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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como funcionam as assembleias populares das acampadas?
Este é o movimento do mais político que existe neste país, neste momento. Precisamos de saber, precisamos de fazer esta contabilidade.
De braços no ar, entre aplausos, faz-se a contabilidade de quem concorda em passar mais uma noite na Praça do Rossio.
Estamos juntos! Para lutar juntos! Para lutar juntos!
A assembleia popular decide que a acampada avança e festeja-se o resultado da votação.
Estamos juntos! Estamos fortes! Estamos juntos! Estamos fortes!
O som que escutamos foi recolhido pelo Observador. É assim todos os dias às 19h, seja em Lisboa ou no Porto. Antes da votação, há espaço para discursos que duram em média dois minutos e meio e no fim, há a votação sobre a continuidade dos protestos. Com ou sem acampadas, as assembleias populares são para manter.
Eu diria que neste momento devíamos retomar forças sem descurar, claro, todos os dias aqui às 19h, para fazermos a nossa assembleia popular.
As assembleias populares dizem que respeitam uma organização horizontal, sem hierarquias. É dito também que há sempre espaço para discursos, praticamente sem limites à liberdade de expressão, mas quem ali fala tem sempre de lidar com a reação da restante assembleia. No fim de cada assembleia popular, há a votação e o que a maioria decide é seguido pelos que participam no protesto. Vários políticos já criticaram estas assembleias populares e o governo aponta para a falta de legitimidade. Carlos Abreu Amorim, ministro dos Assuntos Parlamentares, tem sido claro no ataque a estas estruturas.
Ouvimos os portugueses, estaremos sempre dispostos e disponíveis para ouvir os portugueses. Não ouvimos é assembleias populares.
O Observador acompanhou de perto estas assembleias e revelamos agora como funcionam, quem ajuda a organizar, os problemas com que lidam e também essa forma como votam. Vou conversar com Mariana Furtado, jornalista do Observador, que assina um artigo que revela o funcionamento destas assembleias populares. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de sábado, 24 de outubro. Bem-vinda, Mariana.
Olá, Miguel.
Testemunhaste de perto o funcionamento destas assembleias populares. Consegues quantificar quantas assembleias acompanhaste ao longo dos últimos dias?
Entre Porto e Lisboa já foram cinco e uma delas durou mais de duas horas.
Portanto, já há aqui muita experiência em acompanhar estas assembleias. Vamos tentar explicar como é que tudo isto funciona. Há uma certa desorganização organizada nestas assembleias populares. O que é que é organizado? Acontecem sempre às 19h, há espaço para intervenções e há votação. Isto é sempre certo.
É, isso é sempre certo. Mas relativamente ao que dizias antes, numa das assembleias em que eu estive no Porto, um dos porta-vozes, o João Silveira, dizia no seu discurso, aliás, que isto da auto-organização corre muito bem, mas às vezes, e não chegava a terminar a frase. Mas o que é certo é que as assembleias populares acontecem todos os dias por volta das 19h, salvo alguns atrasos, e têm sempre os tais dois momentos, o da apresentação de propostas ou intervenções e o das votações. Por vezes, é também definida uma ordem de trabalhos, algumas com mais pontos, outras com menos, e noutras vezes abre-se simplesmente o microfone e qualquer pessoa pode ir apresentar propostas para serem votadas num segundo momento. Mas também já chegou a acontecer de serem iniciadas votações e depois abrir-se novamente o debate. Não há aqui nada muito rígido.
Sim, há aqui muita liberdade nesse aspecto, apesar de haver alguns pontos organizados. Este movimento refere que tem uma organização horizontal, ou seja, não há hierarquias, mas o que temos visto é, e tu também testemunhaste isto, há figuras que assumem, de certa forma, a condução das assembleias populares.
Sim, é sobretudo durante as assembleias que nós podemos reparar que há figuras que estão sempre por perto, normalmente junto ao microfone, onde acontecem as intervenções para o público ou para a multidão, e são muitas vezes as mesmas pessoas que quando é preciso intervir para pedir ordem, para fazer algum esclarecimento ou até voltar a chamar a atenção das pessoas para os trabalhos em curso, costumam ser sempre as mesmas pessoas que o fazem, ou até que dão início à própria assembleia e que acabam por funcionar como mediadores.
Tu falaste com essas pessoas. O que disseram sobre a forma como se realizam as assembleias e também, de certa forma, que problemas é que tiveram de enfrentar e que liberdade existe ao certo nestas assembleias? É uma liberdade total ou há aqui alguma limitação?
Se perguntarmos à maioria dos manifestantes ou até a estas figuras mais ligadas à organização destes movimentos, a resposta será provavelmente que há liberdade total nestas intervenções. E aliás, é essa a resposta que nos dão quando os confrontamos com a possibilidade de alguém fazer uma intervenção que apela à violência, como chegou a acontecer no Porto, com um manifestante que sugeriu atirar um tijolo à casa do primeiro-ministro e que não teve a sua intervenção interrompida. Mas a Priscila Valadão, a mediadora das assembleias populares de Lisboa com quem falámos, fala-nos dessa liberdade ao microfone, mas, no entanto, impõe um limite que é: não são permitidos discursos racistas ou xenófobos. Aliás, nesse caso, seria ela, como nos diz, a primeira a tirar o microfone à pessoa. Mas depois há também a forma como os discursos são acolhidos.
