Uma das obras mais famosas da National Gallery, em Londres, é um vaso com 14 girassóis pintado por Vincent van Gogh em 1888, provavelmente no mês de agosto, em Arles. A pintura é considerada uma das mais bem executadas da série de sete que o pintor holandês criou entre o verão de 1888 e janeiro de 1889, na localidade no sul de França onde se estabeleceu no último período da sua vida. A flor tinha um simbolismo especial para van Gogh, que começou a pintá-la compulsivamente quando se encontrava em Paris, na casa do irmão Theo. Paul Gauguin, que passou uma temporada com ele em Arles, reparou nisso e, tal como as milhares de pessoas que todos os anos se deslocam à sala da National Gallery para ver os girassóis de van Gogh, também ele se deixou enfeitiçar por eles. Não foi por acaso que o único retrato que pintou do artista durante o tempo que passou na Casa Amarela foi Vincent Pintando Girassóis. Gauguin identificava van Gogh com a flor, tal como ele próprio se revia nela: “Como sabes, as peónias são de Jeannin, as malvas-rosas são de Quost e os girassóis, bem, os girassóis são meus”; declarou a Theo. E de facto os girassóis tornaram-se na flor de Vincent van Gogh.

Ao longo da sua vida, van Gogh pintou vários quadros em que estas flores surgem, sendo a série de sete que executou em Arles a partir do verão de 1888 a mais importante. Esta foi motivada pela chegada iminente de Paul Gauguin à Casa Amarela, onde, nesse ano, tinha alugado dois quartos no piso térreo e dois no primeiro andar. O pintor esperava transformar o número dois da Place Lamartine numa residência para artistas. O convite que tinha enviado a Gauguin — que tinha conhecido meses antes numa exposição que tinha organizado num restaurante em Paris — era um primeiro passo na realização desse sonho.  Inicialmente, o artista holandês tinha planeado criar 12 quadros com estas flores para decorar as paredes da Casa Amarela, mas acabou por completar apenas quatro. Gauguin tinha mostrado interesse nas pinturas que mostravam ramos de girassóis em cima de uma mesa que van Gogh tinha executado em Paris e exposto no restaurante Grand Bouilon e foi provavelmente por isso que o pintor decidiu regressar ao tema em Arles.

Paul Gauguin ficou impressionado com as naturezas-mortas de van Gogh com ramos de girassóis em jarras. O único retrato que fez do companheiro mostra-o a pintar as suas flores favoritas  (Créditos: VCG Wilson/Corbis via Getty Images)

Vários meses depois do envio do convite, Paul Gauguin chegou a Arles. Viveu na Casa Amarela durante cerca de dois meses. A relação entre os dois pintores depressa se deteriorou e, em dezembro, o francês fez as malas e partiu. van Gogh estava internado no hospital. Tinha tido um colapso mental e cortado uma parte da orelha. O triste episódio tornou-se num dos mais famosos da sua curta vida. Nunca mais se voltaram a ver, mas continuaram a corresponder-se.  Numa dessas cartas, Gauguin pediu ao companheiro se podia ficar com um dos seus girassóis que, na sua opinião, “era um exemplo perfeito de um estilo que era completamente Vincent”. Em vez de enviar um dos originais já terminados, van Gogh decidiu fazer outras três cópias. Paul Gauguin não chegou a ver nenhuma das duas porque, algures durante a execução, o pintor terá mudado de ideias. Apesar de lisonjeado pelo pedido, “não queria oferecê-las”, salientou Nienke Bakker, curadora da exposição sobre os girassóis patente no Museu Van Gogh, em Amesterdão, ao The New York Times. “Se Gauguin não tivesse pedido um dos quadros, quem sabe se as outras versões teriam sido feitas.”

