Quando se trata de amar, no palco ou na vida, nunca é uma perda de tempo, é uma das lições de “Romeu e Julieta”, que a companhia Filho do Meio estreia, quarta-feira, no Teatro do Bairro, em Lisboa.

“Quanto tempo temos para nos amar?” é outra das questões prementes desta peça, disse à agência Lusa o encenador Luís Moreira, acrescentando que o triunfo de William Shakespeare na altura em que escreveu esta tragédia foi dizer “que o amor adolescente era matéria de tragédia tal como a queda de reinados ou a morte de deuses.”

“Romeu e Julieta”, que a estrutura Filho do Meio apresenta no Teatro do Bairro, contará a conhecida histórias dos dois apaixonados, mas de uma forma diferente da que habitualmente chega aos palcos.

Assim, a história de “Romeu e Julieta” será contada ao contrário.

“Do fim para o princípio”, disse Luís Moreira, acrescentando que a inspiração surgiu após ler uma entrevista ao realizador Alfred Hitchcock em que lhe perguntaram quanto tempo achava que devia durar um beijo apaixonado no cinema e à qual ele respondeu: “20 a 25 minutos, mas primeiro punha uma bomba debaixo da cama”.

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“E essa inspiração deu-me para pegar no ‘Romeu e Julieta’ e fazê-lo de uma forma diferente, fazê-lo ao contrário, do fim para o início”, observou.

Porque a “bomba” de que Hitchcock falava “aqui é um tempo em contagem decrescente, do fim para o início”, acrescentou Luís Moreira, que também assina a dramaturgia.

A ideia de Luís Moreira era também “mudar” o fim do espetáculo, dando-lhe um “tom mais esperançoso”, necessário “sobretudo depois de uma pandemia”.

Na verdade, a história é a mesma: “Não mudámos nada na história; a única coisa que mudámos foi a cadeia de eventos”, disse o encenador, acrescentando que nesta peça a tragédia não é a morte de Romeu e Julieta, mas o “facto de se terem conhecido”.

“Uma coisa que eu não estava à espera e de que só me apercebi mais tarde nos ensaios, mas que não deixa de ser engraçada”, frisou o encenador.

“Romeu e Julieta” vai assim ser contada por “uma espécie de episódios” em que o voltar para trás no tempo “não é absolutamente linear”, precisou Luís Moreira.

São episódios que acontecem e depois há coreografias que marcam o retrocesso do tempo em que o próprio cenário muda consoante a história, como se cada personagem fosse uma peça de um puzzle ou de um relógio bastante complexo que influencia o fim, concluiu o encenador.

“E isto só podia ser feito com uma história muito conhecida”, disse Luís Moreira, responsável da Filho do Meio, companhia que desde 2016 se dedica à investigação e divulgação de obras de Shakespeare junto do público português.

Com tradução de Fernando Villas-Boas, “Romeu e Julieta” tem cenografia e figurinos de Maria Gonzaga, movimento de Joana Chandelier e desenho de luz de Rui Seabra.

A interpretar estão Ana Baptista, Frederico Coutinho, Joana Chandelier, José Redondo, Mónica Garcez, Nelson Sousa, Rita Brütt, Rodrigo Machado, Tiago Fernandes e Tomás Alves.

Apresentada no âmbito do programa Garantir Cultura, a peça estará em cena até 9 de janeiro, com récitas de segunda a sexta-feira, às 21h30, e aos sábados e domingos, às 18h00.