Houve um pouco de tudo no Japão ao longo de mês e meio. Surpresas, como o triunfo dos nipónicos com a Irlanda. Um furacão. A febre do râguebi a invadir várias ruas e pontos de concentração de adeptos que até este ano pouco ou nada ligavam à modalidade. Jogos cancelados devido às condições climatéricas. A queda da Nova Zelândia, a melhor equipa do mundo que falhou a possibilidade de conseguir o primeiro tricampeonato. Seis semanas depois, o Mundial chegava ao fim com uma final que, até pela derrota inicial da África do Sul na fase de grupos, não era a mais aguardada mas que funcionou como prémio para dois conjuntos que, sendo melhores ou piores do que todos os restantes, tiveram uma grande virtude: nunca desvirtuaram a sua nova identidade de jogo.

Tanto ou mais do que uma trajetória de ascensão, Inglaterra e África do Sul fizeram ao longo dos últimos quatro anos um caminho de redenção. No caso do conjunto da Rosa, a deceção do Mundial de 2015, organizado em “casa” e onde não passaram sequer da fase de grupos perdendo com Gales e com a Austrália, motivou uma viragem quase radical com o australiano Eddie Jones no comando de um projeto que teve na exibição majestosa com a Nova Zelândia nas meias o seu ponto alto. No lado dos sul-africanos, depois da eliminação nos quartos de 2011 e da inglória derrota com os All Blacks nas meias de 2015, um triunfo funcionaria como novo catarse num país do arco-irís em busca de um momento de glória como aquele que ficou imortalizado por Mandela em 1995 – isto depois de um período em 2017 onde chegou a não fazer parte sequer do top 10 do ranking mundial.

No final, ganhou o outsider, a África do Sul. Por força do pé direito de Pollard, o jogador de 25 anos que correu um dia o risco de perder o braço direito devido a uma infeção no ombro e que voltou a ser determinante pela eficácia nas tentativas aos postes tal como já tinha acontecido na meia-final com Gales. Por mérito de Siya Kolisi, o primeiro capitão negro dos sul-africanos que se tornou não só a referência de uma equipa mas também de um país e até de um continente. Para orgulho de Nelson Mandela que, 24 anos depois, viu uma nova versão do “Invictus” com protagonistas diferentes, histórias distintas mas o mesmo simbolismo para o râguebi e para a África do Sul.

A Inglaterra dificilmente poderia ter um início de jogo menos conseguido: apesar de Handré Pollard ter falhado a primeira penalidade (ao contrário do que aconteceu com Gales nas meias, em que acertou os cinco pontapés aos postes), Kyke Sinckler teve de sair lesionado depois de um choque com Maro Itoje quando tentavam fazer uma placagem a Mapimpi e os sul-africanos passariam mesmo para a frente do marcador ainda antes dos dez minutos iniciais, com Pollard a marcar uma penalidade bem ganha por Duane Vermeulen (9′). A África do Sul queria travar os bons arranques de Inglaterra nos dois últimos encontros, sem com ensaios conseguidos, mas acabou por fazer mais do que isso – da mesma forma como surpreendeu a Nova Zelândia, a equipa da Rosa foi surpreendida.

O passar dos minutos fez com que a Inglaterra começasse a conseguir travar o jogo de continuidade e velocidade do adversário e o inevitável Jonny May deu o mote para o resto, conseguindo evitar que um pontapé para ganhar metros de Pollard saísse de campo com um salto todo no ar e iniciando a primeira jogada onde se viu a seleção da Rosa deste Mundial, terminando com uma penalidade convertida por Owen Farrell (22′) num lance onde apenas num minuto Rassie Erasmus, selecionador da África do Sul, perdeu por lesão Mbonambi e De Jager. Podia ter sido um ponto de viragem no rumo da final mas Pollard assumiu mais uma vez o papel de estabilizador da equipa, preferindo atirar aos postes numa falta que daria para sair a jogar e fazendo o 6-3 três minutos depois.

Os ingleses continuavam a fazer erros não forçados (bem acima do normal) mas fizeram prevalecer o melhor jogo ofensivo e, depois de terem ficado muito perto do primeiro ensaio do jogo, Owen Farrell transformou mais uma penalidade em zona frontal e próxima aos postes para o 6-6 que voltaria a ser desfeito com mais dois pontapés de penalidade de Pollard em pouco mais de um minuto do intervalo, fazendo o 12-6 para os sul-africanos com que se chegou ao intervalo mas com um handicap face ao conjunto de Eddie Jones: apesar de ter feito uma das primeiras partes menos inspiradas deste Mundial, a Inglaterra estava completamente dentro do jogo.

No reatamento, Pollard voltou a mostrar-se letal no pontapé aos postes, aumentando a vantagem para 15-6 numa ação que nem todos conseguiriam transformar (e já lá vamos a essa parte). Os ingleses estavam encostados às cordas e aquilo a que se assistiu nos minutos seguintes foi uma nova inversão de papéis mas ao contrário: se a entrada dos sul-africanos teve pontos de contacto com aquela que a seleção da Rosa tinha conseguido frente à Nova Zelândia, também a equipa de Eddie Jones começou a procurar mais um ataque físico perante a falta de soluções face à defesa exterior do adversário. Ensaios, esses, nada. Mas os pontos continuavam a surgir.

Owen Farrell, que chegou nesta final aos 900 pontos marcados entre seleção e Lions, fez o 15-9, teve uma chance soberana para reduzir mais um pouco a desvantagem que desperdiçou (e que naquela altura poderia ter sido um clique na viragem dos britânicos), Pollard voltou a colocar a vantagem nos nove pontos, Farrell voltou a reduzir para apenas seis (18-12), mantendo o jogo à distância de um ensaio com conversão quando se chegou a meio da segunda parte, altura em que o sucesso ou não das várias substituições poderia ser determinante. No entanto, tudo mudaria em definitivo aos 66′, após uma penalidade falhada por Pollard: numa jogada ao pé entre Lukhanyo Am e Makazole Mapimpi, o último conseguiu converter o primeiro ensaio do encontro e com conversão (25-12).

A Inglaterra necessitava de dois ensaios com conversão em pouco menos de 15 minutos mas a pressão acabou por condicionar ainda mais o jogo ofensivo da seleção da Rosa, que continuou a somar erros não forçados e viu mesmo a defesa sul-africana fazer uma placagem que iniciou o momento mais simbólico do encontro, quando Cheslin Kolbe fez o segundo ensaio e lançou de vez a festa em Yokohama (32-13). 12 anos depois do triunfo com os ingleses, a África do Sul voltava a levar a melhor na final do Campeonato do Mundo de râguebi (quatro vitórias em cinco jogos em Mundiais) num momento que simboliza muito mais do que uma vitória e uma taça.