A cultura popular é feita de datas. E não há datas mais sumarentas que as redondas. Contas feitas ao passado, as criações de 1972 cumprem agora o seu 70.º aniversário. E se esse foi foi um grande ano para a música, por exemplo, também o foi no cinema. Estes oito filmes mostram-nos como e porque é que ainda estamos vidrados no grande ecrã, com eles e por causa deles:
“O Padrinho”
De Francis Ford Coppola
É uma daquelas obras que, depois de um primeiro visionamento, não nos deixa sair ilesos — e assim continua, de cada vez que o vemos. Quase todos conseguem citar um trecho de diálogo ou relembrar o olhar e a postura de Marlon Brando, como Vito Corleone, na sua poltrona. O realizador Francis Ford Coppola tinha apenas 29 anos quando, mesmo depois de não ser a primeira escolha para dirigir o filme, pôs em marcha a produção daquele que se tornaria num dos filmes mais icónicos da história do cinema mundial. Baseado na obra homónima de Mario Puzo, “O Padrinho” retrata a história da família Corleone e do crime organizado em Nova Iorque. A juntar a um elenco de luxo – com escolhas à época muito pouco consensuais – o filme recebeu a indicação de dez óscares da Academia e deu início uma trilogia, completa com a segunda parte lançada em 1974 e a terceira em 1990. É apontado como um dos melhores filmes de sempre sobre a máfia e não, não esqueceremos nunca o que significa a cabeça de um cavalo decapitada sobre uma cama.
“Aguirre, o Aventureiro”
De Werner Herzog
Pode ser interpretado como uma espécie de sonho ensurdecedor. Neste drama histórico, dirigido por Werner Herzog, voltamos ao tempo das expedições no chamado Novo Mundo, neste caso de conquistadores espanhóis enviados por Gonzalo Pizarro, governador de Quito, em busca de El Dorado, a lendária cidade de ouro, em 1541-1542. É nesse grupo que está Lope de Aguirre, um dos exploradores responsáveis, interpretado pelo alemão Klaus Kinski, que iniciava aí uma colaboração conturbada, mas bem-sucedida, com Herzog ao longo dos 15 anos seguintes. Numa visão assombrosa sobre a ambição desmedida dos conquistadores revela-se o lado de loucura e de violência, tal qual a ira que vemos no rosto de Aguirre. Entre mitos e lendas sobre a filmagem de “Aguirre, o Aventureiro”, fica a certeza de um clássico.
“Solaris”
De Andrei Tarkovski
É uma das obras-primas do realizador russo. Neste filme soviético de ficção científica abre-se a cortina emocional para outras produções deste género, o que, por certo, o imortaliza na história do cinema. Baseado no romance “Solaris”, do escritor polonês Stanisław Lem – que quase não permitiu a adaptação ao grande ecrã por divergências estéticas com o realizador – a ação do filme gira em torno de uma estação espacial que orbita o planeta fictício Solaris, onde uma missão científica foi paralisada porque a tripulação de três cientistas entrou em crise emocional. O psicólogo Kris Kelvin (Banionis) viaja até a estação para avaliar a situação, apenas para encontrar os mesmos fenómenos misteriosos que os restantes tripulantes. O filme conquistou o prémio especial do júri no Festival de Cannes em 1972 e a ficção científica no grande ecrã não foi a mesma a partir desse momento.
“A Promessa”
De António de Macedo
É o primeiro filme português oficialmente selecionado para o Festival de Cannes. Nesta obra de António de Macedo fala-se da castidade no seio da intimidade de um casal religioso. Partindo da adaptação da peça homónima do dramaturgo português Bernardo Santareno, “A Promessa” foi alvo de polémica e controversa por parte da Igreja Católica, ao ser a primeira obra portuguesa a mostrar dois corpos nus e a maneira perversa como evidenciava o fervor religioso. Cinquenta anos depois, pode dizer-se que permanece como tesouro escondido de um autor tantas vezes esquecido e desacreditado pela crítica da época, mas que foi o mais produtivo dos realizadores do chamado Cinema Novo, contando com filmes nos mais variados géneros: terror, policial, ficção científica e fantasia. O filme foi rodado em março de 1972 e em novembro desse ano foi apresentado ao público no Festival de Santarém. No ano seguinte esteve em Cannes e em 1974 teve estreia comercial em sala.
