“Sei que esta história pode aborrecer algumas pessoas poderosas no mundo do futebol. Não é suposto falar deste lado do jogo. Mas tenho de dizer a verdade”. Foi desta forma que Sara Björk Gunnarsdóttir, jogadora internacional islandesa de 32 anos, iniciou no The Players’ Tribune uma carta em forma de notícia onde faz a retrospetiva do período após engravidar quando estava ainda no Lyon. Uma carta onde, entre lamentos pela situação e avisos para casos semelhantes no futuro, revelou também que ganhou a “guerra” em tribunal que fez com que o conjunto francês tivesse de pagar todos os salários em falta referentes a esse período.
This story is bigger than me! It’s a wake up call for all clubs and it’s a message to all players that if they get pregnant or want to get pregnant during their career they have their rights and guarantees!@PlayersTribune @FIFPRO https://t.co/Rnzj7lua9g
— Sara Björk (@sarabjork18) January 17, 2023
“Todos conhecem a imagem do meu antigo clube, o Lyon. Oito Ligas dos Campeões. As melhores jogadoras de cada país. Um dos clubes de maior sucesso no futebol. Jean-Michel Aulas, o presidente, investiu muito na equipa, com salários justos e boas condições para as jogadoras tendo como grande prioridade a vitória. Sendo da Islândia, sempre sonhei em jogar nas principais ligas da Europa. Quando me tornei profissional, disse literalmente ao meu agente, Dietmar, ‘Wolfsburgo ou Lyon, quero estes’. Joguei quatro temporadas no Wolfsburgo e, no verão de 2020, mudei para o Lyon. E, enquanto lá estava, vivi o meu sonho. Nunca vou esquecer o sentimento de ganhar a Liga dos Campeões. Marcar na final e ganhar o título com o Lyon foi um dos momentos de maior orgulho da minha carreira. Depois, fiquei grávida”, contextualizou.
“Devia ter sido o momento mais feliz da minha vida. Tudo o que queria era aproveitar a minha gravidez e trabalhar para poder regressar à equipa e conseguir ajudar da melhor maneira o clube. Em vez disso, senti-me traída, confusa e preocupada”, prosseguiu, dando todo o contexto do momento em que soube da gravidez inesperada com o também jogador islandês Árni Vilhjálmsson, o anúncio no balneário perante todas as companheiras de equipa, as reuniões que teve no clube, os conselhos médicos para que deixasse de jogar e a preocupação naquela fase pelos casos de Covid-19 que estavam a assolar a formação francesa.
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— Sara Björk (@sarabjork18) January 17, 2023
“O clube assinou o meu plano, ajudou-se com os papéis do seguro e voltei para a Islândia no início de abril. Não recebi o primeiro ordenado. Tudo o que foi depositado foi uma pequena percentagem relativa à Segurança Social. Não pensei muito nisso, não sabia como ia ser a logística do caso, pensei que era um erro. Confirmei com as minhas companheiras e tudo tinha sido pago a horas. Depois falharam outro salário. Liguei ao meu empresário, que tentou entrar em contacto com o clube. A resposta surgiu mais tarde, a dizer que iam pagar os salários em atraso, mas que no terceiro mês iriam seguir a lei francesa, ou seja, não me pagariam mais nada. Disse ao meu agente que não era justo”, revelou a atual jogadora da Juventus.
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Quando a FIFPro e o Sindicato de Jogadores francês foram envolvidos, num caminho que levaria o caso à FIFA, um diretor do clube deixou um aviso: “Se lá chegar, não terá qualquer futuro no Lyon”. Seguiu mesmo, com a jogadora a recorrer às poupanças para fazer face a todas as despesas enquanto continuava sem receber ordenado. Pensou abandonar o futebol por se sentir sozinha e quase traída, não deixou cair esse sonho já com a família reforçado com o pequeno Ragnar. No entanto, os obstáculos continuavam a suceder-se, a começar pelo facto de não poder levar o bebé para os jogos fora do Lyon. Quando tentava encontrar soluções para viver a melhor fase a nível pessoal, chegava a casa todos os dias com um peso que não imaginava ter. “Eles fizeram-me sempre sentir como se fosse negativo ter tido um bebé”, assumiu.
Iceland's Eurocup squad has five mothers, the most of any team. Shout out to the moms ????⚽ pic.twitter.com/DbJA8J9m8x
— Women's International Champions Cup (@iccwomen) June 28, 2022
Em maio, a decisão da FIFA chegou e era favorável a Sara: o Lyon estava obrigado a pagar todos os salários que eram devidos, sendo que rapidamente os advogados da formação francesa procuraram saber quais os fundamentos invocados para apresentarem recurso. O mesmo nunca chegou a avançar. E a islandesa sentiu que alcançara algo superior a um triunfo na justiça. “A vitória foi maior do que eu, serve como uma garantia de segurança financeira para todas as jogadoras que queiram ter um filho durante a carreira. Queria garantir que ninguém passava pelo que passei. E queria que o Lyon soubesse que não está bem. Isto não é só negócio, é sobre os meus direitos como trabalhadora, mulher e pessoa. Merecemos melhor”, concluiu.
Champions league winners 2022???????? What a moment ???? pic.twitter.com/LyajkRNwVE
— Sara Björk (@sarabjork18) May 22, 2022