Há três anos, no meio da mata, a 500 km do Rio de Janeiro, Eduarda Bittencourt estava em absoluto silêncio. “Fiquei os dias inteiros praticamente meditando e tanto limpei a mente que acabei submergindo, subindo pensamentos que nem lembrava que tinha”. Enclausurada num retiro, em recuperação lenta, apanha do chão pedaço a pedaço do seu coração despedaçado. “Lembrei de várias situações da minha infância, cantando ao espelho, uma coisa muito louca”. Os primeiros passos na cidade de Recife dos anos 90, os maracatus e lamaçais, os teclados estridentes do povo, goiaba e manteiga a rodopiar num bolo de rolo, a adolescência no Rio de Janeiro, cercada de amigos a empunhar guitarras. “Por isso costumo dizer que sou compositora por necessidade”, reitera Eduarda, a cantora que renasceu como Duda Beat, a rainha do sofrimento e da celebração que embateu como um meteoro no Brasil, um país igualmente despedaçado, sedento de alegria e amor. “Isto é necessidade de mudar de vida, de ser respeitada, isso é muito forte dentro de mim”.

No ano passado, apesar da consagração do cantor drag Pabllo Vittar, do regresso do Kayne West da Bahia — Baco Exu do Blues –, da ginástica rítmica de Luiza Lian, de centenas de sertanejos e funks, e também apesar de Jair Bolsonaro, Duda Beat foi o nome que entoou mais alto na música popular brasileira. O fenómeno é percetível logo ao primeiro impacto do meteoro, o single “Bixinho”, com aquele sotaque que “me deixa louca”, uma canção pop avassaladora de “amor bem gostosinho”, a batida besuntada de azeite, devidamente amansada pelo sopro, pelo teclado, e a leve despedida, na brisa da praia. E com o devido atraso, a febre quer chegar aqui: 31 de outubro e 1 de novembro no Musicbox, Lisboa; 2 de novembro na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão; e 3 de novembro no Hard Club, Porto. É a primeira tour internacional da exuberante Duda Beat, em português de Portugal, por este país ligeiramente sisudo. “Eu tenho a certeza que vão amar”, garante ao Observador. “Apesar de ser música de sofrência, é animado, é dançante”.

[“Bixinho”:]

No Brasil, a frustração amorosa, alavancada por uma tremenda dor de cotovelo, traduz-se numa única palavra: “sofrência”. E é de sofrência que Duda Beat compôs o seu primeiro álbum, Sinto Muito, de tal forma que “botaram-me o título de Rainha da Sofrência Pop”. Qual Adele, os ex-namorados aqui são espezinhados na pista de dança. Abram alas à rainha:

“As músicas são uma espécie de confessionário, o principal feedback que recebo do disco é quanto ele ajudou as pessoas que estavam sofrendo de amor, e a arte quando muda a vida da pessoa é porque estamos fazendo a parada certa”, diz

Acrescenta ainda que “mais importante que números é tocar o coração das pessoas”. E se alguém estivesse a olhar para os números, a fazer as contas certas, saberia que “Bixinho” está com dez milhões de audições no Spotify, um raro episódio de alguém que escangalhou o telhado de vidro da música independente. “Eu sou de Recife mas o meu primo [Gabriel Bittencourt] tocava bateria na banda do Tomás, por isso passei parte da adolescência no Rio de Janeiro, e nesse momento conheci todo mundo”. Todo mundo, isto é, a redoma da canção independente carioca, o único hemisfério que importava naquele momento, os concertos caseiros da banda R.Sigma de Tomás Tróia, Castello Branco e Diogo Strausz. “O R.Sigma foi a minha escola”, confirma-nos Tomás, o produtor, parceiro de composição (e já agora namorado) de Duda Beat.

“Aprendi não só a tocar e a ouvir o outro, como a me relacionar com diferentes desafios, aprendi também o caminho do independente, tive a felicidade de errar em vários detalhes que hoje me servem de exemplo”. Despretensiosamente, Eduarda acompanha a banda em alguns ensaios, canta ainda com Castello Branco e com Letícia Novaes — Letrux, sem descurar do plano que a trouxe ao Rio de Janeiro: a licenciatura de medicina. “Duda é minha melhor amiga”, revela-nos Castello Branco, cantautor carioca que passou recentemente por Portugal. “Novinhos cantávamos com a R.Sigma, depois quando fui cantar solo, sempre fiz questão de tê-la comigo, não é surpresa para mim o sucesso deles, ambos sempre tiveram minha admiração e amor”.

“O tempo foi passando, acabei por não entrar em medicina e o Tomás sempre estava ali como meu amigo”, recorda Duda dos primeiros anos como carioca, até o término de uma relação abrir um fosso aparentemente irremediável. “No meio desse processo fiz o retiro espiritual e passei dez dias sem falar. Nesse retiro, em meados de 2015, decidi que ia fazer da música minha profissão, que isto ia ser a minha vida”.

