon Williams se sentava para cantar lições e desgostos, mas seria de pé, de guitarra nos braços e com o multi-funções já na guitarra elétrica e não na acústica, que dispararia “What’s Chasing You”. A canção é single absolutamente certeiro, mas o segredo talvez esteja naquela variação do tom dos versos “just what I can do with a lover who tries”, ainda a canção vai nos primeiros 25 segundos.

Às vezes parece mesmo cowboy urbano sem chapéu, conhecedor dos melhores truques do rhythm and blues, virado de perfil para o público, virado para trás a rock and rollar com a banda de perna ligeiramente arqueada e afastada. Seguiu para “Dark Child”, canção lúgubre de pai para filho (acaba com “embora as notícias não tenham chegado como uma surpresa / tive sempre esperança de não ter de enterrar um filho”), em que a dada altura Marlon Williams se agachou, bebeu um longo golo da garrafa de água, deixou a banda divertir-se um pouco sozinha (toda ela, mas era a guitarra que, de tempos a tempos, se destacava mais) até se juntar também.

Ainda foi a tempo de apresentar mais uma canção nova, “a primeira que escrevo na minha língua”, que por acaso, dizia ele, até é capaz de soar “algo portuguesa”. O indecifrável título significava algo como “ó, esquece, não interessa” (“oh well, nevermind, doesn’t matter”) e o tema mostrou que o drama na pose e na voz de Marlon — mais na voz, porque é ela que resiste em áudio, quando o ouvimos mas não o vemos ao vivo — não precisa de tradução.

Ouviu-se ainda “Party Boy”, que não é exatamente, ao contrário do que se poderia pensar, sobre os méritos de ser o rei da festa, e “Nobody Gets What They Want Anymore”, o emotivo dueto com a ex-namorada Alduous Harding (também compositora e cantora), que no Meco foi substituída pelo baixista. No fim, o tipo que até já cantou com chapéu acabou o concerto de joelhos, a fingir-se derrotado pelas canções, mas com a voz lá em cima mesmo em baixo. É um grande performer, um músico que depois de dois álbuns, o segundo dos quais um êxito da crítica (Make Way For Love), rodou o suficiente as canções para merecer uma aclamação mais condizente. Talvez com o próximo disco, que com tanta canção nova revelada só pode estar no forno e quase a formar. No Meco, esta quinta-feira, deu simplesmente o melhor concerto que quase ninguém viu.

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