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“Não adianta dar com uma mão e tirar com os nove dedos.” Esta foi uma das frases mais marcantes do debate desta sexta-feira na TV Globo entre os candidatos à presidência brasileira — que acontece a apenas 48 horas da segunda volta das eleições presidenciais. Flávio Bolsonaro atacou o adversário sobre as políticas económicas, aludindo à falta do seu dedo mindinho da mão de esquerda. O tema incomodou particularmente Lula da Silva, que exigiu um pedido de desculpas do rival. E recebeu uma resposta cordial: “Se eu ofendi, eu peço desculpa”.
Foi um dos poucos ataques pessoais de Flávio Bolsonaro neste debate. De fato e gravata, o candidato do Partido Liberal (PL) evitou usar expressões depreciativas do adversário, como fez no passado. Não se ouviram insultos como “ladrão” ou “ex-presidiário”. Uma rutura total com o estilo do pai, Jair, que usava um tom bastante duro. Em vez disso, o senador do PL optou por um tom menos combativo e mais focado em mostrar-se como uma opção viável para a alternância política.
Já Lula da Silva não deixou de atacar o adversário. Desvalorizou-o — chamou-lhe várias vezes “rapaz” por ter 45 anos e por “nunca ter trabalhado na vida” — e designou-o por várias vezes de “miliciano”. Embora adotando um estilo mais duro do que o rival, o Presidente brasileiro parecia saber onde aplicar os golpes. Trazendo a debate várias vezes o legado de Jair Bolsonaro, o chefe de Estado tentou colar o filho às polémicas do pai, assim como tentou recordar as controvérsias da carreira política de Flávio Bolsonaro.
Sendo várias vezes associado às polémicas do pai, Flávio Bolsonaro quis cativar, neste debate, o eleitorado do centro e mais moderado: aquele que não é fiel a Lula da Silva e que ainda está indeciso. A 48 horas das eleições, numa altura em que as sondagens preveem um empate técnico, o candidato do PL inspirou-se na estratégia do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que venceu as eleições à primeira volta: mostrar-se duro e à direita (abordando tópicos como a segurança ou a economia), mas sem cair em extremos para não assustar os possíveis eleitores.
Para Lula da Silva, o desafio é outro. Havendo um certo cansaço associado à sua imagem, o chefe de Estado quer cativar aqueles que não votaram na primeira volta a irem às urnas e a dar-lhe, desta maneira, a vitória na segunda. Usando a mesma receita que em 2022, o Presidente brasileiro alertou para os perigos que significaria ter um “miliciano” no poder, bipolarizando o discurso: “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando esse país no Palácio do Planalto”.
Flávio manteve discurso à direita, mas não atacou (tanto) o adversário
O pai tem um estilo bastante explosivo. Para os apoiantes, é genuíno; para os críticos, é irrefletido. Embora não seja o nome dele que esteja no boletim de voto, o filho herdou o legado da presidência de Jair Bolsonaro, assim como todas as suas polémicas. Durante este debate, Lula da Silva voltou a recordar as mortes causadas pela pandemia de Covid-19, um dos tópicos que mais críticas motivou no mandato do antigo Presidente: “Se não fosse a gestão do seu pai, poderíamos ter tido metade das mortes que tivemos”.
Flávio Bolsonaro entende que a gestão da pandemia, assim como todas as polémicas em que se envolveu o pai durante o seu mandato, levaram Jair Bolsonaro a perder as eleições em 2022. Assim sendo, o candidato do PL ensaiou um esforço de moderação, algo que ficou totalmente visível neste debate a apenas dois dias das eleições. Raramente se exaltou, não chamou “ladrão” ao adversário, evitou hostilizá-lo e até lhe pediu desculpa. Tentou adotar uma postura presidencial. A falar sobre o Nordeste — uma região que é um bastião de Lula da Silva —, disse que até estaria disponível para falar com os governadores de “outros partidos” que não o seu.
▲ Flávio Bolsonaro quis mostrar postura de presidenciável no debate
Bloomberg via Getty Images
O objetivo do candidato do PL é garantir a transferência de votos da terceira via da primeira volta — principalmente os dos candidatos Augusto Cury e Ronaldo Caiado (que já declararam o seu apoio a Flávio Bolsonaro). Mesmo que não tenham chegado aos 3% de votos cada um, foram os votos de quem não gosta nem dele, nem de Lula da Silva. É a estes eleitores que o senador quer chegar: aquelas pessoas que não gostam do petista, mas que também têm reservas em relação a si.
Neste debate, Flávio Bolsonaro tentou mostrar-se como alguém contido, moderado e com espírito colaborativo. O objetivo passa por capitalizar o desgaste associado à imagem de Lula da Silva e mostrar que o ainda senador tem competências mais do que suficientes para ser Presidente. Quando foi acusado pelo rival de ser um “rapaz”, o candidato elencou os cursos que tirou, recordando que já é político desde os 21 anos.
