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Split. Para os adeptos de futebol que eram nascidos e crescidos dos anos 90, principalmente os do Benfica, o nome da cidade na costa do Mar Adriático não deixa de provocar alguns arrepios. Em setembro de 1994, os encarnados viajaram até à cidade croata para defrontar o Hadjuk, clube local, em jogo a contar para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Depois de um empate sem golos durante os 90 minutos, três adeptos do Benfica acabaram por morrer num despiste em Espanha. O acidente, há 26 anos, criou uma ligação entre os dois clubes — entre os dois conjuntos de adeptos — que se mantém até aos dias de hoje. Em agosto de 2017, durante um jogo com o Desp. Aves, a claque encarnada exibiu uma enorme tarja onde se lia “Blato zivi vjecno”, Blato viverá eternamente, em português. A mensagem era uma referência a Ivan Mate Blaževic, adepto do Hadjuk Split que tinha sido assassinado dias antes.

Esta terça-feira, uma comitiva portuguesa regressava a Split. Não era o Benfica, não era um clube, era a Seleção: mas era a primeira vez, desde o desastre de 1994, que uma equipa que representava Portugal jogava na cidade croata. Portugal chegava à Croácia já sem qualquer possibilidade de apuramento para a final four da Liga das Nações depois da derrota com França no sábado; a Croácia recebia Portugal com a intenção de alcançar o melhor resultado possível, a olhar para o encontro entre França e a Suécia, e evitar a despromoção à Liga B da competição.

Ficha de jogo

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Croácia-Portugal, 2-3

Fase de grupos da Liga das Nações

Poljud Stadium, em Split, na Croácia

Árbitro: Michael Oliver (Inglaterra)

Croácia: Livakovic, Juranovic, Skoric, Lovren, Bradaric, Modric, Rog, Kovacic, Vlasic (Orsic, 83′), Pasalic (Brekalo, 64′), Perisic

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Suplentes não utilizados: Grbic, Sluga, Barisic, Colak, Basic, Budimir, Badelj, Petkovic, Melnjak

Treinador: Zlatko Dalic

Portugal: Rui Patrício, Nélson Semedo, Rúben Semedo, Rúben Dias, Mário Rui (João Cancelo, 71′), João Moutinho, Danilo (Sérgio Oliveira, 77′), Bruno Fernandes (Trincão, 45′), João Félix (Bernardo, 71′), Cristiano Ronaldo, Diogo Jota (Paulinho, 77′)

Suplentes não utilizados: Anthony Lopes, Rui Silva, Domingos Duarte, José Fonte, William Carvalho, Pedro Neto, Rúben Neves

Treinador: Fernando Santos

Golos: Kovacic (29′ e 64′), Rúben Dias (52′ e 90′), João Félix (60′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rog (23′ e 51′), a Cristiano Ronaldo (54′), a Perisic (58′); cartão vermelho por acumulação a Rog (51′)

Na antevisão, Fernando Santos explicou que Portugal não jogou “para o empate” contra a seleção francesa — e reconheceu que não conseguiu dormir bem depois da derrota. “Dormir bem, não dormi, acho que eles também não. Azia acho que também tivemos todos mas transportar isso para o jogo não serve para nada, não é? O que temos de transportar é a capacidade de resposta destes jogadores e as equipas de alto nível ficam sempre insatisfeitas com um resultado negativo, com uma derrota principalmente, o que para nós é quase uma catástrofe. É importante este jogo para mostrar que não foi mais do que um acidente, que pode acontecer, faz parte, mas que nós não gostámos nada. Os jogadores estão focados e com uma grande determinação para o jogo com a Croácia. É uma equipa que ainda luta, que tem objetivos. Nós também temos um, que é servir a Seleção Nacional. Por isso há que dar uma resposta ao mais alto nível”, explicou o selecionador nacional, que deixou logo a ideia de que iria fazer algumas alterações ao onze inicial.

E fez cinco. Com Raphael Guerreiro lesionado e a certeza de que seria desde logo baixa anunciada, também saíram José Fonte, João Cancelo, William Carvalho e Bernardo Silva. Para os seus lugares, entraram Mário Rui, Rúben Semedo, Nélson Semedo, João Moutinho e Diogo Jota. Ou seja, em resumo e à exceção de José Fonte, Fernando Santos acabava por tirar os jogadores que no fim de semana estiveram abaixo do esperado — ou, ao invés disso, dava a titularidade àqueles que acabaram por ter algum impacto quando entraram. João Cancelo fez provavelmente a exibição mais apagada pela Seleção contra França; Raphael Guerreiro, ainda que a saída tenha sido motivada pela lesão, teve enormes dificuldades para parar Coman na ala esquerda da defesa portuguesa; João Moutinho entrou muito bem, apesar de William também ter estado em bom plano; e Bernardo quase não teve influência no jogo, deixando margem para imaginar aquilo que Jota poderia ter feito se tivesse jogado de início.

Portugal entrou no jogo um bocadinho à semelhança daquilo que tinha feito contra França, com um ritmo baixo e sem grande intensidade. Em oposição, a Croácia agarrou o controlo da partida nos instantes iniciais e teve mesmo a primeira aproximação à baliza, com um cruzamento a partir da direita que Rúben Semedo afastou pela linha de fundo antes de Perisic conseguir cabecear (3′). Foi o próprio central do Olympiacos que protagonizou o primeiro calafrio croata, ao falhar por pouco o desvio ao segundo poste depois de um lance confuso na grande área (13′), e a Seleção assentou nesse lance para começar a reagir.

