“Só me faltam seis meses e vinte e oito dias para me reformar. Devo fazer esta conta diária do meu saldo de trabalho há cinco anos. Preciso mesmo tanto de ócio? Digo a mim próprio que não, que não é do ócio que eu preciso, mas sim do direito a trabalhar naquilo que quero”.

Assim começa A Trégua, de Mario Benedetti, romance editado em Portugal pela Cavalo de Ferro. E aqui se resume a identidade literária do uruguaio. Uma equação que se divide entre a burocracia dos dias e o desejo de uma coisa maior. Nesse livro, um homem quase cinquentão, viúvo, encontra um amor que não esperava. O final não é propriamente radioso, mas a possibilidade de deslumbramento, de aventura, depois de décadas de desalento, está lá. “Certo é que eu ignorava ter em mim estas reservas de ternura. E não me importa que esta seja uma palavra sem prestígio”.

Não é esta a biografia do autor, nascido no dia 14 de setembro de 1920 em Paso de Los Toros e que muito cedo foi viver para Montevideu, tendo começado por afirmar-se com Poemas de la Oficina, o seu quarto livro de poemas  (1956). O seu grande amor, talvez o único, foi a mulher e companheira, Luz López Alegre, cujo Alzheimer e posterior morte, em 2006, lhe provocou o desgosto provavelmente responsável pelo início de uma degradação física fatal, a 17 de maio de 2009. A sua vida teve trilhos variados – passou pela Argentina, pelo Peru, por Cuba (onde dirigiu a Casa de las Américas) e por Espanha. Quando morreu Luz, o casal vivia neste país e a ocorrência fez Benedetti voltar ao seu país natal, onde se estabeleceu até à derradeira respiração.

Membro da Geração de 1945, na qual moravam autores que gravitavam à volta do jornal Marcha, entre eles, Eduardo Galeano e Juan Carlos Onetti, Benedetti foi escritor de romances, livros de contos, ensaios, peças de teatro e muita poesia. Em número de livros, ganha a obra poética, com títulos como La casa y el ladrillo, El olvido está lleno de memoria e Testigo de uno mismo. Na ficção, ao realismo mágico, muito típico da zona do globo de onde era oriundo, preferiu o realismo comezinho do dia-a-dia. O mencionado A Trégua é exemplo máximo do recurso aos ambientes de escritório para destacar os mais relevantes temas humanos como o luto, a relação pai-filho, o sexo, a vontade de felicidade amorosa, ora concretizada ora frustrada pelas contingências de existir. Os títulos dos outros dois romances do autor publicados pela Cavalo de Ferro, A Borra do Café e Obrigado pelo Lume, são inequívocos em relação ao projeto de recorrer ao quotidiano para revelar o drama dos homens, sempre compensado pela realização de pequenas alegrias.

A capa de “A Trégua” na edição da Cavalo de Ferro

A política foi conhecida companheira de estrada do autor de Noción de Patria, obrigado a um exílio depois do Golpe de Estado de 1973 e da subsequente ditadura militar. Foi uma das figuras que não abandonou a cumplicidade polémica com regimes comunistas, como o cubano, e com quem os protagonizou. E foi no plano político que guerreou em 1984, na revista italiana Panorama e no jornal espanhol El País, com o seu amigo Mario Vargas Llosa, cada vez mais cético em relação a um progressismo considerado por ele totalitário, limitativo das liberdades individuais.

Anti-cínico, encontrou a liberdade no sentimento amoroso e nos poemas dedicados à sua mulher. Versos respigados na sua lírica são prova disso:

“Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és”

“E na rua lado a lado
somos muito mais que dois”

“Estás sozinha
estou sozinho
porém às vezes
pode a solidão
ser
uma chama”

Essa solidão e a desilusão por viver durante décadas longe do seu lugar também foram compensadas pela leitura pública dos seus poemas, pelo encontro com leitores e pela colaboração musical com Juan Manuel Serrat no álbum El sur también existe, todos decisivos para conquistar corações ávidos de se perceberem nos seus mistérios.

Há vasta gente por aqui desconhecedora da obra de um autor determinante no gesto de criar uma literatura de grande limpidez, simples na aparência, dialogante com os leitores, mas não tão conhecido como um Gabriel García Marquez ou um Julio Cortázar, com quem se correspondeu, nomeando a proximidade, intelectual e cívica, entre ambos e a diferença de vocações em relação à literatura – um era mais dado à experiência, outro mais direto e sentimental. Que procure a sua obra, capaz de perseguir a vida entre desertos e escombros.