Sim. De facto, nós temos acompanhado ao longo da semana estas assembleias. Há diferentes discursos, de facto. Nós estamos aqui a falar de organização, mas neste artigo explicas isso muito bem. Falaste também com algumas pessoas que participam nas assembleias, não só a votar, e aí votam todos os que estão presentes, mas há os que falam para além de quem organiza. Tu falaste com essas pessoas que escolhem falar nas assembleias. O que dizem sobre a forma como são feitos os discursos e, principalmente, como são acolhidos?
Para falar, basta dar o nome e esperar pela vez que se é chamado. E os manifestantes, nesta fase, não têm de dizer o tema sobre o qual querem falar, portanto, não há qualquer tipo de pré-seleção, embora por vezes as inscrições fechem, consoante também a programação que está prevista para aquele dia e para as horas seguintes. Mas houve momentos também em que a multidão, a própria multidão, pareceu não gostar do que foi dito, aliás, expressa-o claramente Tanto em temas como uma proposta que cria mais música interventiva nas acampadas ou mesmo em outras questões, como alguém que propunha não se cultivar o ódio contra as forças policiais.
Portanto, teve uma má reação, podemos dizer isso, a pessoa que disse essa questão?
Sim, gritos, acabou por ser vaiada.
Mas ao dizeres isso, acompanhaste várias assembleias, podemos dizer que a relação com a polícia ou a relação da acampada com a polícia, dos manifestantes com a polícia é, de certa forma, um tema tabu nas assembleias populares?
A verdade é que a pessoa que falou sobre este tema e da relação do movimento com a polícia pôde terminar a sua intervenção até ao tempo de escutar. Portanto, não foi interrompida. Mas claro, está-se sempre sujeito a ser vaiado, como aconteceu com ela.
Portanto, um caso em que se apelou a outro tipo de relação com a polícia e acabou essa manifestante a ser vaiada. Estes protestos têm sido marcados também por alguns atos de vandalismo nas praças. Já vimos alguns políticos a falar sobre isso, principalmente em Lisboa, Carlos Moedas. Neste caso, falamos de vandalismo nas praças, nas estátuas em que os manifestantes têm acampado. Isto é discutido nas acampadas? Há alguém preocupado com este assunto nas acampadas?
Esse não costuma ser um dos principais temas que os manifestantes trazem para as assembleias, mas por acaso na assembleia de quarta-feira, em Lisboa, houve um momento caricato e que foi enquanto corria a assembleia, um dos manifestantes que estava sentado em cima da estátua de Dom Pedro IV, e que são alguns jovens que até costumam ajudar a fazer a contagem dos votos, porque estão numa posição mais elevada, um deles começou a grafitar na própria estátua um insulto a Luís Montenegro, que aliás tem surgido em vários cartazes nestes protestos. E o rapaz nem chegou a acabar de escrever a palavra que estava a escrever, porque a multidão desaprovou de imediato aquela ação e começou, mais uma vez, a vaiá-lo e a gritar para que parasse.
Sendo que há também ofensas à polícia e algumas escritas também nestas estátuas. Como é que é feita a votação? Porque isto acontece todos os dias. Talvez seja este o ponto que tem sido mais criticado, até por agentes políticos. Sabemos que se vota para decidir se a acampada avança, se continua ou não. Há mais alguma coisa que vai a votos?
Sim, apesar de essas serem as decisões mais importantes para o movimento e antes das quais chega até a haver aviso a apelar à seriedade e à responsabilidade dos manifestantes nestes momentos, para que as pessoas que não estão disponíveis para ficar a acampar não votem para os outros ficarem. Mas além disso, tudo pode ser votado, porque tudo pode ser proposto. Já houve votações sobre assuntos relacionados com a própria vivência das pessoas que acampam nas praças. Já houve também propostas sobre participação em petições de apelo à demissão do presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, que foi aprovada, e também sobre como responder em casos de intervenção da polícia ou outras situações.
Tu na tua reportagem falas de um sentimento que existe nestes movimentos que remete para a falência da democracia liberal. E isto está mesmo patente no teu texto. Isto é algo que é transversal neste movimento ou estamos aqui a falar de casos isolados?
No texto que assinamos, essa visão é defendida a título pessoal pela mediadora das assembleias de Lisboa, a Priscila Valadão, mas também o ouvimos dito por outros manifestantes com quem falámos e que têm visões próximas. Aliás, durante as assembleias, há várias intervenções que defendem, de forma apaixonada até, que a verdadeira democracia é a das ruas e que é a vontade popular e a revolução do povo que está ali a acontecer.
E o governo já se manifestou, de certa forma, contra este tipo de organizações, estas assembleias populares, e não concordam, naturalmente, com esta ideia que aqui explicaste que é defendida por alguns manifestantes. Obrigado, Mariana.
Obrigada, Miguel.
A Mariana Furtado é jornalista do Observador e ao longo dos últimos dias acompanhou de perto as assembleias populares nas manifestações pela habitação. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Tomás Ferreira e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Bom fim de semana.