Erguida em 1895, a estátua de bronze de Edward Colston, um comerciante de Bristol que fez fortuna com o tráfico de escravos africanos para a América, foi substituída, esta quarta-feira, por uma escultura de um dos manifestantes que a derrubou e atirou para o Rio Avon, entre aplausos da multidão, durante a segunda marcha realizada na cidade inglesa no âmbito dos protestos BlackLivesMatter.

Esta manhã, e para total surpresa das autoridades, a figura de Jen Reid em pé, no pedestal, com o punho fechado, foi erguida por uma equipa de 10 pessoas, dirigida pelo artista contemporâneo britânico, Marc Quinn, cujo trabalho inclui escultura, instalação e pintura. Foi ainda colocado um cartaz com a inscrição “black lives still matter” (vidas negras ainda importam). Uma ideia que, segundo Reid e Quinn, estava a ser trabalhada há semanas. “É simplesmente incrível”, disse a manifestante aos jornalistas, colocando-se em frente à estátua com o punho no ar.

A nova figura de resina preta e aço – intitulada “A Surge of Power (Jen Reid) 2020″ – foi transportada do estúdio de Quinn, na terça-feira, e armazenada durante a noite fora da cidade. Segundo Reid, foi a equipa de Marc Quinn quem delineou o plano meticuloso, que garantia que a estátua pudesse ser erguida e colocada no pedestal (com recurso a uma grua hidráulica) de forma rápida, antes da chegada das autoridades. Os veículos que transportaram o material necessário para a instalação, e que chegaram ao local antes das cinco da manhã, saíram 15 minutos depois de lá terem chegado . “Eu sabia que isto ia acontecer”, disse Reid. “Eles eram tão eficientes”.

Pelas oito da manhã, já uma multidão de transeuntes tirava fotos e discutia a escultura, mas ainda não havia qualquer sinal da polícia. “É incrível vê-la”, disse a filha de Jen Reid, Leila Reid, quando chegou ao local e viu a estátua da mãe. “É surreal. Da rótula ao formato das mãos – é ela”, afirmando que esta é a melhor forma de projetar o movimento Black Lives Matter (BLM)

Reid, estilista de profissão, participou na marcha com o marido e fez parte do grupo de manifestantes que empurrou a estátua de Colston para o rio, a 7 de junho. Segundo ela, defender o BLM é “monumental”, e está convicta que esta ação vai reacender o debate contra o racismo e a violência policial. “Não vejo isso parar tão cedo”, justifica.

já Quinn – cujas obras mais conhecidas incluem o auto-retrato “Self” – disse considerar um dos deveres dos “proeminentes artistas brancos” ampliar outras vozes. “Sempre achei que fazia parte do meu trabalho trazer o mundo para a arte e a arte para o mundo”, explicou Quinn, que já fez uma série de obras inspiradas nos distúrbios que se seguiram à morte de Mark Duggan pela polícia, em 2011.

A inspiração para esta estátua, revela, surgiu depois de ver fotos de Jen no pedestal – que circulavam nas redes sociais – quando ela, de forma “espontânea”, levantou o braço no ar. “Achei aquilo incrível. Ela deu vida a uma obra de arte extraordinária apenas com esse gesto. Precisava de ser cristalizada num objeto e recolocada no pedestal antes ocupado por Edward Colston”.

O artista admitiu, ainda, que a escultura foi concebida como uma instalação temporária para continuar a conversa sobre o racismo e não sabia quanto tempo ia permanecer no local. “Pode estar lá um mês, pode estar lá um ano, mas não vai estar lá para sempre”, disse ele.

As autoridades da cidade de Bristol retiraram do rio a estátua de Colston, patrono de Bristol, várias dias depois. Confirmaram, entretanto, que será exibida num museu mas junto aos cartazes de protesto do movimento Black Lives Matter.