Ainda assim, apesar do verniz mais moderado, optou por debater assuntos mais à direita durante o debate: num dos poucos momentos em que se exaltou, defendeu o agravamento das penas para quem comete crimes — principalmente para aqueles que foram condenados por “violação”. Falou ainda sobre empreendedorismo e recordou a importância dos grandes negócios na área da agropecuária. A base eleitoral pode ter ficado desiludida com o discurso — mas esses já iam votar nele sim ou sim.
Quanto à capacidade de convencer os indecisos, ainda não é claro se o terá conseguido. Lula da Silva trouxe alguns fantasmas do passado de Flávio Bolsonaro, como uma alegada festa de barco que aconteceu durante a pandemia. Lembrou também a sua homenagem a milicianos. E trouxe a mãe de uma criança assassinada por um polícia para a plateia do debate da TV Globo. Assuntos que contribuem para desmontar a sua possível moderação e revelar que o candidato, afinal, é tão radical como o pai.
Na defensiva, Flávio Bolsonaro não deu muitas vezes uma resposta eficaz perante a pressão de Lula da Silva, não respondendo cabalmente a algumas acusações. Tentou defender-se das homenagens às milícias. A estratégia do candidato foi outra: recordar as polémicas de Lula da Silva. Embora o estilo tenha sido bem mais contido, o senador do PL lembrou várias controvérsias do chefe de Estado, em particular uma suposta oferenda de um uísque de “meio milhão de reais” de Daniel Vorcaro — o alegado cabecilha do caso Master — a Lula da Silva.
Lula recordou polémicas e foi mais incisivo
Lula da Silva chegou a este debate em desvantagem. Mesmo que as sondagens mais recentes sejam animadoras — terá recuperado vantagem face a Flávio Bolsonaro —, o Presidente tem de conseguir colmatar a diferença de dois milhões de votos que o rival obteve a mais na primeira volta. Os candidatos da terceira via da primeira volta? Quase nenhum lhe declarou apoio. Por isso, a estratégia é outra: convencer quem não foi votar no dia 4 de outubro, que foram cerca de vinte milhões de brasileiros.
Daí que, neste debate, Lula da Silva tenha tentado denunciar as polémicas de Flávio Bolsonaro. O voto em si é a única forma de “não colocar um miliciano no poder”. O discurso foi bastante menos contido do que o do adversário: não houve pedidos de desculpas, nem a simulação de uma postura mais polida. É preciso tirar pessoas de casa no domingo para irem votar — e não é com palavras simpáticas que o chefe de Estado acredita que esse objetivo será concretizado.
Além disso, a postura de ataque de Lula da Silva é também uma forma de cativar o eleitorado de centro. Pintando o rival como um “miliciano” e como alguém que defende o uso da violência estatal — além de o ter acusado de querer fazer cortes nos serviços sociais —, o Presidente brasileiro quis alertar o eleitorado centrista e indeciso de que, afinal, Flávio Bolsonaro está muito longe dessa posição ideológica.
Noutra estratégia que já vem da primeira volta, Lula da Silva procurou sublinhar a sua experiência no cargo e o seu legado. “Retirei o Brasil do mapa da fome”, reiterou, lembrando que os seus Governos foram aqueles que “ajudaram os mais pobres”. Tentando mobilizar alguns abstencionistas, o chefe de Estado fez questão de recordar os seus sucessos, como o programa de apoios aos mais desfavorecidos, um dos quais o Bolsa Família, avisando que podiam estar em risco se o adversário chegar ao poder.
▲ Lula da Silva esteve mais ao ataque neste debate
Andre Borges/EPA
Por sua vez, Flávio Bolsonaro acenou com a mudança política e perguntou diretamente aos brasileiros se “tinham dinheiro quando chegou o final do mês”, culpando Lula da Silva pelo aumento do custo de vida. O Presidente brasileiro tentou defender-se destas acusações, evocando novamente o passado: “A economia não crescia acima de 3% desde que eu deixei a presidência em 2010. Agora, ela voltou a crescer”.
Lula da Silva também foi confrontado com algumas das suas polémicas, em particular do seu filho, “Lulinha”, que está a ser investigado por tráfico de influências e corrupção. O primogénio do chefe de Estado está a viver num “bairro de luxo” em Espanha, tal como o jogador de futebol Vini Jr., e Flávio Bolsonaro questionou: “O que está a sustentar o Lulinha?” O candidato questionou ainda os alegados gastos excessivos da presidência com viagens oficiais. Tal como o adversário, o líder brasileiro nem sempre respondia diretamente, preferindo colocar o foco nas polémicas do senador.
No final do debate, ainda não ficou claro se os dois candidatos vão conseguir chegar aos dois públicos que desejam: os que votaram noutros candidatos na primeira volta e os abstencionistas. Num debate menos crispado do que no domingo passado, tentaram demonstrar os seus pontos fortes: Flávio, o rosto da alternância política e uma suposta moderação face ao pai; Lula, o seu legado e o papel que se auto-atribui de defensor da democracia. Mas, num país polarizado e em campanha há mais de um mês, estas táticas correm o risco de ter um impacto pouco significativo.