“What’s Up, Doc?”
De Peter Bogdanovich
Podíamos resumir aquele que é o quinto filme de Bogdanovich como um simples caso de bagagem trocada, mas é muito mais do que isso. Quatro malas idênticas, cada qual com o respetivo conteúdo (uns mais valiosos do que outros), com diferentes grupos de pessoas a tentarem apoderar-se da mala certa. O resultado? Uma comédia de balbúrdia e confusão, que mistura policial com mistério e absurdo. Foi um dos filmes impulsionadoras da carreira no cinema da cantora Barbra Streisand, que assume o papel feminino de destaque, além de funcionar como elemento de ignição para uma boa parte dos sarilhos que acontecem durante a ação. E o que dizer da perseguição de carros, cheia de gags clássicos, à la Buster Keaton, antes que toda a ordem se possa restabelecer perante o caos iminente? Basta ver para crer. É uma comédia que não envelhece, para o nosso próprio bem.
“Os Contos de Canterbury”
De Pier Paolo Pasolini
No ano de centenário do escritor e realizador Pier Paolo Pasolini, é significativo que um dos filmes mais marcantes da sua filmografia complete meio século. Baseado nos contos de Geoffrey Chaucer, escritos no século XIV, neste segundo filme da chamada Trilogia da Vida traz para o grande ecrã uma obra complexa, escatológica e sexualmente explícita, chocando pela forma libertária e física de refletir a natureza humana. O realizador italiano, autor de diversos filmes polémicos e controversos, que viria a ser brutalmente assassinado três anos depois, retrata a condição humana a partir de uma série de pequenas histórias satíricas que representam a sociedade, aproveitando o cenário da Idade Média para revelar o ser humano naquilo que tem de mais físico e imediato. Chocante ou não, trouxe a Pasolini o Urso de Ouro do Festival de Berlim.
“Último Tango em Paris”
De Bernardo Bertolucci
Há filmes que, por mais 50 anos que passem, não deixarão de ser polémicos. Em 1972 talvez ninguém calculasse o quão controverso se tornaria falar do filme de Bernardo Bertolucci, protagonizado por Marlon Brando e pela então desconhecida Maria Schneider décadas depois. Das fantasias eróticas do realizador italiano, até à trilha sonora do compositor e arranjador argentino Gato Barbieri, os elementos estavam enquadrados com aquilo que se pode esperar de uma obra-prima cinematográfica. A controvérsia associada ao contexto sexual do filme, bem como as acusações de humilhação sexual de Schneider contra Brando e Bertolucci, em consequência de uma cena de penetração, onde ‘Paul’ sodomiza ‘Jeannie’ usando manteiga como lubrificante, colocaram-lhe o epíteto de obsceno. E assim viverá nas décadas que se seguirem, mesmo convivendo com a adoração da crítica especializada.
“Tudo Vai Bem”
De Jean-Luc Godard
Na semana da morte de Jean-Luc Godard, o astro da chamada Nouvelle Vague, invocar este filme é também o invocar de uma carreira cinematográfica composta de diferentes momentos e inspirações estéticas. O filme pode ser visto como o prenúncio de uma transição. Juntamente com o seguinte, “Letter to Jane” (1972), “Tudo Vai Bem” marca o fim do grupo Dziga Vertov e a dissolução da parceria entre Godard e Jean Pierre-Gorin, que abrirá espaço a uma nova fase menos politizada e mais subjetiva. A narrativa do filme desenvolve-se em torno de uma fábrica de produtos alimentícios em greve. Os operários sequestram o patrão e uma jornalista norte-americana, Susan De Witt (interpretada por Jane Fonda) e seu marido, cineasta ex-integrante da Nouvelle Vague que agora se dedica a filmes publicitários (interpretado por Yves Montand), são aprisionados junto com o diretor da fábrica. É um filme político, marcado pela luta de classes, encenada de forma irónica e mordaz, que sela o fim da utopia vivida numa época de grande efervescência social.