A história podia espremer-se e ser um romance de literatura ligeira acerca de uma mulher que muda de país, começa um trabalho novo, conhece um homem, passam a sair juntos, ele desaparece e há depois um final feliz. Estão lá as incertezas associadas ao cliché do comportamento feminino, estão lá os pequenos apontamentos de moral e preceitos de bom gosto, mas a verdade é que existe depois uma capacidade de observação e um nível de intimidade, da narradora para consigo própria e para com o leitor, que faz com que este livro acabe por subverter essa aparente frugalidade. Intimidades (Quetzal), da norte-americana Katie Kitamura, perverte géneros – cor-de-rosa, policial – e mantém-nos agarrados à história. Lemos o livro de uma assentada.

A narradora é uma mulher não nominada, que passou a vida a mudar de cidade com os progenitores e, agora, depois da morte do pai, decide deixar Nova Iorque. Candidata-se a um lugar de intérprete no Tribunal Internacional de Crimes de Guerra e muda-se para Haia. Esta narradora replica características da narradora do livro anterior da autora, como se esta fosse uma nova possibilidade de vida da personagem da história anterior. Em A Separation, a narradora, igualmente sem nome, é uma tradutora de livros a quem o pai também faleceu.

Em Intimidades, a narradora conhece um homem na inauguração de uma exposição num museu dirigido por uma amiga dela de longa data, com quem retomou os laços agora em Haia. Ele chama-se Adriaan, os dois envolvem-se. Esta é uma narradora sempre muito púdica em relação aos sentimentos mais viscerais, mas é precisamente porque não partilha a sua libido connosco – a relação deles é como se fosse uma casa, toda branca, intacta, higiénica, impecavelmente decorada – que nos permite ver o que de mais simples e elementar há no que sente. É um acto de depuração. Como diz a dada altura no livro, há uma diferença entre a simplicidade e a aparência de simplicidade. Kitamura consegue a proeza de sobrepor as duas camadas numa só, fazer a narradora ganhar corpo – intelectual, emocional.


Título: “Intimidades”
Autora: Katie Kitamura
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Quetzal
Páginas: 200

A higiene das suas inseguranças vai ao encontro não só do seu contexto cultural (a mãe é asiática, de Singapura) como da cidade em que agora se encontra, dos Países Baixos. Principalmente na figura de Adriaan, o seu namorado holandês. Bem-parecido, rico e muito seguro de si, vive numa casa, herdada dos pais, que de tão grande foi dividida em dois. Para sua surpresa, vem a saber que Adriaan é casado e tem dois filhos. A mulher fez uma viagem a Lisboa – é também por aqui que vemos na moda em que Lisboa se tornou – e por lá se deixou ficar.

A dada altura, Adriaan diz que tem de ausentar-se, precisa de ir à capital portuguesa-que-aparece-em-todos-os-guias-de-destinos-turísticos-não-só-para-visitar-mas-para-viver, de modo a pôr um fim, esclarecido, à sua situação com a mulher. Fala-lhe em estar fora uma semana, talvez duas, mas as semanas passam a meses.

Durante todo esse tempo, e enquanto conjetura acerca das mensagens não recebidas, dos telefonemas não efetuados, do seu papel no meio daquilo tudo, abre espaço para tentar perceber um mistério relativo a um livreiro alfarrabista de renome que é assaltado e gravemente ferido, ao ponto de ficar algum tempo internado no hospital. Conhece a irmã dele num outro evento no museu e o seu fascínio por aquele homem vai aumentando, ao mesmo tempo que a vai intimidando. E, aqui, fascínio significa atração pela complexidade moral daquele homem, e não uma atração no sentido da fisicalidade, da sensualidade.

A outra faceta da vida desta narradora que, mais do que lhe ocupar igualmente a cabeça perante o silêncio do namorado, serve de barómetro à sua própria condição de deslocada, à sua sensação de não pertença a lado algum, é o seu trabalho. O Tribunal de Haia é também ele uma instituição que força ao deslocamento. Pessoas acusadas de crimes de guerra são forçadas àquele lugar de passagem, àquele interregno, e sujeitar-se a sentenças às quais não reconhecem autoridade. Esta é a parte verdadeiramente apaixonante deste livro: as camadas de comunicação entre o acusado e o seu interlocutor, entre o suposto criminoso e o seu intérprete. Toda a filigrama de sensibilidades implícitas a cada gesto, comportamento, palavra, quer de um quer de outro, ajuda-nos a perceber a essência humana no que ela tem de mais recôndito.

Há uma altura, e este caso é seminal para ela e para o emprego, em que a narradora tem de servir de intérprete a um antigo presidente de um país africano, acusado de cometer as maiores atrocidades contra o povo. Ele percebe o francês que os seus advogados de topo falam, mas exige uma intérprete, que fale um francês correto. As nuances dos jogos que ele enceta para com ela, em manifestações claras de poder e manipulação, revela-nos a sua raiz. Revela-nos a razão de ser daquele homem, que chegou onde chegou porque sabe que vai sempre continuar a poder chegar onde quiser chegar.