É sacudir, sacudir e seguir caminho. Uma fórmula simples, orelhuda, animada que, no caso de Taylor Swift, funciona tanto para a vertente musical como numa espécie de filosofia de vida (pública). E a verdade é que, no dia em que a cantora entra na casa dos 30 anos, só faz sentido assinalar o aniversário porque ela é, muito unanimemente, considerada a grande artista pop da sua geração.

A afirmação é grandiloquente, mas pode sustentar-se com alguns números e títulos razoavelmente oficiais. Ainda esta semana, a revista Billboard atribuiu-lhe o estatuto de “Mulher da Década”. Pode também dizer-se, para efeitos de contabilidade, que foi a mais jovem artista de sempre a receber o Grammy de álbum do ano (isto em 2010), além de já ter nas prateleiras lá de casa um total de dez Grammys e 29 American Music Awards, e que o seu mais recente álbum, Lover, foi o único que conseguiu neste ano de 2019 vender um milhão de cópias nos EUA, ou até que já teve, até à data, mais de 95 temas no top de música Billboard Hot 100 – incluindo cinco singles que chegaram ao primeiro lugar. Já para não falar da prova de celebridade que é já ter tido uma longa disputa pública com Kanye West.

Não admira, assim sendo, que Swift considere o 13 (dia em que nasceu) o seu número da sorte, mesmo quando calha a uma sexta-feira, como é o caso. Vai ser esta a artista, ainda na plenitude da sua trintena de anos na terra, a aterrar em Portugal para a sua grande estreia nacional no dia 9 de Julho, integrada no cartaz do festival Nos Alive. Até lá, parabéns a você, apesar de não ter assim tantos anos de vida como seria de esperar pelo somatório de feitos, à menina Taylor, uma salva de palmas.

A nossa amiga @taylorswift13

No seu tweet de aniversário, Taylor Swift partilhou uma foto da infância e escreveu uma graça inocente, algo como: alguém conte a esta menina que já tem trinta anos. Os “swifties”, o nome carinhoso que os seus fãs dão a si próprios, foram aos píncaros.

Isto no caso de Swift tem particular relevância uma vez que, desde o início, a sua carreira musical sempre andou um pouco a par da sua “carreira” nas redes sociais. Aliás, este ano não só ascendeu ao primeiro lugar dos cantores mais bem pagos do mundo na lista da revista Forbes (com ganhos na ordem dos 167 milhões de euros), como ficou no top 10 das celebridades internacionais com mais seguidores no Instagram (119,6 milhões), partilhando o pódio com pesos pesados da popularidade como Messi, Kim Kardashian ou… Cristiano Ronaldo.

Há no sucesso de Swift, além da música, uma qualidade que tem muito a ver com esta sua destreza na gestão da presença nas plataformas virtuais, já vastamente diagnosticada pelos críticos – não tem apenas a ver com o facto de estar lá, ela e os seus gatos (Olivia Benson, Meredith Grey e Benjamin Button), ela e a sua batalha com Scooter Braun pela detenção dos direitos de autor sobre as suas músicas, ela e o jogo de pistas que vai deixando aos seguidores, mas tem tudo a ver com o facto de transmitir como muito poucos uma rara (e falsa) sensação de familiaridade. Ou seja, se ela fosse agora comentar isto, é muito provável que a frase incluísse um “you guys!”

As pessoas sentem que a conhecem, que ela está perto, e ela fala com os referidos milhões de desconhecidos como se falasse com amigos de confiança. Depois, além disso, se esse diálogo fictício com os seguidores multiplataforma da pessoa-Taylor Swift tivesse uma banda-sonora, essa banda-sonora seria composta pela discografia da artista-Taylor Swift – um equilíbrio de sensação de confidência que é, pelos vistos, perfeito.

Confortavelmente pop

O começo da carreira musical de Taylor Swift, mais próximo da música country, atrasou durante uns tempos o impacto do fenómeno fora dos EUA. Mas aconteceu, irresistivelmente, como numa tempestade perfeita, à medida que ela se foi entregando de corpo, alma, temáticas e melodias à música pop.

Com as angústias amorosas no centro de tudo, e um perfeccionismo calculado que encaixa como poucos na natureza confortável da pop, as canções de Taylor Swift são sempre ligeiramente inocentes, ligeiramente vingativas, ligeiramente irónicas, ligeiramente privilegiadas, ligeiramente ligeiras e ligeiramente intensas. Este verso de “Red” faz um pouco a súmula de tudo isso:

“Loving him is like driving a new Maserati down a dead-end street.”

Na verdade, mais do que isso, a obra de Taylor Swift parece ser, acima de tudo, ligeiramente autoconsciente de um cenário assético e até saudosista em relação a uma certa pop “original” que vai escasseando. Nas palavras de Jon Caramanica, jornalista de música do New York Times:

“Aquele tipo de música que se esforça por brilhar, animar, entusiasmar, com sentido de espetáculo. Muitas vezes, também uma expressão de branquitude. Com aquelas soluções que servem a todos. Durante um tempo, este tipo de música pop – basta pensar em Michael Jackson ou Madonna – foi efetivamente uma monocultura.”

Já não é. Agora esse lugar até é do mais reivindicativo hip-hop, que apenas namora com a ideia de pop, tal como o reggaeton ou o k-pop, para dar alguns exemplos de “contaminação”. Mas para Taylor Swift não – ela pode até flirtar com outros géneros, mas nunca vai além disso. Tem um instinto antigo que a mantém próxima de uma era que, com 30 anos, nem sequer foi a sua, e que, ironicamente, perante a evolução de tudo à volta, faz com que se destaque.

Agora que foi decretado o fim do reinado da música pop, pelo menos na forma daquele género melódico, despreocupado, otimista, a persistência de Taylor Swift, no apogeu dos seus 30 anos, torna-a uma espécie de last girl standing, aquela sobrevivente que dá por si sozinha no mundo num “I Am Legend” da música. Abre-se um espaço em branco e, claro, escreve-se o nome dela.