“Para nós, 2020 não será um ano qualquer. Se o nosso encontro (Tó/Pedro) foi uma descoberta, uma grande amizade, um diálogo musical, um universo que se foi adensando e clarificando; se todos estes anos foram uma grande festa nas nossas vidas, não poderia ser de outra forma o nosso final. Decidimos acabar, mas acabar em grande. Não é um final triste, há muita coisa para ser celebrada”. Foi assim que Tó Trips e Pedro Gonçalves, ou a dupla que compõe os portugueses Dead Combo, anunciou a novidade, esta terça-feira, no seu Facebook, para surpresa dos fãs.

“De uma forma concreta, acabamos como começámos: os dois. Voltamos aos palcos com uma tour, num passeio pela nossa história. Começará no final de 2019 e acabará em 2020”, despedem-se os músicos, que começam a sua mensagem dispensando possíveis viagens pela história na música portuguesa, onde garantiram lugar há 16 anos.

Os Dead Combo estiveram por um fio. Agora, querem o mundo

Em abril de 2018, em entrevista ao Observador, o “gangster” e o “cangalheiro”, como as figuras passam à história, falavam sobre o mais recente álbum, “Odeon Hotel”, novo caldeirão onde cabem os ingredientes que marcaram o trajeto da banda, do fado, ao jazz, do rock aos blues, sem esquecer os ritmos sul-americanos que agitam uma cidade em mudança acelerada. “Isto já é uma cidade virada só para pessoas cheias de dinheiro e estrangeiros. E isso não é uma cidade, é um resort turístico”, desabafavam então sobre Lisboa, ao sétimo disco, que contou com convidados como Mark Lanegan, e que prometia apontar caminho para a internacionalização da dupla. “Uma das condições de termos agora, ao final de 15 anos, um contrato com a Sony [uma editora major, uma das maiores da indústria musical] foi a promessa de editarmos lá fora dentro de uma estrutura sólida”, referia então Gonçalves. O disco foi editado digitalmente em todo o mundo e fisicamente em “muitos” países.

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Em jeito de revisão da matéria, não esqueciam alguns dos momentos mais complicados, admitindo mesmo nessa entrevista ao Observador como um ano antes “chegou uma altura em que estivemos mesmo para dizer: ‘bora’ lá acabar com isto. Se é para ser assim…” — “Normalmente esses momentos não têm nada a ver com música, têm a ver com sermos só dois e chegarmos a uma determinada altura em que um de nós, ou os dois, está assim mais avariado da cabeça e desatinamos e pronto… chateamo-nos — e assinalavam encontros para a posteridade como a participação, em 2013, no programa “No Reservations”, nessa visita do chef Anthony Bourdain pela capital portuguesa.

Um western à beira Tejo

A guitarra de Tó Trips e o contrabaixo de Pedro V. Gonçalves, e ainda com melódica e kazoo pelo meio, e o que mais possa caber neste convite para a dança. Foi em 2001 que se conheceram e puseram em marcha um dos mais vibrantes projetos musicais da música contemporânea portuguesa — Tó Pediu boleia a Pedro, Pedro não tinha carro, e a pé seguiram para o Bairro Alto, a casa de partida destes Dead Combo, que então planeavam gravar um álbum de tributo ao guitarrista Carlos Paredes. Um par de anos depois, a banda de dois homens sós lança-se em definitivo, com 2004 a trazer o álbum de estreia, Vol.1, ensaio de estreia que convenceu a crítica, baralhou os rótulos e pôs Lisboa a ferver à beira rio.

Vol. 2 – Quando A Alma Não É Pequena (2006), Guitars From Nothing (2007), Lusitânia Playboys (2008), Lisboa Mulata (2011) e A Bunch of Meninos (2014) foram os capítulos que se seguiram antes deste Odeon Hotel, com alusão ao célebre hotel alfacinha.

“Sul”, a série policial que acaba de se estrear na RTP1 tem cereja em cima do bolo: banda sonora a cargo de Dead Combo para, mais uma vez, mostrar Lisboa como nunca a vimos. A 26 de outubro, atuam no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, o próximo concerto na agenda, e o começo desta despedida em palco da dupla.