Apesar de nunca ter recebido os girassóis que pediu, Paul Gauguin nunca se esqueceu deles. “Gauguin estava impressionado com os girassóis, que elogiava repetidamente e que pediu como presente. Anos depois, no Pacífico Sul, pintou algumas imagens de girassóis numa aparente homenagem ao seu antigo colega de casa”, afirmou Martin Gayford, autor do livro The Yellow House: Van Gogh, Gauguin, and the Nine Turbulent Weeks in Arles, à BBC.

Em 1901, durante a sua segunda estadia no Taiti, Paul Gauguin pintou um ramo de flores dentro de um cesto. As flores parecem estar em diferentes fases, tal como as que van Gogh costumava pintar (Créditos: Wikimedia Commons)

Estes últimos vasos de girassóis encontram-se atualmente em diferentes museus, em Filadélfia, Amesterdão e Tóquio. A cópia que está no Museu Van Gogh esteve sempre com a família até à sua doação, em 1973. Dos restantes quatro, apenas dois se encontram expostos ao público, em Munique e em Londres. Um foi destruído durante um incêndio provocado pelo bombardeamento de Osaka pelos exército dos Estados Unidos da América durante a Segunda Guerra Mundial e o outro faz parte de numa coleção privada norte-americana. Este último, o mais antigo de todos, não é exibido desde 1948, quando foi emprestado durante um mês ao Museu de Arte de Cleveland. Ao contrário das cópias da National Gallery e do Museu Van Gogh, consideradas as mais bem conseguidas das sete, esta não tem o característico fundo amarelo — os três girassóis, colocados dentro de uma jarra verde, surgem em frente a uma parede azul-turquesa.

As pinturas são todas diferentes, como explicou Ella Hendriks, conservadora e responsável por um recente projeto de estudo dos girassóis da National Gallery e do Museu Van Gogh, ao The New York Times. “Apesar de a paleta básica ser a mesma, existem muitas cores diferentes que foram usadas, diferenças nas texturas e o trabalho do pincel também não é igual”, explicou. Para criar a série de sete girassóis, Vincent van Gogh recorreu a várias técnicas, como os pontos típicos dos pontilhistas e as pinceladas esculturais e rápidas, e quebrou algumas regras que eram tidas como sagradas, como explica o museu londrino no seu site. Naquele tempo, era comum pintar o fundo com uma cor oposta à do objeto retratado, mas van Gogh fez precisamente o contrário e colocou amarelo sobre amarelo nas versões mais tardias dos seus girassóis. No exemplar que faz parte da coleção do Museu Van Gogh, em Amesterdão, usou apenas três tons de amarelo em todo o quadro.

O exemplar que faz parte da coleção da National Gallery, Jarra com Quatorze Girassóis, faz parte da primeira série de quadros, pintados em agosto de 1888 em Arles. Van Gogh voltou ao tema em janeiro do ano seguinte (Créditos: Wikimedia Commons)

O objetivo de Vincent van Gogh não era tanto fazer uma cópia exata da natureza, mas antes expressar as suas próprias emoções, como ele próprio explicou numa carta enviada a Theo pouco antes de iniciar a série de flores amarelas: “Em vez de tentar apresentar exatamente o que tenho diante dos meus olhos, uso a cor de forma mais arbitrária para me expressar”, escreveu. Este uso particular do cor influenciou profundamente a arte moderna, em especial os expressionistas que lhe seguiram.

“Gostava de pintar de forma a que (…) toda gente conseguisse percebê-lo de olhos fechados”, disse uma vez. Por outro lado, e no caso específico dos girassóis, estes permitiam-lhe “expôr os seus métodos de trabalho, a forma como abordava os motivos e as preocupações específicas que tinha ao pintar. Os girassóis que colocava num vaso de manhã cedo requeriam tratamento urgente, pois murchavam ao fim de algumas horas. Este facto permitiu-lhe justificar um procedimento que, para sua satisfação, representava um fim em si próprio. Um pintor não habituado a um trabalho rápido nunca conseguira captar a beleza que, minuto a minuto, se ia consumindo. Era o amarelo dos girassóis que transmitia toda a magia, aquela cor do sul a que van Gogh já prestara homenagem ao pintar a sua casa de amarelo”, escreveu Ingo F. Walther.

