Camilla Läckberg, uma das mais lidas autoras de ficção em todo o mundo, está no centro de uma polémica no seu país natal, a Suécia, que veio pôr em causa a autoria de uma parte dos seus livros. A escritora, apelidada de “Agatha Christie nórdica” e cujos romances policiais venderam até hoje mais de 30 milhões de exemplares em todo o mundo, foi acusada de usar um escritor-fantasma em alguns dos seus livros mais recentes, numa revelação que está a gerar um novo debate em torno da relação dos autores com quem os lê, bem como questões sobre a ética do uso de trabalho não-creditado no meio literário.
A polémica teve origem num artigo no jornal sueco online Kvartal, onde o jornalista Lapo Lappin fez inicialmente a acusação. Recorrendo a ferramentas de inteligência artificial e análise de dados, Lappin analisou vários livros da autora, de 49 anos.
A ferramenta identificou uma consistência estilística na linguagem usada na primeira série de livros policiais escritos por Läckberg, centrados no casal Erica Falck and Patrik Hedström e cuja ação se desenrolava na cidade-natal da autora, Fjällbacka. Por outro lado, quando a mesma ferramenta analisou uma série mais recente de thrillers atribuídos à autora, o estilo de escrita identificado pelo programa foi completamente diferente.
Posteriormente, o jornalista recorreu ao programa de análise linguística forense JGAAP. Esta ferramenta, que em 2013 revelou que o livro Quando o Cuco Chama, atribuído a “Robert Galbraith”, tinha na verdade sido escrito sob pseudónimo pela autora da saga Harry Potter, J.K. Rowling, detetou semelhanças consideráveis entre o estilo presente em títulos atribuídos a Läckberg como Uma Gaiola de Ouro, Asas de Prata ou Mulheres que Não Perdoam e o trabalho de um outro autor sueco, Pascal Engman, que até aqui vinha sendo creditado como editor de Läckberg.
Rumores sobre a verdadeira autoria dos livros de Camilla Läckberg não eram novos, como não o é de resto o próprio fenómeno do uso de escritores-fantasma na indústria literária sueca, que anualmente vende milhões de livros um pouco por todo o mundo. No entanto, o artigo, que coincidiu con a feira do livro de Gotemburgo, trouxe redobrada atenção para as alegações e produziu as provas mais sólidas até ao momento a favor da teoria de que Läckberg não seria a autora de todos os livros que têm a sua assinatura.
A escritora já veio responder à polémica nas redes sociais, negando categoricamente as alegações. Numa publicação no Instagram, citada pelo jornal britânico The Guardian, Läckberg acusou o meio literário de preconceito contra o tipo de livros que escreve. “Dizem que não sou uma ‘estilista’ suficientemente boa e por isso não mereço o meu sucesso e tantos leitores. O que eles não entendem é que um escritor deve ser primeiro e sobretudo um contador de histórias”, pode ler-se.
A escritora sueca já tinha sido questionada acerca da autoria dos seus livros no passado. Em 2021, o autor Håkan Lindgren publicou uma série de audiolivros e ebooks, intitulada Spökskrivaren (traduzido à letra em português para O escritor-fantasma), cuja história se centrava na personagem fictícia “Milli Månsson”, uma famosa autora sueca de romances policiais que delega a tarefa de escrever um novo livro a um escritor-fantasma. Publicada em 2021, a série e a personagem foram entendidas como sendo baseadas em Camilla Läckberg, levantando suspeitas sobre a verdadeira autoria dos livros. Confrontada com a teoria, a escritora afirmou que tinha escrito todos os romances que até então assinara e, sobre Engman, garantiu que este apenas trabalhara nos mesmos como “editor e nada mais do que isso”.
Agora, o tom usado por Läckberg foi um pouco diferente. Ainda que mantendo ser ela a autora dos livros, admitiu que Engman a ajudou a encontrar um novo estilo para a sua série de thrillers. “No passado, elogiei pública e abertamente o Pascal por me ter ajudado a escrever num estilo que era novo para mim. (…) Não é nenhum segredo e, pelos vistos, saí-me muito bem”, disse.
Também Engman veio negar “categoricamente” a acusação de ter sido o escritor-fantasma dos livros em questão, ecoando a ideia de que apenas trabalhou neles enquanto editor. Em resposta ao Kvartal, defendeu que “qualquer um que tenha publicado um livro sabe que o trabalho de um editor é trabalhar o texto do autor de várias maneiras”, mas que tal não significa que tenha sido ele a escrever os romances.
As explicações, no entanto, não têm convencido o meio literário sueco. Questionada pela comunicação social, a editora sueca de Läckberg recusou responder se a autora negava em absoluto ter usado um escritor-fantasma, e a polémica tem levado a um aceso debate interno quanto ao uso de escritores-fantasma, particularmente no género policial, um dos mais vendidos em todo o mundo e do qual a Suécia é um grande exportador.
“Se comprar um livro de um certo autor, quero que tenha sido escrito por esse autor” defendeu o jornalista Lasse Winkler, enquadrando o tema como uma questão de confiança quebrada entre autor e leitor. “A experiência de ler o livro pode ser tão ou mais interessante mas, enquanto consumidor, tenho certas expectativas porque tenho uma relação com determinado autor. Por isso torna-se num problema moral”, sustentou.
Também Lappin, autor do artigo original, comentou o caso, defendendo aquilo que, no seu entender, é uma diferença clara entre o uso de um escritor-fantasma e colaborações literárias devidamente creditadas a dois autores. “James Patterson [autor norte-americano de policiais e thrillers, e um dos mais comercialmente bem-sucedidos escritores do mundo], é muito transparente sobre o facto de que cria os enredos e os seus co-autores fornecem as palavras (…) Agora, se um autor mencionar o seu escritor-fantasma apenas com um ‘obrigado’ na contra-capa, isso já me parece uma falsidade”, disse.
Os livros de Camilla Läckberg estão editados em dezenas de línguas e em mais de 60 países. Em Portugal, a autora sueca é atualmente publicada pela Porto Editora.