Há poucos escritores a quem o título de maior romancista de todos os tempos fosse mais um insulto do que um elogio. É verdade que Charles Dickens está na linha da frente do romance oitocentista – que, na prática, definiu o romance moderno – e que, se a língua inglesa é chamada a língua de Shakespeare, o bardo de Avon a deixou a Dickens em regime de morgadio; no entanto, Dickens é muito mais do que o romance, porque o seu romance foi poderoso a ponto de transformar o século XIX. Ainda hoje o século por excelência do romance é também o mais romanesco, porque Dickens o transformou completamente em matéria narrativa.

Num dos seus ensaios sobre Dickens, Chesterton explica que Dickens é o romancista do espírito democrático, dessa época algo ingénua em que o progresso se imiscuiu nas consciências a ponto de cada Homem ter do seu próprio futuro uma perspetiva altamente ambiciosa e radiante. De facto, nas grandes figuras Dickensianas há os golpes da fortuna, os enredos mirabolantes e os destinos fabulosos que quadram com as ambições da burguesia; o século de Micawber começa com Napoleão, o Homem que furou o destino e moldou os desejos dos seus contemporâneos. O progressismo do século XIX, a gesta do Homem comum, têm de facto em Dickens o grande bardo. Chesterton interpretou Dickens como o romancista da alegria e ligou essa alegria à esperança oitocentista e a um mais profundo sentido cristão da sociedade; no entanto, o quadro que Dickens nos pinta é mais completo do que aquele que nos dá Chesterton.

As personagens de Dickens são um dos traços mais marcantes da sua obra. De Fagin a Miss Pegotty, o virtuosismo de Dickens é demonstrado pela sua capacidade de trazer dimensões únicas a personagens completamente diferentes. Há personagens caricaturizadas, personagens que se tornaram até uma espécie de arquétipos sociais, no entanto todas elas têm um traço particular difícil de captar. Micawber não é propriamente o arrivista ou o ambicioso como o são Rastignac ou Dâmaso Salcede; mesmo as suas personagens-tipo têm uma dimensão incomum que as torna mais do que uma caricatura. Dickens não fez uma galeria das personalidades do século XIX, à maneira dos autos medievais. No entanto, as suas personagens são tão fortes que de certa forma criaram as personagens do século XIX.

O Oliver Twist é demasiado brando e melancólico para representar a opinião geral sobre os órfãos que ocupavam as fábricas de Manchester ou Liverpool; no entanto, é difícil não olhar para o trabalho infantil com a tristeza de que Dickens dotou Oliver Twist.

As suas personagens não são propriamente representativas, no sentido em que não podemos dizer que correspondam a um traço geral das profissões ou dos estratos representados. Aquilo que Dickens lhes deu, porém, é uma dimensão maior do que essa. Dickens consegue fazer das qualidades humanas dos seus protagonistas, não as comuns, mas as certas. O órfão sensível e azarado, ou o negociante com bons princípios e más práticas que nunca perde a esperança em vir a ser rico não são típicos mas são ainda assim representativos, não deles mas das suas situações.

O século XIX parece-nos fundamentalmente citadino porque Dickens encontrou o vocabulário certo para expressar o movimento e a vida das cidades

A vida de Charles Dickens é conhecida e ajuda, em parte, a explicar este fenómeno. Dickens terá sido desde sempre um rapaz com um certo talento para a escola, a quem a prisão do pai (por dívidas) empurrou para o trabalho numa fábrica.

Dickens conseguiu libertar-se do trabalho e voltar à escola, antes de começar uma carreira de jornalista, mas o acontecimento fundamental já estava bem gravado no íntimo: o rapaz de tendências intelectuais a trabalhar na fábrica,a vida no mundo a que nunca se adaptaria bem pesou no modo de construir o seu universo romanesco. As suas personagens não são vulgares como a sua experiência não foi vulgar. O rapaz que não é exatamente como se espera é um dos temas centrais da sua obra. Não esperamos que um tycoon tenha a bondade de Micawber, os inspetores do orfanato não esperam que a criança que pede “mais” seja senão um malcriado. A distância entre os indivíduos e as suas personagens tipo é em Dickens matéria romanesca. Pode ser inacreditavelmente cómica, como no caso de Mr. Pickwick e das suas aventuras involuntárias, mas também pode ser trágica, como em Oliver Twist, a criança a quem os reveses se sucedem acima de tudo por causa da má compreensão do seu carácter.

Ora, esta diferença entre aquilo que são as personagens e aquilo que deviam ser ganha em Dickens universalidade porque Dickens adapta o carácter delas àquilo que é fundamental nas suas imagens. Como em Samuel Pickwick o fundamental é o carácter comodista dos passeios e o lado burguês da vida em clubes, Dickens transforma-o cruelmente num aventureiro involuntário; como a perceção geral dos órfãos está próxima daquilo que se encontra no bando de Fagin, Oliver Twist é a mais ingénua das crianças. Os enredos de Dickens são, obviamente, convencionais (até porque a convenção nasce de Dickens); no entanto, jogam sempre com esta distância entre a personagem e o seu mundo e com a maneira certa de olhar para cada um.

É neste sentido que Dickens criou o olhar sobre o século XIX. Se o seu poder narrativo alimentou como nenhum motor de combustão dezenas de fábricas e da vida industrial do seu século, o seu olho marcou para sempre os temas fundamentais do século. É graças a Dickens que olhamos para as fábricas, para o trabalho infantil, para os negócios e para as lojas citadinas como parte fundamental do século XIX. O século parece-nos fundamentalmente citadino porque Dickens encontrou o vocabulário certo para expressar o movimento e a vida das cidades. Ainda hoje os subterrâneos e as ruas sujas, os proscritos e os excêntricos nos parecem os grandes motivos literários porque Dickens os transformou em matéria literária.

Embora a crítica sofisticada de princípios do século XX se tenha esforçado por desmerecer Dickens, a verdade é que o seu mundo prevaleceu no romance como nenhum outro. Nem os burgueses de Balzac nem os biologismos de Zola têm o peso narrativo que tem o mundo de Dickens na ficção contemporânea. Embora o mundo de Bolaño, ou de Bukowski, ou até de Fialho de Almeida, tenham um acinte diferente, a verdade é que devem a Dickens a sua gramática. Foi Dickens que trouxe para o romance moderno o tema dos proscritos, que os encheu de um sal que os torna facilmente matéria narrativa e que deu ao sujo e ao escuro uma atração que ainda hoje alimenta enredos e ambientes.

Dickens é o mais versátil escritor que apareceu nos últimos duzentos anos, com a mesma capacidade para a comédia e para a tragédia, com o mesmo domínio dos tempos narrativos que da inventividade descritiva, com o mesmo poder para inventar expressões que parecem saídas da boca de Deus e para criar verdadeiras galerias antológicas de personagens. Não é de admirar que o romance lhe deva quase tudo e que nenhum cinismo consiga deitar abaixo a candura e a pureza quase paradisíaca dos seus livros. Se há escritor que merece o histerismo com que foi recebido na América, as manias bibliófilas que prevalecem, esse escritor é o homem que criou um século: Charles Dickens.