Há um momento em que um fenómeno de culto se torna numa religião e pode muito bem ser quando o profeta se esquece da prece – ou, no caso dos Big Thief na noite de seguda-feira em Lisboa, quando Adrianne Lenker (vocalista, guitarrista, compositora, letrista e líder do quarteto) se esqueceu da letra e da sequência de acordes de “Shark smile” – que é só a canção mais conhecida da banda.

Por uns instantes ninguém sabia o que pensar – quer dizer, quantas bandas se esquecem de letras e acordes do single mais popular? Os restantes membros da banda guiaram Adrianne até ela ganhar forças para atacar de novo a canção – e nisto os crentes intervêm, ainda mais alto que Adrianne, que o PA, e cantam a letra de “Shark smile” como se o regresso de Adrianne à canção fosse a presentificação do filho de Deus.

Isto não sou eu a repetir-me, é a minha admiração perplexa a obrigar-me a dizer-me a mim mesmo que foi tudo real: que outra banda faz isto – esquecer-se do seu single mais conhecido? E ali, naquele exato instante, ficou simbolizado (neste mundo de regras herméticas e rituais estritos que o capitalismo adora) aquilo em que os Big Thief se tornaram: algo muito maior do que uma banda que faz discos e toca as canções conhecidas nos concertos, antes uma máquina furiosa de esgravatar as raízes da música americana, que em palco dá a volta a cada canção, coloca pausas onde não as havia, explode quando não se espera, berra onde no disco se cicia, apresenta canções novas e falha e tenta outra vez e nem por um segundo encena um espectáculo, antes convoca os crentes para a cerimónia e lhes oferece a maior das dádivas: aquela voz, ali, inteira, exposta a cada segundo.

Este foi, sem pingo de dúvida, o mais extroardinário concerto a que alguma vez assisti e não trocava nem um prego por um alinhamento livre de erros.

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Até à noite de segunda-feira eu achava que os Big Thief eram uma banda com dupla personalidade: os Big Thief de Masterpiece (de 2016) e Capacity (2017) estavam mais próximos do indie-rock, pese as suas raízes folk, e faziam sobretudo canções; enquanto os Big Thief de U.F.O.F. e de Two Hands (ambos de 2019) adotaram, dentro do seu universo folk, a estratégia do free-jazz de dinamitar pontes e refrões – a música dos Big Thief é, nestes dois últimos discos, um encontro quase místico de Adrianne com a história da música popular americana, servida de uma guitarra e três acólitos. As fotos nas capas dos dois primeiros discos eram de familiares de Adrianne e as letras das canções versavam a ideia de família, de pecado, de errar – mas nos últimos dois discos são os próprios Big Thief que ocupam as capas e as letras procuram uma ligação entre o cosmos e uma interiodade sempre confusa, à procura de uma pureza impossível.

Mas ao vivo percebe-se que nenhuma destas separações conceptuais importa, que se eles são duas bandas então no palco tornam-se numa terceira, maior que as dos discos, maior que todas as outras bandas ao cimo da Terra: as canções saltam dos discos em que foram editadas e mudam de forma, de corpo – à segunda canção estamos em “From”, que foi editada por Adrianne a solo (em Abyskiss), foi editada pelos Big Thief em U.F.O.F. numa versão diferente e em Lisboa soava a uma terceira coisa, ainda mais frágil, um leve dedilhado e um percussionista à procura de encher o imenso vazio que inunda a canção; de seguida estamos nessa espantosa “Mythological beauty” e Adrianne berra pela primeira vez, como um exorcista expurgando um mal impreciso.

E sem que pudéssemos respirar estávamos em “Not”, a mais gritty das canções que os Big Thief criaram (com a exceção dessa admirável “Jenny”, que ficou de fora do alinhamento), uma descarga elétrica extraordinária, a chispar a cada riff – e deve ter sido isto que os contemporâneos da The Band sentiram quando punham o amplificador no 11, deve ter sido isto que os seguidores dos Crazy Horse sentiram nos dias de mau cabelo de Neil Young, quando o canadiano precisava de deitar coisas cá para fora e o fazia em cima do palco e com uma guitarra com o volume no máximo.

Assistir a um concerto dos Big Thief numa sala como o Lisboa ao Vivo (acolhedora e intimista), em concerto em nome próprio, em que não têm de despachar canções (como acontece nos festivais em que atuaram por cá) é levar com uma valente tareia emocional, como a de “Shoulders”, em que a dada altura Adrianne canta “They found you in the morning / The blood was on your shoulders” e de súbito ela está a berrar “And the blood of the man / who killed my mother with his hands / Is in me”, a boca feita num vulcão de raiva e desespero – para logo a seguir estarmos em “The toy”, uma canção que parece quebrar-se a cada compasso, que se desenrola em torno de um pesadelo (em que a protagonista foge de um rapaz e uma mulher lhe toca num seio).

A admirável “Capacity” fez a ponte para um trio de canções novas, que invariavelmente Adrianne interrompeu, insatisfeita com os resultados, a pedir aos colegas para tocarem mais rápido ou mais devagar. Foi nessa sequência que se deu o engasgo em “Shark smile” – e mais à frente (após “Forgotten hands” e “Masterpiece”, intensíssimas e aterradoras de beleza) Adrianne desistiu de uma canção, que nem chegou a iniciar, ao fim de minutos a não conseguir afinar a sua guitarra de 12 cordas.

Compreendo quem se sinta ultrajado, porque pagou um bilhete e espera um espectáculo escorreito, com um alinhamento de canções conhecidas e sem falhas. Mas aquilo a que assistimos foi uma bênção: o mais próximo que podemos estar de uma banda quando esta baixa a guarda e se expõe, sem defesas nem artifícios. Foi como se estivéssemos na sala de ensaios deles, a vê-los explodir e chorar, comoverem-se com as suas próprias canções, com as suas próprias falhas.

Adrianne recompôs-se do problema da guitarra que teimava não afinar, evitou as lágrimas e, visivelmente abalada, atirou-se a uma espantosa e comovente “Mary”; e de seguida – e é mesmo preciso ter-se estofo emocional para lidar com os Big Thief e as suas mudanças bruscas de tonalidade emocional de canção para canção – deu-nos uma catártica e explosiva “Real love”. E estava acabado, era o fim.

Podemos citar bandas (a The Band, os Crazy Horse, os Big Star), que nada disso importa – os Big Thief estão num caminho só seu, que simultaneamente esventra o solo da música americana tradicional e o semeia de rock e psicadelismo e blues e de histórias de gente perdida à procura da redenção do cosmos. E fazem isto como se estivessem na sala de estar, lágrimas nos olhos, queixo a tremer, amigos em volta, sem medo algum do ridículo.