Num inquérito destinado a desenvolver uma estratégia de investigação para a dor na Europa, publicado no final de 2024, 628 profissionais da área da dor (investigadores, clínicos, educadores e profissionais da indústria) foram convidados a classificar cem prioridades de investigação, agrupadas em nove grandes temas.

Destes, cinco temas destacaram-se: a compreensão dos mecanismos da dor, o estudo das comorbilidades [existência de duas ou mais doenças numa mesma pessoa, em simultâneo], a avaliação dos tratamentos atuais, o desenvolvimento de novos tratamentos e o impacto biopsicossocial da dor. O tema “incorporar a voz do doente na investigação” não estava entre os cinco classificados como mais relevantes pelos inquiridos. Na verdade, a prioridade que propunha envolver as pessoas com dor na definição das perguntas e no desenho dos estudos ficou no último quartil, com apenas 22,5% dos inquiridos a considerá-la “extremamente importante”, contra 59% no caso da descoberta de novos alvos terapêuticos (a prioridade mais valorizada).

Além disso, as pessoas com dor crónica não foram inquiridas, e os próprios autores, entre os quais me incluo, reconhecem que as prioridades de quem vive com dor podem ser diferentes das que foram definidas por clínicos, investigadores ou outros profissionais.

Estes dados não surpreendem, mas deveriam preocupar-nos, e muito. Pergunte a quem vive com dor crónica como esta afeta a sua vida e terá tantas respostas quantas as pessoas a quem perguntar. Cada indivíduo é único na forma como sente, como se exprime e como se adapta às condicionantes que a dor crónica impõe. No entanto, nos muitos laboratórios que se dedicam ao estudo da dor crónica, há uma crença fechada nos mecanismos. De uma forma genérica, eventualmente caricatural, identificam-se respostas moleculares associadas à dor, manipulam-se as moléculas mais relevantes e, com isso, trata-se a dor. Pelo menos nos modelos pré-clínicos. Na prática, o laboratório continua muito longe da clínica.

Reconhecer as prioridades da pessoa com dor crónica é, acima de tudo, um elementar ato de humanidade. Trazer essas prioridades para o centro da investigação é, ou deveria ser, um exercício obrigatório para quem trabalha na área. Continuamos focados no alívio da dor (que certamente todos desejam), mas quem vive com dor crónica quer também dormir, ter energia, recuperar o bem-estar e o prazer de viver.

Uma redução da dor à custa de efeitos secundários que interferem com o dia a dia não é de todo desejável. É preciso ter presente, por exemplo, que manter uma vida ativa e independente, cuidar da higiene pessoal, arrumar a casa, fazer exercício ou passar tempo de qualidade com a família e os amigos fazem tanto parte da terapêutica como a medicação. Reconhecer isto é também reconhecer que estudar a dor no laboratório tem limitações, pois a dor é muito mais do que um reflexo a um estímulo. A dor crónica traduz-se em alterações que atravessam todos os domínios do comportamento e dificilmente haverá um mecanismo ou uma molécula com a solução para o problema.

Assim, é preciso ter sempre presente que, por muito bem que se conheçam os mecanismos subjacentes à dor crónica (e que não conhecemos por completo), eles operam sempre num contexto único: a biologia, a história de vida e os contextos pessoal, social e profissional de cada pessoa. Por isso, é urgente que todos nós, investigadores, clínicos, pessoas com dor crónica e suas famílias, troquemos ideias.

É com esse espírito que, no próximo dia 24 de outubro, organizamos pela primeira vez, na Escola de Medicina da Universidade do Minho, o encontro Dor na Primeira Pessoa: quando a ciência escuta a experiência. Trata-se de uma iniciativa conjunta da Escola de Medicina, do Centro Clínico Académico de Braga (2CA-Braga) e do Centro de Medicina Digital P5, inserida nas comemorações do Dia Mundial Contra a Dor, celerado a 17 de outubro, que pretende integrar a perspetiva das pessoas com dor na investigação e na prática clínica, e com isso identificar prioridades futuras e reduzir o estigma associado à dor crónica. A participação é gratuita, mas sujeita a inscrição. Sejam todos bem-vindos.

Hugo Leite-Almeida é doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade do Minho e investigador no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da mesma universidade, onde lidera o grupo de Neurobiologia da Dor. É também um dos cronistas convidados da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor.

Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a Ferraz Lynce (através da sua unidade, FAI Therapeutics) e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.

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Ferraz Lynce + FAI Therapeutics

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APED SIP PT