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Cinema

“Era Uma Vez em… Hollywood”: Quentin Tarantino regressa ao seu melhor

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O novo filme de Tarantino passa-se em Hollywood, há 50 anos, e é tanto sobre a amizade masculina como sobre o amor ao cinema, aos automóveis e à música pop. Eurico de Barros dá-lhe cinco estrelas.

Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e os automóveis no brilhante, motorizado e fetichista "Era Uma Vez em... Hollywood", de Quentin Tarantino

Autor
  • Eurico de Barros

Dado estarmos numa era em que é suposto fazerem-se avisos prévios aos mais impressionáveis, melindráveis ou facilmente ofendidos por dá cá aquela palha, é melhor começar esta crítica a “Era Uma Vez em… Hollywood”, de Quentin Tarantino, com um punhado deles. Este filme não é apropriado a anti-tabagistas militantes  ou zelotas da saúde a todo o custo. Fuma-se muito, a todo o tempo, em todo o lado, descarada e ostensivamente em “Era Uma Vez Em… Hollywood”. O filme até tem embutido na ficha técnica final um falso anúncio a uma marca de tabaco ficcional, que é a forma cinematográfica e gozona de Tarantino esticar o dedo do meio aos anti-tabagistas militantes e aos zelotas da saúde a todo o custo.

[Veja o “trailer” de “Era Uma Vez em… Hollywood”:]

Também não é um filme para quem simpatiza com os “hippies” e com toda a sua conversa de chacha anti-sistema e as suas lenga-lengas imbecis do “flower power”. Aliás, “Era Uma Vez em… Hollywood” podia vir com um letreiro a dizer: “Este filme odeia ‘hippies’”. De tal forma, que a certa altura da história, Tarantino até inventa o “hamburger” de “hippie” flambeado. Não é, igualmente, um filme para quem seja anti-automóvel e se ande sempre a queixar que os automóveis são grandes poluentes e que toda a gente devia ter um carro elétrico ou só andar de bicicleta. “Era Uma Vez Em… Hollywood” é em boa parte preenchido pelas personagens de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt a andarem de carro de um lado para o outro em Los Angeles, enquanto ouvem o “Top 40” da época na rádio (a banda sonora, mais uma vez, é soberba) e dão à palheta.

[Veja uma entrevista sobre com Quentin Tarantino:]

Um dos temas do filme é, aliás, o puro prazer de conduzir um carro – seja um Cadillac DeVille imaculado, seja um Porsche aerodinâmico, seja um Karmann-Ghia com a pintura toda rebentada mas o motor bem afinado – enquanto se ouve música na rádio, se fala disto e daquilo, de coisas muitos sérias e de banalidades, e se olha para as miúdas no passeio. Além do cinema, carros e música são outras duas fixações de Quentin Tarantino, todas amplamente contempladas em “Era Uma Vez em… Hollywood”, que se passa em 1969, no coração de uma indústria cinematográfica então pujante, ao lado da qual também florescia a indústria da música popular, numa cidade onde é absolutamente necessário ter um carro para se fazer vida.

[Veja uma entrevista com Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie:]

Por falar em fixações, “Era Uma Vez em… Hollywood” é um filme fetichista. E os fetiches de Tarantino aqui são as expressões materiais e tecnológicas da sociedade industrial e de consumo no seu auge (carros, aviões, roupas, objetos de uso caseiro, anúncios, letreiros de néon, edifícios de todo o tipo, de restaurante a cinemas) e as manifestações cinematográficas, televisivas, musicais, radiofónicas e gráficas da cultura popular numa idade de ouro da mesma (filmes e cartazes publicitários destes, canções, álbuns, séries de televisão, “jingles” de rádio). Este é o filme mais precisa, saboreada e fanaticamente detalhado de Quentin Tarantino, de tal maneira, que a época se torna também num dos seus temas. “Era Uma Vez em… Hollywood” não se passa na Los Angeles de 1969. “Era Uma Vez em… Hollywood” “é” a Los Angeles de 1969.

