“Somos FC Porto”, “Queremos fazer um jogo à FC Porto”, “Temos o ADN Porto”. Ao longo de mais de duas épocas e meia, muita da química que Sérgio Conceição conseguiu criar entre equipa e adeptos teve o mérito de resgatar os princípios que estiveram na base da ascensão de Pinto da Costa ao longo de quase quatro décadas e que ainda vêm dos tempos de José Maria Pedroto, uma das grandes referências dos azuis e brancos em tudo e para todos. Aquele espírito guerreiro, o querer mais, o não dar nenhuma bola por perdida. Esta era uma das marcas do técnico que faleceu já há 35 anos. Isto e, em termos táticos, um modelo de jogo baseado e assente na posse.

Como um dia explicou José Pereira, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, numa das muitas homenagens que foram feitas ao longo do tempo ao técnico que passou por outros clubes além de FC Porto e Seleção Nacional como Académica, Leixões, Varzim, V. Setúbal, Boavista ou V. Guimarães, Pedroto estava à frente do tempo. Por duas razões: 1) pela forma como conseguia construir equipas de guerreiros que davam tudo pela camisola que vestiam podendo partir como favoritos ou outsiders; 2) pela maneira como montava ideias que tinham na génese de tudo a bola. E foi nesses princípios que assentaram os lançamentos do jogo.

“Sou um admirador confesso da Bundesliga e das equipas alemãs. Nesta ronda europeia, todas as equipas da Alemanha venceram. É um campeonato fortíssimo, com uma intensidade muito grande. E o Bayer tem muita qualidade individual. Praticam um futebol que penso ser padrão na Alemanha: agressivo, intenso, com constante vontade de recuperar a bola e de permitir muito pouco aos adversários. (…) O adversário não é forte só em ataque organizado mas também quando a equipa está mais baixa e sai em transição de forma rápida e objetiva. Olhamos para a equipa do Bayer no global em diferentes momentos, mas é uma equipa que gosta de ter bola”, referiu Sérgio Conceição na véspera da receção ao Bayer Leverkusen. Mais uma vez, aquela que é a equipa com mais posse da Bundesliga voltou a ganhar essa luta. Mas a batalha decidiu-se sobretudo numa má decisão.

Ficha de jogo

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FC Porto-Bayer Leverkusen, 1-3 (2-5 no agregado)

2.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: István Kovács (Roménia)

FC Porto: Marchesín; Corona, Mbemba, Marcano, Alex Telles; Uribe (Pepe, 46′), Sérgio Oliveira; Otávio, Luis Díaz (Nakajima, 29′), Marega e Zé Luís (Soares, 64′)

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Wilson Manafá, Loum e Aboubakar

Treinador: Sérgio Conceição

Bayer Leverkusen: Hradecky; Lars Bender (Weiser, 46′), Tah, Sven Bender (Dragovic, 67′), Tapsoba, Sinkgraven; Havertz, Demirbay, Amiri; Alario e Diaby (Bailey, 83′)

Suplentes não utilizados: Ozcan, Baumgartlinger, Palacios e Bellarabi

Treinador: Peter Bosz

Golos: Alario (10′), Demirbay (50′), Havertz (58′) e Marega (65′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Zé Luís (33′), Sérgio Oliveira (36′), Uribe (42′), Lars Bender (43′), Marcano (54′), Demirbay (67′), Weiser (69′), Nakajima (76′), Amiri (81′) e Pepe (82′); cartão vermelho direto a Soares (85′)

A perder por 1-0 ao intervalo num jogo onde a luta pela bola fez muitas vezes com que as equipas se esquecessem das balizas (três remates em 45 minutos), Sérgio Conceição arriscou e lançou Pepe no lugar de Uribe, passando Otávio para o meio e colocando Corona e Alex Telles a fazer os corredores laterais. Um golo bastava para recolocar o FC Porto na luta pelo resultado e pela eliminatória mas foi a passagem para uma linha a três na defesa acabou por ser a morte definitiva dos dragões frente ao conjunto dos farmacêuticos que voltou a ter Havertz como génio à solta que em 15 minutos marcou um golo e deu outro a marcar já depois de ter feito a assistência para o 1-0. A aspirina lançada para acalmar e assentar a equipa azul e branca tornou-se a maior das dores de cabeça.

