Título: O homem do casaco vermelho
Autor: Julian Barnes
Editora: Quetzal
Páginas: 320
Preço: 18,80

A partir de personagens da Belle Époque, numa obra de fôlego, Julian Barnes mergulha nas raízes do chauvinismo britânico. Do autor inglês, encontramos o habitual, e que mesmo assim consegue  surpreender: uma elegância textual que nunca falha, uma atenção ao pormenor para lá de académica, uma fina ironia omnipresente, uma capacidade rara de roubar a graça às coisas. Barnes já não precisava de demonstrar nada, mas esta nova obra volta a prová-lo enquanto um dos mais inteligentes e sagazes autores da coetaneidade.

Em O homem do casaco vermelho, Barnes parte da chegada de três franceses a Londres em 1885: um príncipe, um conde e um plebeu. Este último era Samuel Pozzi, médico ginecologista pioneiro, livre-pensador e homem de beleza e elegância raras, então registadas numa tela de John Singer Sargent. Era esse o homem do casaco vermelho, e parte-se daqui para se explorar os tempos conturbados, e até violentos, da Belle Époque parisiense, também glamourosa e intelectualizada.

Barnes escreveu o livro durante o último ano antes da saída “deludida e masoquista” (p. 309) da Grã-Bretanha da União Europeia e este livro, altamente documentado, provido de um sentido de humor extraordinário, parece querer responder com factos e argumentos, com um background histórico sólido, à ignorância do chauvinismo. Barnes aponta o dedo a uma elite inglesa que se comporta como se a sua vontade e a realidade fossem sinónimos, ridiculariza o orgulho presunçoso de quem, apesar da indiferença em relação aos outros, procura a diferença em relação aos outros. No caso, até a insularidade do país funciona para marcar o passo, ao mesmo tempo que se afirmam características colectivas que marcam a singularidade e, em concomitância, a superioridade.

Aqui, o autor chega até a sublinhar a supremacia linguística e global do inglês como forma de relegar as outras línguas para segundo plano – menos globais, menos importantes, quase inúteis. Esta postura, claro, é a de quem despreza o outro e assume a sua condição de alteridade e ainda a própria condição de superioridade. Contudo, Barnes advoga que deixa quem se acantona na sua própria língua-materna numa posição de desigualdade face ao outro, já que perde a capacidade de o entender e analisar, enquanto o segundo estará provido desse poder. Esta supremacia ufana será, assim, mais um dos aspectos da ideia de superioridade chauvinista e, para além da questão da insularidade como forma de distinção do outro, verifica-se o auto-isolamento também na língua.

No livro, partindo de vários documentos, Barnes traça uma linha narrativa a partir da qual se observa, até de dentro, a troca de ideias entre Londres e Paris, e o próprio Canal de Mancha como berço da grandeza da Europa, ou de uma ideia de europeísmo que parte da crença na elegância, na sofisticação e na superioridade cultural.

Indo às raízes, Barnes recusa-se ao debate superficial dos nacionalismos da Europa. Pelo contrário, mostra a vida de um país de forma pluridimensional, mesclando hábitos, máscaras, ilusões. E fá-lo partindo de um lugar sério, em que, biografando Pozzi, não tem qualquer pudor em deixar claros os limites do trabalho biográfico. Não é que não seja obsessivo, porque o é, e não é que não seja detalhado, porque o é, mas a falha faz parte da vida e a ausência faz parte do outro. Por isso, por muito pormenorizado que um relato seja, há sempre conhecimentos impossíveis, e a biografia aparece como manta de retalhos que nunca cobre um corpo.

Assim, assume-se que a busca pelas raízes é apenas o encontro de parte das raízes, e para mais Barnes optou por fazer este relato partindo dos referidos três franceses em Londres, focando-se em Pozzi. O autor conta o que descobre, sublinha o que não sabe. A expressão “Não é possível saber”, “quando parcimoniosamente usada”, é “uma das mais fortes na linguagem do biógrafo” (p. 134), afirma. Assim, o que escreve “pode ser apenas uma versão pública de uma vida pública e uma versão parcial de uma vida privada”, uma vez que a biografia “é uma coleção de buracos atados com um fio” (p. 134).

O livro, cuja linha narrativa poderá, em certos pontos, parecer caótica, mostrará um fio atado entre dois países, reagindo à ignorância dos que apregoam a insularidade como forma de distinguir e marcar a superioridade. O passado, na sua forma caleidoscópica, virá então contrastar com o vazio da absorção no presente.