A equipa de Fernando Santos juntou as linhas e compactou o grupo, passou a aplicar uma pressão mais eficaz e continuava a dar prioridade ao corredor esquerdo, tal como tinha acontecido contra a seleção francesa. Diogo Jota estava mais em jogo do que Bernardo tinha estado no sábado e ficou perto de empatar num lance em que Bruno Fernandes cruzou na esquerda, na sequência de uma jogada de insistência, mas não soube antecipar-se ao defesa croata (15′). Cristiano Ronaldo também falhou o desvio pouco depois, em posição central para a baliza (19′), e o desperdício português acabou por ter uma resposta amarga. Mesmo em cima da meia-hora, depois de um erro da Seleção na saída de bola, a Croácia atacou pela direita e apanhou a defesa portuguesa totalmente descompensada; cruzamento na direita, Rúben Semedo fez um corte deficiente e Pasalic aproveitou para assistir Kovacic, que ainda permitiu a defesa inicial de Rui Patrício mas acabou por conseguir marcar na recarga (29′).

Surpreendido por um golo numa altura em que estava por cima do jogo e a procurar cada vez mais abrir o marcador, Portugal precisou de tempo para voltar a concentrar-se e ia permitindo o aumentar da vantagem por parte dos croatas. Bruno Fernandes errou um passe, a Croácia voltou a apanhar a defesa portuguesa desprevenida e o resultado só não mudou porque Juranovic cabeceou ao lado (37′). Até ao fim da primeira parte, e depois de um remate de Danilo à figura de Livakovic (39′), a melhor oportunidade da Seleção apareceu mesmo à beira do intervalo, com João Félix a atirar para uma defesa fácil do guarda-redes croata na sequência de um passe vertical de Ronaldo (45′).

Ao intervalo, Portugal estava a perder apesar de ter mais bola e mais aproximações à baliza. Os erros defensivos voltavam a trair a Seleção, que precisava principalmente de eficácia na zona ofensiva e de pragmatismo na hora de construir — algo que estava a faltar a quase todos mas principalmente a Bruno Fernandes, que falhou vários passes de rotura e não estava a ter capacidade para recuar e recuperar na hora da transição defensiva.

No arranque da segunda parte, Fernando Santos acabou por confirmar a exibição menos conseguida do médio do Manchester United e tirou-o para colocar Trincão em campo. Portugal passou a atuar com apenas dois médios, João Félix mudou-se para o centro do ataque ao lado de Ronaldo e Trincão encostou na ala direita. A Seleção procurou assumir o controlo do jogo logo depois do intervalo, com Rúben Dias a ficar perto de empatar com um cabeceamento por cima na sequência de um livre (48′) — que não deixou de ser a premissa daquilo que acabaria por acontecer.

Instantes depois, Rog fez falta sobre Cristiano Ronaldo e viu o segundo cartão amarelo, sendo expulso e deixando a Croácia a jogar com menos um elemento com quase 40 minutos para disputar. Na conversão desse mesmo livre, o capitão da Seleção atirou direto e Livakovic defendeu para a frente; Rúben Semedo aproveitou e assistiu Rúben Dias, que quase na pequena área rematou para se estrear a marcar pela seleção portuguesa (52′). Portugal aproveitou o entusiasmo do golo e a superioridade numérica para chegar rapidamente à vantagem, graças a um golo de João Félix com assistência de Diogo Jota que até foi precedido por mão na bola do avançado do Liverpool (60′).

Nesta altura, parecia que Portugal tinha o jogo totalmente controlado e que da partida já só poderiam vir mais golos da Seleção. Até a equipa ser surpreendida por mais um golo de Kovacic, que aproveitou uma nova abordagem defensiva displicente. Transição rápida pela direita do ataque croata, Vlasic aproveitou a passividade de Rúben Semedo e fez um passe atrasado que descobriu o médio do Chelsea, totalmente solto, à entrada da grande área; Kovacic rematou forte e voltou a bater Rui Patrício (64′), empatando novamente a partida. Fernando Santos reagiu com as entradas de João Cancelo e Bernardo, para fazer sair Mário Rui e João Félix, mas a verdade é que Portugal sentiu animicamente o empate da Croácia e teve muitas dificuldades em voltar a chegar à área contrária.

Nesta altura, existia a ideia de que Portugal estava confortável quando estava a ganhar, completamente convencido de que o jogo estava conquistado e sem necessidade de acelerar muito os processos. A Croácia, porém, tinha empatado — mas a Seleção não estava a conseguir fazer grande coisa em relação a isso, novamente afastada, com os setores muito distantes, sem ligação entre a primeira zona de construção e o ataque e sem qualquer clarividência ou pragmatismo. Até ao fim, Bernardo e Brekalo ainda tiveram boas oportunidades para marcar, Sérgio Oliveira e Paulinho ainda entraram mas o golo decisivo estava adiado para o último minuto regulamentar.

Mesmo em cima do final da partida, Rúben Dias aproveitou um erro de Livakovic na sequência de um canto, antecipou-se aos defesas croatas e rematou para a baliza deserta, para bisar na partida e carimbar a vitória tirada a ferros da Seleção. Apesar do resultado, e graças à derrota da Suécia com França, a Croácia garantiu a manutenção na Liga A da Liga das Nações do próximo ano. Já Portugal, que pouco poderia tirar do jogo desta terça-feira, conseguiu voltar às vitórias mas não deixou de desperdiçar uma vantagem quando estava a jogar contra dez elementos e só mostrou superioridade a espaços. Numa equipa que se assemelha a uma barra de manteiga — pela fragilidade defensiva, pela passividade na pressão, pela desconcentração no ataque –, Rúben Dias foi mesmo um anti-derrapante.