Com apenas uma troca na equipa, com a saída de Soares (que atravessa o pior momento da temporada, como ficou de novo bem patente com o Portimonense) e a entrada de Zé Luís, Sérgio Conceição promoveu também o regresso de Otávio ao conjunto inicial colocando de novo Corona como lateral. E foi por aí que vieram os primeiros sinais de alguma perigo a pecar no último passe dos dragões, primeiro com o mexicano a ter uma boa descida para um cruzamento que caiu na zona de ninguém e depois com uma combinação com Marega que viu o cabeceamento de Otávio travar na defesa germânica para canto. A profundidade dos laterais do FC Porto dava sinais positivos no arranque do jogo mas bastou uma transição defeituosa para tudo ruir num único lance.

No seguimento de uma boa saída do Bayer Leverkusen que contou também com a genialidade técnica de Havertz para tirar adversários do caminho numa diagonal da direita para o centro, Alario recebeu bem no prolongamento do movimento do jovem germânico para rematar cruzado e inaugurar o marcador, num lance invalidado numa primeira instância mas que seria validado pelo VAR dois minutos depois (10′). Depois de Firmino, que no ano passado tinha marcado nos dois jogos do quartos da Champions, o argentino, também conhecido como El Pipa, repetia o feito e mudava por completo as características que o encontro iria tomar de forma natural.

Ainda houve mais saídas com perigo dos germânicos até à entrada do último terço, onde Marcano e Mbemba iam safando como podiam, mas era sobretudo do meio-campo para trás, em termos de organização e de vitórias nos duelos individuais, que o Bayer Leverkusen fazia a diferença com o passar dos minutos a não ser nos movimentos raros de Otávio por dentro entre linhas que conseguiam provocar alguma agitação. Na posse, os alemães estavam melhores; nos remates, nem havia luta – até porque o único remate dos azuis e brancos na primeira parte chegou num cabeceamento de Otávio ao lado após cruzamento da direita (40′). E como um mal nunca vem só, Luis Díaz ainda sentiu um problema na coxa direita e foi substituído por Nakajima ainda antes da meia hora.

Ao intervalo, por questões táticas e também de forma a prevenir eventuais problemas com os dois médios mais centrais já com cartão (o critério do árbitro romeno no Dragão foi igual mas a chuva de amarelos tornou-se algo desnecessário…), Sérgio Conceição mexeu e lançou Pepe em campo no lugar de Uribe, desenhando um 3x4x3 com Mbemba, Pepe e Marcano atrás, Otávio a juntar-se a Sérgio Oliveira no meio, Corona e Alex Telles a fazerem todo o corredor e o trio Nakajima-Marega-Zé Luís mais na frente. A ideia, na teoria, foi percebida. A ideia, na prática, tornou-se um pesadelo. E bastaram menos de 15 minutos para se tornar uma evidência, não pela ação direta individual do internacional português mas pela falta de ação global em termos coletivos.

O arranque dos azuis e brancos ainda conseguiu aquecer ligeiramente as bancadas frias que iam gelando com o passar dos minutos mas duas transições bem gizadas pelos alemães, a aproveitarem a profundidade mas também um “buraco” que ficava sempre que um dos centrais saía com a referência ofensiva e não conseguia ganhar a bola, serviram para o Bayer Leverkusen chegar com facilidade ao 3-0: primeiro foi Demirbay a quebrar um jejum de mais de um ano sem marcar após uma primeira defesa de Marchesín e com Havertz de forma inevitável a fazer a jogada (50′); depois foi o próprio Havertz, que entretanto herdara a braçadeira de Lars Bender, a assistir Diaby para novo intervenção do argentino antes de fazer a recarga para a baliza deserta (58′).

De forma nem sempre assumida mas que numa primeira instância ficou bem percetível, Sérgio Conceição desfez a linha de três, colocou Mbemba como lateral direito (embora em algumas ocasiões Corona ainda tenha descido um pouco mais para o central ir mais para dentro) mas a única coisa que estava ainda em jogo era a honra da equipa, defendida por Marega com um golo (65′), por Otávio pela capacidade de não deixar cair a equipa e por Corona pela vontade demonstrada mesmo quando as pernas já não respondiam. De resto, até foi Marchesín a evitar males maiores sobretudo num lance onde Bailey apareceu isolado (83′) antes de Soares ver o cartão vermelho direto por atingir com o braço Tah numa disputa pelo ar (85′) e fechar por completo o encontro.