[Ouça o tem musical do filme:]

É por essa Los Angeles de há meio século que andam Rick Dalton (DiCaprio), um ator que foi vedeta de uma série de televisão “western” nos anos 50, que deixou para fazer carreira no cinema, mas ela não arranca. Só o metem em fitas menores ou lhe dão papéis de vilão em mais séries, e Rick está a ver os anos a passar e ele sempre no mesmo sítio, de onde o seu agente (Al Pacino numa pequena grande aparição) o quer tirar e mandar para Itália fazer “westerns spaghetti”; e Cliff  Booth o seu “duplo”, melhor amigo quase como irmão, e assistente. Rick anda inquieto, pessimista, a duvidar de si próprio e das suas qualidades de actor, até se esquece das falas durante a rodagem de série de televisão (em que faz mais uma vez o vilão, claro); Cliff, que se preocupa a sério com ele, tenta sempre animá-lo e dar-lhe confiança. A amizade  masculina, uma amizade de betão armado, à prova de qualquer fatalidade, está no coração deste filme.

[Veja Quentin Tarantino e Margot Robbie falar sobre Sharon Tate:]

O herói deste “buddy movie” é Cliff, o “duplo” anónimo, e não Rick, o Clint Eastwood frustrado. Estudante de masculinidade descontraída, Cliff é um herói de guerra que ficou marcado na indústria do cinema por ter sido o causador de uma tragédia que envolveu a sua mulher (Tarantino não nos diz se foi um acidente ou não), que não se angustia por viver à sombra de Rick e lhe fazer todos os recados. É um tipo afável, positivo e bem-humorado, dono de uma cadela que lhe é fidelíssima. Mas o não ter ressentimentos, ser boa praça e gostar de animais não quer dizer que Cliff deixe que façam farinha com ele. Como se vê numa sequência que envolve um Bruce Lee fanfarrão (o filme mistura personagens fictícias e reais), noutra passada numa sinistra comunidade “hippie”, e no final de “Era Uma Vez em… Hollywood”, quando Tarantino dá finalmente rédea solta ao seu gosto pela ultra-violência criativa (no caso, plenamente merecida por aqueles que são objeto dela, criaturas fanáticas, desprezíveis e maléficas).

[Veja uma cena do filme:]

A cinefilia enciclopédica e pontilhista de Quentin Tarantino, tantas vezes caóticamente dispersa e ferida de exibicionismo em filmes anteriores, está nas suas sete quintas em “Era Uma Vez… em Hollywood”, perfeitamente integrada na história e bem proporcionada, arrumada, distribuída e personificada ao longo do filme (ver só a cena em que Rick fantasia que foi ele, e não Steve McQueen, que entrou em “A Grande Evasão”) , porque este se passa no mundo do cinema (e da televisão). A fita é um paraíso de referências, reminiscências, piscadelas de olho e “cameos”, em primeiro ou segundo plano. E ao contrário do que sucede em “Sacanas Sem Lei”, em que o final absurdamente alternativo cai do céu aos trambolhões, o desvio da realidade, do que aconteceu realmente para o que poderia ter acontecido, faz aqui todo o sentido, porque está já implícito no título, no “Era Uma Vez…” a sugerir um conto ficcional com final feliz, feito com a matéria de uma realidade concreta (“Hollywood”).

[Veja uma cena do filme:]

É que Rick e Cliff são vizinhos, em Cielo Drive, da solar, encantadora e despretensiosa Sharon Tate (magnificamente interpretada por Margot Robbie) e do seu marido, o aclamado Roman Polanski, acabado de rodar “A Semente do Diabo”, e que até vemos numa festa na Mansão Playboy, a dançarem com Mama Cass dos The Mamas and the Papas e a serem observados com inveja por Steve McQueen (Damien Lewis). É como se Tarantino quisesse que todo o resto do filme fosse certinho até ao mais ínfimo pormenor, para depois estar à vontade para refazer a história como ele acha (e nós com ele) que se podia (e devia) ter passado, naquela noite fatídica de 8 de Agosto de 1969. Ah, se ao menos Rick e Cliff tivessem mesmo existido…

Com esta elaborada, inspirada, detalhadíssima e máscula carta de amor aos anos 60, aos automóveis, à música pop, a Los Angeles e ao cinema, tal como se fazia em 1969 e como ele se recorda de quando era miúdo, Quentin Tarantino, depois de uma série de filmes desinspirados ou simplesmente execráveis, está de regresso ao seu melhor. E em Hollywood.

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