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"Porquinha": um filme de terror em que "a coisa mais horrível é o que as pessoas normais fazem umas às outras"

Este artigo tem mais de 3 anos

Entre bullying e silêncio, este é mais um filme que revela um cinema espanhol desafiador e cativante. Estreia-se esta semana (em duas salas e no FilmIn) e falámos com a realizadora, Carlota Pereda.

"Demorei dois anos a encontrar a Laura Galan [protagonista] para a curta. Fiz de tudo. Fui a todas as escolas de cinema, de teatro, falei com diretores de casting… até abordei pessoas na rua, que provavelmente pensaram que eu era louca", diz-nos a realizadora
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▲"Demorei dois anos a encontrar a Laura Galan [protagonista] para a curta. Fiz de tudo. Fui a todas as escolas de cinema, de teatro, falei com diretores de casting… até abordei pessoas na rua, que provavelmente pensaram que eu era louca", diz-nos a realizadora

▲"Demorei dois anos a encontrar a Laura Galan [protagonista] para a curta. Fiz de tudo. Fui a todas as escolas de cinema, de teatro, falei com diretores de casting… até abordei pessoas na rua, que provavelmente pensaram que eu era louca", diz-nos a realizadora

Sara tem uma vida difícil. Adolescente e obesa, vive numa vila em Espanha onde os pais são donos de um dos talhos locais e vivem mesmo por cima do estabelecimento. Daí até os outros adolescentes da escola e da vila a chamarem de “porquinha” vai um instante. Sara isola-se como pode: ouve música para não ouvir o que se passa à volta; tenta, mas não consegue, evitar saber o que dizem no Instagram sobre ela. Para contornar julgamentos, vai à piscina local quando não está lá ninguém. É uma forma de se proteger.

Num desses dias, um grupo de raparigas – onde se inclui uma amiga, dela e da família, que decide participar – tenta afogá-la e roubam-lhe a roupa. Filmam tudo. O percurso para casa é de vergonha, sente-se a dor de Sara. De tal forma que, quando acontece o que se passa a seguir, ficamos do lado dela: ao ir pela floresta, para evitar a estrada – até os carros que passam gozam com ela –, percebe que as “amigas” foram raptadas e enfiadas numa carrinha. Entre o medo, pânico e choque, Sara decide não fazer nada.

Há um assassino à solta na vila. Não se sabe quais as motivações do criminoso, mas sabe-se uma coisa: ele não tem intenções de magoar Sara, bem pelo contrário. Quer protegê-la. Apesar dos crimes violentos e do sangue, em “Porquinha” só se pensa em Sara, em como está sozinha, ninguém a percebe e é uma vítima permanente. Até em casa. É por isso que o segredo dela – a identidade do assassino – é também o do espectador, pactua com isso. Há outra forma?

“Porquinha” é a primeira longa-metragem da espanhola Carlota Pereda. Na verdade, começou como curta, mas a realizadora sentiu que muito ficou por dizer sobre a personagem, acima de tudo tinha ficado por explorar dimensões relativas à questão moral abordada no filme. Pereda tem anos de experiência na televisão espanhola e isso sente-se na maturidade de “Porquinha”: tem a liberdade de um primeiro filme, mas não comete as evetuais falhas previsíveis de um primeiro filme. Elogiado por onde passa, chega finalmente às salas portugueses, numa estreia em sala no Cinema Fernando Lopes em Lisboa, na Casa do Cinema em Coimbra e, em simultâneo, na plataforma de streaming Filmin. Dia 20, há uma sessão especial no Fernando Lopes, com a presença da realizadora via Zoom, às 21h00. E foi por Zoom que falámos com ela.

[o trailer de “Porquinha”:]

O momento no filme em que Sara percebe que as raparigas da vila foram raptadas e podem ser mortas chamou-me a atenção. A protagonista, que tinha acabado de ser gozada por elas, mostra uma expressão de medo, parece não saber bem o que fazer e depois tem uma expressão que parece querer dizer “bom, elas merecem”. Estou a entender isto bem?
Queria mostrar a ambiguidade moral de certos momentos, por vezes podemos sentir algo bom a partir de algo terrível. Existe esta coisa na sociedade que nos diz que quando fazemos algo de mau, temos de fazer algo de bom. É uma forma estranha de encara o papel de vítima: se algo de horrível nos acontecer, temos de ser bravos e estoicos sobre isso. Para mim, isso não são emoções humanas.

Antes de ser uma longa-metragem, “Porquinha” foi uma curta-metragem. O que a levou a voltar à história?
Apaixonei-me pela protagonista. Havia tanto para dizer sobre a Sara que tinha ficado por dizer na curta-metragem. Além disso, a curta termina com um conflito moral e que queria fazer um thriller moral sobre alguém que decide fazer absolutamente nada sobre um determinado dilema.

Na curta também há o assassino?
Sim, termina naquele momento sobre o qual falámos há pouco, do encontro com o rapto.

Gosta de filmes de género?
Adoro, dão-nos uma oportunidade para explorar temas complexos de uma forma divertida, sem ser necessariamente muito frontal. Não só em termos de tema, mas em relação ao tom e à forma. O drama convencional, por vezes, é muito direto. Gosto também de me divertir enquanto realizadora, porque quero que o público se divirta quando vê os meus filmes.