Eduarda, cada vez mais Duda Beat, a mulher resoluta a superar um desgosto amoroso à custa da dança e da canção, bate à porta do amigo Tomás. Precisava de ajuda com duas composições que surgem de súbito após o retiro: o mar de sintetizadores “Derretendo” e “Pro Mundo Ouvir”, que tem o conselho pertinente para qualquer ex-embeiçado:

“Por favor vê se me esquece
Se não quer não me dá like”

“A minha expectativa era de produzir algo belo e inovador”, conta Tomás sobre o seu primeiro trabalho de produção após regressar de Nova Iorque como produtor musical licenciado. “Acreditava que o álbum mudaria minha vida porque logo no início do projeto me flagrava em momentos de muita empolgação, a Duda voltou diferente do retiro de meditação, seu olhar e expressão ficaram mais firmes”. Escrevem a quatro mãos, “eu chegava com letra e melodia”, explica Duda, e o Tomás com “harmonia no violão”, aos poucos, percebem que estas “melodias da cabeça” da cantora formam um disco, que existe uma narrativa. Chamam os reforços: o primo-baterista Gabriel Bittencourt e o teclista Lux Ferreira, que hoje compõe a dupla de produção Lux & Tróia, responsável pelos últimos singles Duda Beat.

[“Deixa eu te amar”:]

Finalmente, no ano passado, subiram as cortinas do segredo mais bem guardado da música brasileira. Sinto Muito começa como qualquer dia, ao primeiro raio de sol, um bocejo primaveril intitulado de “Anicca”, fora da cama, a espreguiçar os braços diante das teclas, morosamente, até estarmos de pé, acordados pelos martelinhos da drum machine em “Bédi Beat”, pela força bruta da vida “à flor da pele”, uma vontade de dançar, e enfim, de “chorar, chorar, chorar”. “É uma narrativa de sofrimento, eu componho baseado nas minhas próprias histórias, a minha inspiração é o que eu vivo”, contextualiza a compositora, no seu estilo próprio, a rematar com um gracejo:

“Só aumentei a quantidade de gente que ouve os meus problemas, que os meus amigos não aguentavam mais”.

“A Duda não queria que sua obra passasse despercebida”, explica o produtor. “A gente não queria errar. O primeiro disco pode demorar um pouco para sair porque não existe uma expectativa da parte do público. E depois de lançado não há volta.” Durante dois anos, numa ambição invulgar para um projeto independente, tudo é pensado ao milímetro, desde o Instagram ao figurino, que Duda descreve-nos como “looks ousados alinhados com as canções”. Porém, além desta atenção primorosa ao detalhe que é comum nas lides da pop, o que fez Duda distanciar-se dos restantes foi o inesperado resgate do mais genuíno e tosco que existe na sua terra natal: o brega.

“O Brega de Recife tem uma batida que é sensual, mas também engraçada”, tenta explicar o inexplicável, só ouvindo, desde a foleirada pioneira de Reginaldo Rossi ao brega-funk “Envolvimento” da MC Loma e as Gêmeas Lacração, um caso paradigmático do brega, uma miúda com um beat imenso e uma falta de vergonha alheia ainda maior, reuniu as amigas em frente a uma parede vagamente cimentada, debaixo do chuveiro, para o prazer de 50 milhões de pessoas. “É uma batida que é para trás, para dançar coladinho, sabe? Mas ao mesmo tempo é uma batida para cima”. Conta a história que uma extensa região, ali entre o Belém do Pará e Recife, comprou centenas de módicos teclados com música programada, e em poucos anos, floresceu uma música pimba regionalista, com a mesma dose de azeite e alegre exuberância. “Meu Jeito de te Amar” de Duda Beat com Omulu e Lux & Tróia é parte do vigente brega-funk — ou arrocha-funk, mais um exemplo deste vasto espólio de apertar os botões do instrumento até expelir marotagem, neste caso, alguém que está “carente precisando de um amor”, disponível para rebolar “gostoso”, num clima quente, sem frescura.

[“Meu Jeito de te Amar” de Duda Beat com Omulu e Lux & Tróia:]

“O objetivo era ser fiel à canção. A canção e a composição são o que há de mais precioso na indústria da música. Todo o resto é ornamento”, resume sabiamente Tomás, um ano após o sucesso meteórico destas confissões íntimas traduzidas em brega de textura contemporânea. “Na verdade isto é o que sempre quis fazer”, admite Duda.

“Ontem fui no cinema, e uma fã pediu para tirar uma foto comigo. Enquanto estava tirando a foto estava pensando, tenho tanto prazer em fazer isto, é muito louco”.

“Muita gente não sabe de verdade o que quer, depois porque quando sabe, não se dispõe”, reflete Castello Branco sobre o triunfo da sua melhor amiga. “Neste caso já não se trata mais de música, mas sim de comunicação. A Duda sempre foi muito querida, tem um carisma natural”. Agora, sem perder tempo, Duda bate asas fora do casulo da sofreguidão, sendo o feat de eleição para qualquer música brasileira em 2019, a pimenta na língua que dá nervo às canções alheias, desde Tiago Iorc a Lucas Santtana, de Gaby Amarantos a Mateus Carrilho e Jaloo.

[“Chega”: Duda Beat & Mateus Carrilho & Jaloo]

“Eu falo sobre um tema muito abrangente, todo mundo já sofreu de amor”, considera sobre este salto estratosférico dos concertos caseiros cariocas aos grandes palcos. “As pessoas se identificaram com a minha verdade, é por empatia que a minha palavra está a ir tão longe”. Tomás é mais cauteloso, defende que a “arte e entretenimento são ofícios subtis”, sem negar que, é incontestável que nesta história — do retiro de silêncio aos milhões de vozes em uníssono, “a vida dá os sinais”. O primeiro sinal em Portugal está dado, concerto esgotado no Musicbox e centenas de pessoas de coração despedaçado, à procura de remendo.