“Eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa”, afirmou na quinta-feira Benjamim Pereira, questionado pelos jornalistas sobre as manifestações pela habitação que têm ocorrido em Lisboa e no Porto. Embora o presidente do IHRU tenha sublinhado que estava a fazer “um apelo”, e não “uma crítica”, as declarações foram consideradas “absolutamente infelizes” por Miguel Pinto Luz, ministro que foi quem o nomeou para a liderança deste organismo público, em setembro de 2024.

A razão principal para que o Governo já tenha, confirmou o ministro, pedido explicações ao IHRU, é pelo facto de Benjamim Pereira ter recordado que os seus próprios avós e pais emigraram “para poderem ter uma casa”. Perante as questões dos jornalistas sobre se estava a defender que os jovens também deviam emigrar, afirmou que não estava “a dizer isso”.

“É preciso que haja um compromisso de todos“, continuou. “Reparem, os jovens podem organizar-se, fazer cooperativas. Eu já recebi pessoas no IHRU que agora, com os seus 60 e 70 anos, que quando eram da idade dos jovens que agora se estão a manifestar organizaram-se, fizeram cooperativas e fizeram as suas próprias casas”, afirmou.

Apesar das explicações dadas por Benjamim Pereira, Pinto Luz – e, também, a secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa – apressaram-se a afastar-se, publicamente, das declarações. “Este Governo está a fazer exatamente o contrário. O que nós queremos é que os jovens fiquem em Portugal”, salientou Miguel Pinto Luz.

Ainda assim, o ministro da tutela não quis retirar a confiança política, “em direto” na televisão, ao responsável que ele próprio nomeou para liderar o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), um organismo central na execução das políticas públicas de habitação em Portugal, que tem influência em matérias como a habitação pública, a reabilitação urbana, a gestão do património habitacional do Estado e a execução de programas de apoio à habitação.

“Aceito não ter sido feliz em todas as expressões que utilizei”, diz presidente do IHRU após polémica

Já nesta manhã de sexta-feira, em comunicado do IHRU, Benjamim Pereira fez um novo esclarecimento público. “Embora sem qualquer intenção, aceito não ter sido feliz em todas as expressões que utilizei, mas acredito no que estou a fazer, acredito no caminho delineado pela tutela e dou todos os dias o meu melhor, colocando ao serviço dos portugueses a minha experiência profissional e política adquirida ao longo de anos de trabalho e de serviço público”, afirmou.

Poucas horas depois, ao início da tarde desta sexta-feira, Miguel Pinto Luz confirmou que tinha pedido esclarecimentos ao presidente do IHRU e considerou, à luz do comunicado emitido pelo presidente do IHRU, que este “se retratou”.

“Mais importante do que tudo, pediu desculpa aos jovens e a estas gerações e contextualizou as suas declarações. Do meu ponto de vista, foi necessária e suficiente esta apresentação de contextualização das suas afirmações”, acrescentou, concluindo que estão reunidas as condições para o IHRU continuar o trabalho em curso, rematou o ministro.

Uma carreira que começou nas empresas mas rapidamente seguiu pelo poder autárquico

Foi por considerar que Benjamim Pereira tinha a “idoneidade, experiência e competências profissionais” para o cargo que o Conselho de Ministros de 13 de setembro de 2024 o nomeou para presidente do IHRU, substituindo toda a direção que era liderada por António Gil Leitão, que tinha sido nomeado pelos governos de António Costa e que trabalhava diretamente sob a tutela de Marina Gonçalves, então ministra da Habitação.

António Gil Leitão tinha sido nomeado em junho de 2023 e tinha um mandato previsto de cinco anos, mas o exercício de funções foi interrompido precocemente “por mera conveniência”, determinou o Governo de Luís Montenegro na resolução do Conselho de Ministros que nomeou para o cargo este arquiteto que era, sobretudo, conhecido por ter sido presidente da câmara de Esposende ao longo de 11 anos (eleito pelo PSD).

Com um bacharelato em engenharia civil concluído em 2001 no Instituto Superior de Engenharia do Porto, começou por trabalhar no setor privado, exerceu funções técnicas em empresas ligadas a investimentos imobiliários, engenharia, arquitetura e avaliação imobiliária, incluindo numa empresa da qual era sócio-gerente que era a ABenjamimPereira, Unipessoal, Lda.