Como decidiu ter um assassino sem nome, do qual pouco se sabe? Porquê essa escolha?
O filme acontece do ponto de vista da Sara, por isso só sabemos o que ela sabe. O que é muito pouco. E nos filmes slasher [histórias que habituyalmente envolvem psicopatas assassinos, com várias vítimas e quase sempre por motivo aleatório, produções feitas com orçamentos baixos] raramente sabemos algo sobre o assassino, porque o ponto de vista é o da vítima, ou das vítimas. Sobretudo quando estão quase a ser mortas. O meu desejo era que o filme falasse com a audiência, cabe à audiência decidir quem é, e o que é, o assassino.

▲ "Na televisão aprendi a fazer muita coisa ao mesmo tempo. E a não estar com medo durante as gravações. E que o mais importante é a história, o que nos motiva a fazer o filme é o que ele tem de mais importante"

Falou em slashers, mas há aqui um twist. A atenção do espectador está no bullying que Sara sofre e menos em mortes, em vítimas.
Quando estava no processo de tentar convencer os produtores, dizia sempre que este filme era um coming of age na forma de thriller. Para mim, o que é mais interessante é o que ela é e naquilo em que se torna. Queria fazer um filme de terror em que a coisa mais horrível é o que as pessoas normais fazem umas às outras.

Daí o foco no cyberbullying. Alguma vez se sentiu alividade por não ser adolescente hoje?
Um bocado, especialmente porque se tivesse tido instagram nos meus 20s, teria postado muita coisa de que hoje não me orgulhava.

O cyberbullying é um problema grave em Espanha?
Muito, já não existem lugares seguros. Quando éramos miúdos, pelo menos poderíamos ir para casa e havia esse lugar, o nosso quarto. Agora não, está em todo o lado. E podemos ter pessoas a fazer bullying sem que isso se saiba, por vezes a alimentar-se de uma espécie estranha de legitimação, de combustível, que é dado através dos likes e de como tudo se espalha nas redes sociais. No ano passado, um estudo dizia que pelo menos 43% dos adolescentes eram vítimas de bullying. É demasiado. E esse é o número das pessoas que se queixaram, devem existir muitas que estão caladas.

Como encontrou a Laura Galán, a protagonista?
Demorei dois anos a encontrá-la para a curta. Fiz de tudo. Fui a todas as escolas de cinema, de teatro, falei com diretores de casting… até abordei pessoas na rua, que provavelmente pensaram que eu era louca. Um dia vi-a numa peça, mas parecia-me mais velha do que era. Mas havia qualquer coisa nela… Não sei, os atores de teatro têm esta forma incrível de se expressarem fisicamente. E eu queria alguém que conseguisse dizer muito sem dizer nada. Falei com o agente dela, ele convenceu-me e marquei uma reunião com ela. Pedi-lhe para fazer o olhar no final da curta e aí percebi que ela entendeu a personagem.

Ela sentiu-se confortável na personagem?
Os atores gostam de coisas difíceis. Ela foi maravilhosa. Eu e ela ficámos boas amigas e toda a gente a adorou. Foi difícil largar a personagem. É difícil deixar alguém que amamos.

Ficou surpreendida com a reação ao filme?
Sim, mesmo a curta teve muito sucesso, no mundo inteiro. Em Espanha ganhou um Goya [prémios do cinema espanhol, este entregue para distinguir a Melhor Curta Metragem]. Também comecei a receber muitos emails e mensagens de várias pessoas anónimas.

▲ A realizadora espanhola Carlota Pereda (à direita durante a rodagem, com a atriz Laura Galan)

E reações de adolescentes, teve?
Também. Mas de toda a gente. Partilhavam experiências das suas vidas, como pessoas que sofreram bullying. Mas também tivemos feedback de bullies. É uma boa sensação quando fazemos um filme que deixa as pessoas a pensar.

Que género de mensagens recebeu?
De pessoas que se sentiram representadas ao ver o filme. Que às vezes é possível ficar de tal maneira em choque que não se consegue dizer nada. Muitas pessoas identificaram-se com isso, com a Laura e também com a Claudia [interpretada por Irene Ferreiro], a amiga dela que fica calada. Outras pessoas até se identificam com a mãe… aperceberam-se que eram a mãe.

Os pais da Laura fazem tanto mal sem se aperceberem…
Exato. E os atores perceberam as personagens. Escrevi-as com base na minha experiência, não como filha, mas por ver muitas dessas situações à minha volta. É uma forma de lidar com os miúdos, acontece muito em Espanha, não só nas vilas, mas até nas grandes cidades. Os atores sabiam exatamente o que eu estava a dizer, a mensagem que estava a tentar transmitir, toda a gente conhece gente na vida real que é assim.

Começou a carreira de realizadora na televisão. Porque começou tão tarde a fazer filmes?
Sempre quis fazer os meus próprios programas, os meus filmes, mas nunca tive oportunidade. Foi por isso que comecei a fazer curtas-metragens, porque se tivesse que esperar pelo apoio dos outros bem podia esperar para sempre. Felizmente, a minha primeira curta foi um sucesso e depois fiz “Porquinha”, a versão curta-metragem. A partir daí comecei a receber mais entusiasmo dos produtores.

O que aprendeu na televisão?
A fazer muita coisa ao mesmo tempo. E a não estar com medo durante as gravações. E que o mais importante é a história, o que nos motiva a fazer o filme é o que ele tem de mais importante.

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