Fim de tarde primaveril na Estufa Fria, em Lisboa, e uma pequena multidão cosmopolita para ouvir o filósofo, escritor e nova estrela pop do pensamento Ocidental, Yuval Noah Harari. Percebe-se que estes são tempos de profunda inquietação, onde a vertigem da ciência e da tecnologia nos faz viver num contínuo estado maníaco-depressivo entre a excitação perante um futuro de fulgurantes progressos e o medo de novas catástrofes ambientais, pandemias e ditaduras.
E este foi o facto: várias dezenas de jovens deixaram as delícias de sua idade para ouvirem um intelectual de semblante austero que, através dos seus livros Sapiens, Homo Deus ou 21 Lições para o século XXI, emergiu como o mais presente pensador do século XXI. Harari desdobra-se em conferências e palestras pelo mundo, desde o fórum económico de Davos, a universidades, encontros com os políticos mais influentes e livros, já traduzidos em 65 países, que esgotam e tornam a esgotar edições. Não é de admirar que alguns dos seus críticos o acusem de ser “uma marca” e não “um pensador sério”.
Certo é que o homem que esteve esta sexta-feira à noite em Lisboa, a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), para uma conversa com o jornalista Pedro Pinto, a bióloga Maria Manuel Mota e o advogado e político Adolfo Mesquita Nunes, representa para as novas gerações aquilo que filósofos como Sartre, Beauvoir ou Albert Camus representaram para as gerações dos anos 50 e 60: o intelectual que detém uma compreensão global de fenómenos altamente complexos, que é capaz de tocar vários campos do saber, dar uma panorâmica sobre o nosso tempo, mostrar que tempo é esse no relógio da história.
▲ Yuval Noah Harari autor do bestseller "Sapiens", em conversa com o jornalista Pedro Pinto
TOMAS SILVA/OBSERVADOR
Os tempos mais recentes têm sido de perplexidade e inquietação com a chegada ao espaço público de ferramentas de inteligência artificial (IA) como o ChatGPT. Sabemos que o medo e o fascínio pelas conquistas das máquinas perseguem o humano, novos e velhos fantasmas de sermos por elas escravizados, mortos ou substituídos. Estes fantasmas, que Harari fez por agitar o mais possível, ao longo de uma hora e meia, não pareceram aquecer intelectualmente a sala onde o sol ia declinando. No final, alguém desabafa “qual é a diferença disto para a leitura de um livro? Para que é que estas conferências servem?”. De facto, quem segue os livros e os artigos que o escritor publica em vários jornais pelo mundo fora percebeu que ele nada trazia de novo para dizer, ou que pelo menos os interlocutores não o obrigaram a ir mais longe. Quem quer que tenha lido o artigo que saiu no dia 28 de abril, no Economist, pode verificar que Harari pouco disse de diferente.
Na primeira parte do evento intitulado “Humanidade, não é assim tão simples”, o jornalista Pedro Pinto colocou Harari na posição de oráculo no qual se encontram todas as respostas para as nossas inquietações, nomeadamente sobre a chegada à cena da IA. O que irá acontecer à educação, aos postos de trabalho, às democracias? Yuval, judeu israelita, 47 anos, criança de leituras precoces e doutorado em História Medieval por Oxford, admitia que talvez “ainda estejamos numa fase muito incipiente da evolução da IA, ela pode, em poucas décadas, ter desenvolvimentos extraordinários, desenvolvimentos que vão pôr em causa a vida humana, as sociedades, a política como a conhecemos até agora, porque, pela “primeira vez, criamos uma ferramenta que pode pensar por si mesma. Uma ferramenta que não precisa de dormir, descansar, que pode pensar, criar e espalhar as suas próprias ideias, que pode forjar com os humanos uma falsa intimidade que lhe permita manipulá-los”. E, em modo de profeta milenarista, afirmou mesmo: “a IA é mais perigosa que a bomba atómica”.
Uma das linhas de pensamento mais interessantes de Harari é a sua perceção de que a Linguagem é aquilo que funda as sociedade humanas e que o Homo Sapiens, que com ela triunfou sobre o planeta, as outras espécies e os seus predadores, é essencialmente “um animal contador de histórias”. “É a sua capacidade de criar ficções e de as comunicar que lhe permitiram organizar o seu mundo mental, físico e material. Tudo nas sociedades humanas e em especial a Democracia ergue-se sobre as histórias que contamos uns aos outros, a Democracia é uma conversa, precisa de uma certa lentidão para acontecer. Ora a IA, ao poder agir sobre a linguagem, pode hackear, cortar o diálogo infinito sobre o qual se ergue a história do Homo Sapiens na Terra e com isso levá-lo ao declínio”.
▲ Sala da Estufa Fria a abarrotar, com um público heterogéneo, mas onde os mais jovens eram a maioria
TOMAS SILVA/OBSERVADOR
Apesar do seu tom tantas vezes apocalíptico, o filosofo é mais pragmático nas soluções que aponta e avisa que “é demasiado tarde para erradicar a IA”, mas que é preciso que ela seja “regulada, como qualquer medicamento, antes de chegar às mãos dos cidadãos”. Harari fala mesmo “na urgência” de se criar uma entidade para legislar e regular a IA, no sentido de “garantir que ela é sempre utilizada de forma transparente”, ou seja, deve ser sempre possível a um humano saber quando está a falar com uma forma de inteligência artificial, seja num documento seja numa consulta médica”.
