Há duas formas de ver isto: por um lado, Robert Freeman fez mais do que fotografar os Beatles e associá-lo apenas a essa função pode ser redutor; por outro lado, Robert Freeman fotografou os Beatles e qualquer pessoa que o tenha feito, que o pudesse ter feito, ficou e ficaria inevitavelmente associado a tal tarefa, até ao fim dos tempos pop. Daí que, juntando os dois pontos de vista, a conclusão do lead desta notícia seja a inevitável: morreu Robert Freeman, o homem que fotografou os Beatles. Tinha 82 anos.

Naturalmente que não foi o único e não foi ele que assinou imagens históricas como as capas de SgtPepper’s LonelyHeartsClubBand ou Abbey Road e não foi ele que deu ao mundo a última sessão fotográfica protagonizada pelos Beatles, em agosto de 1969 (essa levou o carimbo de Ethan Russell e Monte Fresco), com muito cabelo, muita barba e muita vontade que tudo acabasse depressa, que o fim da banda estava à vista. Mas foi este Robert Freeman o responsável pelas fotografias (e pelo design) da melhor parte da primeira etapa da vida da banda.

Tudo começou com With The Beatles, disco de 1963 que ainda misturava versões de clássicos rock’n’roll e R&B com composições próprias no formato clássico rock’n’roll vindo do final dos anos 50. Na capa, estão os quatro Beatles, três em linha e Ringo Starr por baixo. Simplesmente porque os quatro em linha nunca caberiam no formato quadrado de uma capa. Ringo ficou em baixo porque, precisamente, era o menos alto:

“With the Beatles”

1964, ano de A Hard Day’s Night, o terceiro álbum dos Beatles e aquele que guardava as canções do filme com o mesmo nome. Ora o filme mostrava a vida de uma banda no meio do estrelato pop, a correr para os concertos, a correr dos concertos e a corre de um modo geral. Na capa do disco, Freeman quis dar a ideia de movimento e pediu aos músicos para se apresentarem no seu estúdio fotográfico e para fazerem caras diferentes de cada vez que fossem fotografados. Depois foi montar, o que não quer dizer que tenha sido simples:

“A Hard Day’s Night”

Seguiu-se Beatles for Sale, cuja produção foi tão complexa quanto isto: Robert Freeman disse a John, Paul, George e Ringo algo como “apareçam no Hyde Park”, confiante de que os rapazes apareceriam com pinta, porque em princípio outra coisa não poderia acontecer. Assim foi. Era outono. Correu tudo bem. E ainda hoje dá uma ótima decoração para qualquer parede:

“Beatles for Sale”

Help!, de 1965, era o início de uma nova etapa para os Beatles. As canções mostravam-no: a faixa título, “You’ve Got To Hide Your Love Away”, “Ticket to Ride” ou “Yesterday” mostravam um nível superior de composição. E a capa do disco também se mostrava mais ambiciosa. Robert Freeman viria a explicar em diferentes ocasiões que de facto a ideia original era colocar cada um dos Beatles a fazer o sinal internacional das letras que formam a palavra “help”. Não aconteceu porque visualmente não ficava bem. Tão simples quanto isto. Vai daí, o que os Beatles soletram na edição original é “NUJV”. Sem problema. Ficou na história de qualquer maneira:

“Help!”

Ainda em 1965, Robert Freeman seria ainda o responsável pela capa de Rubber Soul, provavelmente o disco que marcou o início da mudança da música pop (o título ainda hoje é discutido por muitos, uns preferem este, outros preferem Revolver, o melhor mesmo é preferir os dois, em podendo). Ao nível das canções havia “Drive My Car”, “Norwegian Wood”, “Nowhere Man” ou “In My Life”. Quanto ao design, a ideia foi mais ou menos a mesma que gerou “The Beatles for Sale”, uma espécie de “vocês os quatro, olhem para mim e não se mexam”. Mas quando a imagem foi projetada num pedaço de cartão, o dito pedaço estava curvado, e o resultado é o que ainda hoje se vê:

“Rubber Soul”

Robert Freeman também fotografou músicos de jazz. Melhor, gigantes do jazz, de Cannoball Adderley a John Coltrane. Foi repórter do Sunday Times e captou imagens numa Rússia que então era distante. Foi o primeiro fotógrafo a assinar um calendário da Pirelli, publicado em 1964. Nunca ninguém lhe vai tirar isso. Mas Robert Freeman fotografou os Beatles. E ao fazê-lo, cumpriu duas missões: foi decisivo na construção da imagem da maior banda pop de sempre; e foi decisivo no desenvolvimento da cultura de imagem e de design da pop. Foi uma espécie de quinto beatle, pelo menos durante algum tempo, e certamente gostaria de ser lembrado assim.