Porque é que Van Gogh gostava tanto de girassóis? E nós? Porque é que gostamos tanto deles?

Van Gogh adorava amarelo. Como é explicado no site da National Gallery, esta cor era, para ele, um símbolo de felicidade. Era por isso natural que se sentisse atraído pelos girassóis, pela sua “cor vibrante” e também pela sua forma. “O girassol é uma planta muito forte e resistente. É elegante e refinada. Ele chamava-lhe ‘girassol rústico’. Tem a aspereza e a falta de polidez do campo, de que ele gostava muito”, afirmou Nienke Bakker no catálogo da exposição atualmente patente no museu de Amesterdão, citado pelo Artsy. O poeta simbolista e crítico francês Gabriel-Albert Aurier foi mais longe, declarando que a “paixão obsessiva” de van Gogh pela flor estava relacionada com aquela que ele tinha pelo “disco solar”, que ele adorava “fazer brilhar” como uma chama nos céus dos seus quadros. Mas, para o pintor, o verdadeiro significado era ainda mais profundo — era de “gratidão”, como ele próprio admitiu em 1890 numa carta à irmã Wil.

Martin Bailey, autor de The Sunflowers Are Mine: The Story of Van Gogh’s Masterpiece, acredita que, “se olharmos mesmo para as pinturas, percebemos que eles [os girassóis] estão em diferentes fases”: alguns ainda não floriram, uns estão completamente abertos e outros estão já a perder as pétalas e a morrer. “Van Gogh está a falar sobre o ciclo da vida. Tudo flore e tudo morre, e depois volta a nascer”, disse ao The Telegraph, acrescentando que “achamos que conhecemos os quadros dos girassóis tão bem porque já os vimos reproduzidos centenas de vezes, mas as pessoas não olham mesmo para eles”. De tal forma que, para a grande maioria, os girassóis do pintor são apenas um e não sete. “Nem sequer se apercebem que são uma série”, declarou Bailey, desta vez à BBC.

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Talvez porque o que verdadeiramente fascina na série de pinturas do artista holandês não são as pinturas em si, mas a figura do homem que as executou. “A popularidade dos Girassóis é, por um lado, uma combinação da sua beleza, impacto emocional e um toque da condição humana e, por outro, do fascínio do público com a fama, o dinheiro e o mito. Existe qualquer coisa aqui para toda a gente”, defendeu Leo Janson, curador no Museu Van Gogh, ao mesmo canal de televisão britânico. “Temos de aceitar o facto de que as pessoas adoram a obra de van Gogh por causa dos quatros em si e por causa do homem que os pintou e da história que existe por trás dele. Torna-se muito difícil separar van Gogh, o homem, de van Gogh, o artista”, afirmou Bailey ao The Independent. Para o especialista, isto não é necessariamente mau. O que interessa é que, independentemente da razão, “as pessoas” cheguem “à sua arte”, uma das mais marcantes do final do século XIX.

Vincent van Gogh não chegou a sentir o gosto da fama de que hoje goza. O artista morreu a 29 de julho de 1890, dois dias depois de ter disparado sobre o próprio peito. As suas últimas palavras terão sido, de acordo com o testemunho do seu irmão Theo, “a tristeza vai durar para sempre”. Ao saber do seu suicídio, Claude Monet, que tinha elogiado os girassóis expostos no restaurante de Paris, questionou: “Como é que um homem que amava tanto as flores e a luz que as retratou tão bem podia ter vivido tão infeliz?”. Mesmo na morte, as flores que o holandês “amava tanto” nunca o abandonaram — durante anos, o seu médico e amigo Paul Gachet, plantou girassóis junto à sua campa.