Porém, como indica a nota biográfica anexa à sua nomeação, a partir de 2005 começou a aproximação ao setor público, ao mesmo tempo que fazia uma licenciatura em Arquitetura e Urbanismo na Escola Superior Gallaecia, em Vila Nova de Cerveira (que terminou em 2006). Em novembro de 2005 tornou-se secretário da Junta de Freguesia de Forjães, no concelho de Esposende e, dois anos depois, em setembro de 2007, passou a presidente dessa mesma junta de freguesia.

Passou dois anos nessas funções, até que nas eleições autárquicas de outubro de 2009 foi escolhido para vice-presidente da câmara municipal de Esposende, na altura trabalhando com o presidente da câmara, João Cepa, que nessa altura foi reeleito (pelo PSD) para continuar na liderança desse município. Nas eleições autárquicas seguintes, em 2013, Benjamim Pereira seria eleito presidente daquela câmara municipal que viria a liderar até setembro de 2024, ou seja, praticamente 11 anos.

Pelo meio, segundo a nota biográfica, foi em 2018 “admitido no Programa Doutoral em Arquitetura, área de Especialidade ‘Construção e Tecnologia’ com o projeto de tese: ‘Construção contemporânea em taipa no Norte Litoral de Portugal, análise arquitetónica, estrutural e funcional'”, pela Universidade do Minho – ou seja, terá iniciado um doutoramento mas ele ainda não foi concluído.

Por outro lado, o seu percurso nesses anos foi, também, associado a funções em organismos e estruturas regionais, incluindo a Agência de Energia do Cávado, a Comunidade Intermunicipal do Cávado e a administração da Águas do Norte.

As ligações a Montenegro e a polémica com Inês de Medeiros

Quando foi conhecido o seu nome para o IHRU, estava a cumprir o último dos três mandatos possíveis como presidente. “Perante o convite, como é que um simples cidadão, presidente da câmara, poderia dizer que não a um convite desta natureza?”, afirmou Benjamim Pereira, que tinha sido proposto a 13 de agosto (de 2024) à CReSAP para presidente do IHRU.

Como revelou o jornal Eco, em fevereiro de 2025, Benjamim Pereira tinha sido, durante mais de uma década, presidente da assembleia-geral da Zendensino, uma cooperativa de ensino de interesse público em que a autarquia é a maior acionista e detém poder de nomeação do presidente do conselho de administração.

Esta cooperativa de ensino, dependente de fundos públicos, assinou dois contratos de prestação de serviços jurídicos com a Sousa Pinheiro & Montenegro, Sociedade de Advogados, da qual o atual primeiro-ministro se desfez da quota de 50% em 2022, quando chegou à liderança do PSD. Os dois contratos por ajuste direto datam de novembro de 2018 e de janeiro de 2020, revelou o Eco.

Em março deste ano, nas redes sociais, Benjamim Pereira criticou Pedro Passos Coelho, de quem foi “um admirador e apoiante”, por estar agora a ser “injusto” com Luís Montenegro, mantendo-se como uma “sombra” que está “ao serviço da demagogia e populismo do Chega”. “Em contraponto, Luís Montenegro é um lutador, um verdadeiro líder, um homem que quer verdadeiramente um Portugal melhor, uma vida melhor para todos”, elogiou.

Pouco antes, no final de 2025, Benjamim Pereira envolveu-se numa acesa troca de acusações num debate televisivo, no canal NOW, em que esteve frente a frente com Inês de Medeiros, autarca de Almada.

Durante o debate, Benjamim Pereira apontou responsabilidades à câmara municipal de Almada na questão dos bairros ilegais naquele concelho, acusando a autarquia de não ter reagido “atempadamente” quando essas construções começaram a surgir. Segundo o presidente do IHRU, a falta de intervenção e de fiscalização municipal terá permitido o agravamento progressivo do problema, contribuindo para a dimensão que a situação assume atualmente.

Também nessa altura, o presidente do IHRU procurou ainda clarificar o papel do instituto no acesso à habitação, recusando a ideia de uma obrigação automática de realojamento. “O IHRU não dá casas a ninguém, arrenda-as de acordo com os rendimentos dos agregados familiares”, afirmou, defendendo que a resposta pública deve cumprir critérios e regras de atribuição, e não funcionar como uma entrega direta de habitações.

“Não é verdade que se estejam a fazer maus negócios para o Estado” com a venda de património, diz presidente do IHRU

Depois das declarações desta quinta-feira, em Vila Nova de Gaia, Benjamim Pereira levou a que o deputado único do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, pedisse a demissão do responsável e, também, a sua audição urgente no parlamento. Também um deputado do PS, Luís Testa, considerou “intolerável” que o presidente do IHRU tenha feito tais declarações “jocosas”.

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]