No primeiro episódio da segunda temporada de “The White Lotus”, Portia (Haley Lu Richardson), a nova assistente de Tanya (Jennifer Coolidge), é subitamente descartada porque o marido de Tanya, Greg (Jon Gries), diz-lhe que tinham combinado ter férias. E em férias não é preciso uma assistente. Tanya diz que Portia “tem de ir”, tem de desaparecer da vista dela, mas que se mantenha no hotel para o caso de alguma necessidade. A apresentação de Portia é a de uma pessoa altamente descartável – “que trabalho horrível”, pensa-se de imediato – e Mike White, o criador de “The White Lotus”, faz o trabalho exemplar em mostrá-la como uma criança. Nesse mesmo episódio apanha-se uma conversa de Portia ao telefone. Percebe-se que ela não está num bom lugar — e essa conversa potencia ainda mais a ideia de infantilidade.
No fim do quinto episódio – antes da estreia, a imprensa teve acesso a cinco episódios -, é difícil encontrar essa Portia na Portia que, entretanto cresceu. Só se passaram uns dias. Magia? Não. Ou melhor, talvez. Essa é a magia, a arte de Mike White na criação do universo de “The White Lotus”. Numa série de entrevistas via Zoom, Haley Lu Richardson reconhece esse lugar na sua personagem: “Ela não consegue ver algo de bom, porque ela está ali e mete as culpas na Tanya, que parece a pior patroa do mundo. É o tipo de pessoas que não queres seja a tua chefe. Mas, claro, penso que há um tipo de pessoa que adoraria ser a assistente da Tanya e que adoraria ter aquelas regalias: ir à Sicília e tirar algum proveito daquilo. Estar presente, feliz… o que for. Mas a Portia não está nesse local. Ela precisa de arrumar a casa, encontrar algo que a realize.”
Portia não domina assim tanto a segunda temporada de “The White Lotus”, que se estreia dia 31 de outubro na HBO Max, mas a personagem é um grande exemplo do que a série tem de melhor: oferecer estereótipos e tranformá-los em algo gigantesco através de subtilezas que aprendemos a admirar ao longo dos episódios. “O Mike tem uma ideia forte sobre quem são estas personagens. É muito observador e é ótimo a realçar detalhes que não estão a vista das personagens”, completa Haley.
[o trailer da segunda temporada de “The White Lotus”:]
Esta temporada decorre na Sicília, noutro resort que pertence ao grupo “The White Lotus” (na primeira temporada tudo acontecia no Havai). Há semelhanças, há diferenças. Há regressos e há uma grande parte do elenco que é nova. Tanya e Greg são o casal que regressa. Depois de se conhecerem na primeira temporada, casaram, e estão em Itália para passar umas férias. Em todos os momentos há uma sensação agridoce e Tanya continua a carregar um peso descomunal nos ombros. É uma tristeza sem palavras. Mas já lá vamos.
Grande parte do elenco é novo e obedece, de certa forma, a regras que já existiam na primeira temporada: casais, famílias em férias. O que é compreensível: afinal, tudo se passa num resort. E quase toda a gente é muito rica. O pessoal do hotel tem menos presença do que na temporada anterior, mas os locais continuam a fazer parte do imaginário por cumprir numa situação de férias. Contudo, há um grupo de personagens que se destaca: Harper (Aubrey Plaza) e Ethan (Will Sharpe). Não estão ali porque querem, mas porque foram convidados por outro casal, Cameron (Theo James) e Daphne (Meghaan Fahy) a irem passar férias com eles.
Ethan e Cameron foram colegas de faculdade, embora nunca se tenham dado depois disso. Ethan acabou de vender a sua empresa por milhões e Cameron – um investidor – resolveu convidá-lo para passarem férias. Os casais são como água e azeite. Mas têm de passar sete dias juntos. Desde o início está implícito que haverá desconforto, mas os quatro atores conseguem criar uma familiaridade nesse desconforto: não se tornam insuportáveis, pelo contrário, torna-se complicadíssimo, após alguns episódios, escolher um favorito. Aliás, escolher o menos contagioso dos quatro. Parte dessa empatia nasce porque os atores estão todos juntos durante as filmagens. Aubrey Plaza coloca-o da melhor forma: “Pareceu uma colónia de férias para adultos”. É retirar as devidas conclusões.
▲ Mike White criou uma fórmula de sucesso e voltou a acertar no elenco, no local. O próximo destino, dizem os rumores, será o Japão
DR
Gente extremamente rica a passar férias. Já sabemos, pela primeira temporada, que parte do fascínio de “The White Lotus” é ver o privilégio numa espécie de habitat, de como ele lida consigo próprio, colide e interage com os de fora (o melhor exemplo é o casal em lua-de-mel na primeira temporada). Nenhuma personagem incorpora melhor isso do que Tanya, brilhantemente interpretada por Jennifer Coolidge: “Ela é a prova de que o dinheiro não pode comprar felicidade. Eu acredito nisso… não tenho o tipo de dinheiro que ela tem. O meu pai uma vez disse-me: ‘Jenny, é bom se não fores pobre, porque isso seria inconveniente, terás uma vida mesmo difícil, porque quero que sejas capaz de tomar conta de ti. Mas lembra-te de que o dinheiro não corrige os problemas.’ Penso que ele estava certo, o dinheiro só faz uma coisa, que é isolar-te do mundo, daquilo que realmente está a acontecer. Não estou a generalizar as pessoas ricas, mas quando és mesmo rico, sentes que não precisas de dar tudo, a cada dia. É como se já tivesse chegado, como se já tivesses vivido o sucesso. E muita gente rica não é generosa. Muitas vezes saio de um táxi e dou uma gorjeta de 20 dólares, o taxista olha para mim e fica surpreendido, nunca recebeu uma gorjeta tão grande. E eu penso: há muita gente a entrar dentro de um táxi, muitas delas são ricas, e nunca ninguém lhes deu esse tipo de gorjeta?”
O dinheiro, de facto, parece não corrigir Tanya. Contudo, ela serve de farol para tudo o resto que se passa em “The White Lotus”. Foi uma surpresa na primeira temporada, nesta segunda é um porto seguro sobre o que esperar. Personagens muitíssimo bem construídas, num tipo de comédia que é cada vez mais raro na televisão: sem compromisso, sem correrias e à espera que seja o espectador a compreender e não a série a explicar. Mike White criou uma fórmula de sucesso e voltou a acertar no elenco, no local. O próximo destino, dizem os rumores, será o Japão.