Ora se Yuval Noah Harari conhece a História e advoga a importância desta e das outras ciências sociais para capacitar os seres humanos para as mudanças que ai vêm, ele também deverá saber que ela está cheia de anúncios do fim do mundo, do fim dos tempos e a verdade é que, como sabemos, esses anúncios estiveram sempre errados. As máquinas tanto podem ser colocadas ao serviço do Mal quanto ao serviço do Bem. O pensador reconhece que a humanidade fez esforços para regular e travar essa pulsão de morte, como aconteceu com a descoberta do nuclear, uma energia barata, mas que pode acabar com a vida na Terra e, por isso, encontrou formar de refazer as suas estratégias e relações políticas e militares. E dá mesmo o exemplo da importância que a internet teve na sua vida pessoal, pois tendo nascido e crescido numa comunidade muito conservadora, foi através de um site de namoros gay, que encontrou o seu atual marido e agente, Itzik Yahav.
Na segunda parte do evento, tanto Maria Manuel Mota como Adolfo Mesquita Nunes fizeram questões de maior amplitude intelectual e crítica, embora o tema dos perigos da inteligência artificial tenha dominado a conversas do princípio ao fim. Neste campo, Harari lembrou a importância de a ciência e as descobertas cientificas chegarem aos cidadãos comuns: “A ciência tem histórias que a imaginação do homem, com os seus poucos recursos dramáticos, não alcança. No entanto, nela estão histórias mais fascinantes que a mitologia. É preciso contar essas histórias”. E deu como exemplo o que ele próprio fez no livro Sapiens, onde, em cerca de 500 páginas, conta os 70 mil anos da existência da nossa espécie no planeta”. Chamou ainda a atenção para que a “ciência não pode achar que existe sozinha”, mas que deve esforçar-se por trabalhar em conjunto com com o campo político”, embora, ao mesmo tempo reconheça “que nem todos os governos governam de forma a colocar a ciência ou a IA ao serviço do bem dos cidadãos”. Aqui haveria bastante terreno para um debate que nunca existiu e que talvez tivesse animado a audiência.
▲ Na segunda parte do evento a conversa foi feita com Harari, a bióloga Maria Manuel Mota e o advogado Adolfo Mesquita Nunes
TOMAS SILVA/OBSERVADOR
Já às questões de Mesquita Nunes, focaram-se no futuro das democracias,. O político esboçou mesmo uma ténue crítica a Harari, devido ao “tom apocalíptico da conversa”. Frisando que é “um otimista” , o ex-secretário de Estado do Turismo, quis saber como podem as democracias acompanhar a aceleração tecnológica. Mas escritor lembrou que a “IA terá uma capacidade de aceleração e transformação com as quais será difícil ao Homem, preso às suas circunstancias biológicas, culturais, mentais, competir”. O escritor israelita lembrou ainda de que “tendemos a ser condescendentes” com os perigos e por isso deixámos que Hitler ou Estaline chegassem ao poder e tivessem nas suas mãos armas tão perigosas.
Yuval Noah Harari, um sábio ou uma estrela pop?
Tornou-se habitual que antes ou logo depois do seu nome surjam palavras como “guru”, “estrela”, “bestseller”, tudo palavras que quando se tentam juntar a sabedoria e amplitude de pensamento fazem soar campainhas. Será que vender milhões de livros é sinónimo de excelência, de solidez intelectual? De quantas fraudes se faz o mercado livreiro?
A verdade é que a carreira do escritor israelita, antigo docente de História Medieval, na Universidade Hebraica de Jerusalém, descolou quando decidiu juntar os textos que tinha escrito para uns seminários e fazer com eles o livro Sapiens, que o tornou uma figura estratosférica. Inicialmente escrito em hebraico porque, segundo o autor, “as crianças israelitas primeiro aprendem a história da arca de Noé e só depois lhes falam do Homo Sapiens, das pinturas rupestres nas grutas de Lascaux ou Sulawesi”. O livro parece ter preenchido uma lacuna importante na educação de crianças, jovens e adultos, não só em Israel mas no mundo todo, incluindo Portugal, onde as obras de Harari estão publicadas na Elsinore.
“Sapiens”, a obra que tirou Harari do anonimato, é publicada entre nós pela Elsinore
E se as suas obras são normalmente seguidas de um coro laudatório, também não lhes faltam críticas duras, especialmente a partir do livro 21 Lições para o século XXI. Sobre esta obra, um crítico do jornal The Statesman considerou que Harari “escrevia como um estudante universitário que tenta chegar ao limite mínimo de palavras” e que o seu pensamento “tem a qualidade de um biscoito da sorte”. Mas a grande polémica estalou em julho de 2019, quando, o filósofo aceitou aligeirar as críticas que faz a Vladimir Putin, para que a obra pudesse ser publicada na Rússia. Aí foram os jornalistas Leonid Bershidsky do The Moscow Times a chamá-lo de “covarde” e o israelita Nettanel Slyomovics, do Haaretz, a acusá-lo de “sacrificar as liberdades das quais pretende ser o representante”.
O escritor tem-se empenhado em ter as suas obras passadas a Banda Desenhada para assegurar que as suas ideias chegam aos mais novos e, recentemente, fundou, em parceria com o marido a fundação SapienShip, através da qual tem feito inúmeras doações, mas que alguns acusam de ser apenas mais uma estratégia de marketing. Os livros de Harari pertencem a um novo campo disciplinar chamado Big History, que pretende examinar a história humana desde o Big Bang até ao presente, de uma forma multidisciplinar. No entanto, esta “pertença” não é aceite por todos e, em fevereiro de 2020, o colunista Ian Parker, da revista New Yorker, veio mesmo afirmar que o filósofo apenas atualiza a Big History com “dicas de autoajuda e futurologia, bem como uma atitude quase nihilista sobre o sofrimento humano”.
Será pois interessante acompanhar a futura trajetória de Yuval Noah Harari: super-nova no pensamento do século XXI ou uma estrela cadente que vende muitos livros?