Bem sei que o Natal, no Brasil, acontece no verão e nem por isso fazem presépios rodeados de palmeiras nem põem o Pai Natal a descer por um escorrega de água em vez de uma chaminé. Bem sei que o tempo é relativo ao espaço e que cada lugar do mundo vive cada época à sua maneira e que nenhuma está mais certa do que outra. Mas o Mundial do Qatar acaba de substituir, oficialmente, o Carnaval de Ovar na lista de anacronismos difíceis de engolir.

Sim, pior do que desfilar seminu debaixo da chuva de fevereiro com ar sensual, é tentar acompanhar um Mundial de futebol em pleno horário de expediente, entalado entre as gripes do Outono e as compras de Natal. Isto enquanto os jogadores que, ainda há uma semana, trabalhavam ao serviço dos seus clubes, tiveram de deixar as competições a meio para irem jogar num país com menos habitantes do que a Grande Lisboa (talvez até menos do que a pista do Jamaica, sexta passada) e que parece ter montado um Mundial da mesma maneira que a FIL monta a feira do artesanato – aquilo amanhã já pode ser outra coisa qualquer.

E como se não bastasse, para quem ainda vacilasse sobre se deveria tentar acompanhar os jogos sob risco de despedimento, numa competição obviamente submetida a interesses que nada têm a ver com o jogo, veio o Presidente da República tirar-nos as dúvidas e apelar a que nos concentrássemos no que importa, a bola, e esquecêssemos as questões dos direitos humanos, da falta de condições de trabalho dos operários, de vida das mulheres e comunidade LGBT, falta de transparência do regime qatari e da própria FIFA.

[o trailer de “FIFA: Futebol, Dinheiro e Poder”:]

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