Há mais cinema no gesto desdenhoso com que o gentil senhor Park sacode o mau cheiro que não sabe vir do agora mortificado senhor Kim do que em todo o “Joker”. Mais verdade, mais humanidade, mais crueldade, mais subtileza, mais inteligência, mais pertinência, mais tudo.

E agora que começámos o texto com esta belíssima forma de fazer amigos, passemos a olhar com mais pormenor o caso de sucesso de “Parasitas”, que venceu os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Filme Internacional.

Vivemos num lugar e num tempo em que ler um jornal é coisa de intelectuais. Não admira que convidar alguém para ir ao cinema ver um filme sul-coreano se arrisque a ter por resposta a expressão de terror de quem na verdade ouviu “pós-doutoramento em culturas asiáticas e literaturas antigas comparadas, com aula prática de tortura”. Por isso é tão mais admirável o triunfo do filme de Bong Joon-ho, que entre nós resiste há mais de quatro épicos meses em cartaz, sobrevivendo à canonização instantânea de Joaquin Phoenix e Todd Phillips, ao excitex sofisticadinho perante “Marriage Story”, ao deslumbre tecnicista com “1917”, ao temor reverencial diante da santíssima trindade Scorsese-Pacino-De Niro e à nossa senhora do digital de “O Irlandês”. Porquê? Porque é um filmaço. Ponto.

“Parasitas” junta na mesma casa uma família rica, os Park, e uma família pobre, os Kim, da única forma que uma família rica e uma família pobre se podem juntar na mesma casa segundo Bong Joon-ho: com a família pobre a trabalhar para a família rica. Mas “Parasitas” será tudo menos maniqueísta ou simplista. Aliás, “Parasitas” é tudo, menos o que parece.

Tudo começa quando o jovem Ki-woo entra na residência dos Park recomendado por um amigo para ser explicador de inglês da bela Da-hye. Deslumbrado pelo luxo da casa, começa a arquitetar um plano para levar para lá, um a um, todos os elementos da sua família, não assumindo que são a sua família, como novíssimo staff dos Park: irmã explicadora de artes do filho mais pequeno, pai motorista, mãe governanta. Começamos por entrar como os Kim na riqueza dos Park. Entender o truque fácil de sair da semicave quase ao nível dos esgotos (parasitas) para o radioso conforto da mansão, onde nos instalamos ao ponto de a sentir como lugar real. Seguimos rindo-nos dos truques, das mentiras, do pequeno jogo de enganos. Até que começamos a ter simpatia pelos ricos Park, a achar que não merecem ser enganados, que são boas pessoas. Para depois descobrir que há camadas mais fundas e, quem sabe? – não querendo fazer spoiler – quem habite ainda outros níveis da realidade.

Descrito pelo próprio realizador como “uma comédia sem palhaços e uma tragédia sem vilões” (ao contrário de “Joker”, acrescentamos nós, onde tudo são palhaços e vilões), “Parasitas” vai mudando de género como um bicho da seda se transforma em borboleta. Começa como sátira, passa a comédia negra, desce ao thriller e acaba com um travo de épico, só contido pelo amargor realista com que Bong Joon-ho recusa mandar-nos iludidos para casa.

Ao contrário de outros pontuais casos de sucesso global de filmes de língua não inglesa, o êxito de “Parasitas” não se deve apenas a um triunfo pontual, isto é, a uma ideia particularmente boa, uma interpretação especialmente tocante, um ângulo apaixonantemente original. É uma proeza coletiva que os quase 200 prémios que já ganhou têm reconhecido de forma eloquente. Os argumentistas norte-americanos votaram-no como melhor argumento do ano, por exemplo. Tal como os editores a edição. Tal como os atores o elenco. Isto é, as guildas norte-americanas em peso a elegerem como melhor trabalho do ano, em cada setor, um filme estrangeiro – se não é a primeira vez na História, há de lá andar muito perto.

Mas, no fim do dia, “Parasitas” é bom é pela mesma razão que todas as grandes obras de arte através dos tempos são boas: porque nos toca. E porque é que toca? Porque é humano, não uma banda desenhada presunçosa e moralista. Afinal, não é por se pôr um ator a fazer de boneco que este deixa de ser um boneco – é preciso um pouco mais do que isso.

Uma comédia sem palhaços, uma tragédia sem vilões. Quem são os bons em “Parasitas”? Os Kim ou os Park? Ambos. E os maus? Ambos. “Eles são ricos, mas são boas pessoas” diz, ainda cedo no filme, o pai Kim. “Se eu fosse rica, também era boa pessoa”, contrapõe a mãe. Então, qual é o problema? Tudo isso. Tudo o que vai no gesto de desdém com que o senhor Park sacode o cheiro que não sabe vir do senhor Kim, o cheiro de que, como a pobreza, o senhor Kim não tem como se livrar dum dia para o outro, por mais truques que invente. E tudo o que vai na humilhação que o senhor Kim sente agora. Toda a violência de uma coisa e outra. Que vai inevitavelmente explodir.

Se “Parasitas” é o melhor filme do ano? Não tenho a certeza. É um dos melhores, a par de alguns outros de “língua não inglesa”, como “O Traidor”, de Marco Bellocchio, ou o belo “Dor e Glória”, com que Pedro Almodóvar regressa à grande forma. Se ajudar o grande público a abrir os olhos para outro excelente cinema asiático, perfeitamente acessível, como as obras de Hirokazu Kore-eda ou Lee Chang-dong, já terá feito muito. À parte isso, não há muito mais a esperar. Esperar que, de repente, passemos todos a dar atenção às cinematografias do mundo é como acreditar que Ki-woo vai, realmente um dia, conseguir comprar a casa Park.