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O que é e o que aconteceu à bola de fogo que cruzou o céu de Portugal. Nove respostas

De norte a sul, uma bola de luz atravessou Portugal a alta velocidade. Que fenómeno é este? É raro? Caiu ou não? Nove perguntas e respostas.

Imagem do meteoroide divulgada nas redes sociais
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Imagem do meteoroide divulgada nas redes sociais

Imagem do meteoroide divulgada nas redes sociais

Um meteoro? Um meteorito? Um meteoroide. Nos últimos minutos de sábado, o céu de Portugal e Espanha iluminou-se durante breves momentos. Chegou a haver um aviso da Proteção Civil e patrulhas da GNR no terreno a procurar por fragmentos, perto de Castro Daire, mas por pouco tempo. As imagens do evento marcaram toda a madrugada de domingo nas redes sociais.

De manhã, percebeu-se do que se tratava: chegou a explicação científica e os detalhes. Mas, ainda assim, restam algumas dúvidas sobre este tipo de fenómenos. Frequentes, mas também raros. Vamos perceber porquê.

Que fenómeno foi este?

O fenómeno observado quando faltvam menos de quinze minutos para começar domingo, dia 19, foi causado por um meteoroide. Trata-se de uma rocha que, neste caso, se soltou de um cometa algures no espaço e depois entrou na atmosfera da Terra. Passou essa barreira a 161 mil quilómetros por hora, ou seja, a 45 quilómetros por segundo. Incendiou-se assim que passou a barreira da atmosfera, com a qual entrou em fricção, tornando-se assim incandescente e ganhando o brilho que pode ser visto no céu. Várias imagens do momento começaram imediatamente a ser divulgadas nas redes sociais.

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Os primeiros relatos sobre o meteoroide no céu português são das 23h50. Pouco depois da meia noite, a Proteção Civil abriu uma ocorrência para a queda de um meteorito (já explicaremos as diferenças) na região de Pinheiro, Castro Daire, distrito de Viseu. Ainda houve patrulhas da GNR na zona de Pereira e da serra de Montemuro, nomeadamente nos parques eólicos ao redor, porque algumas pessoas “referiram que viram um clarão numa zona de antenas”. Esse alerta foi retirado pouco depois e é muito pouco comum. As buscas pela queda de qualquer fragmento, devido ao relato de uma explosão, foram abandonadas.

Atingiu a Terra?

Não. O geofísico Rui Gonçalves, ouvido pela Agência Lusa, defende que é preciso juntar mais dados para conseguir calcular a trajetória e só depois concluir se houve alguma queda de um fragmento — meteorito —  e onde.

A opinião difere da conclusão apresentada pelo Instituto de Astrofísica de Andaluzia, que centraliza as informações obtidas pelos detetores do projeto SMART (rede que monitoriza a atmosfera para avaliar o impacto de eventuais objetos no sistema solar) e que é especialista na análise destes episódios. Foi este instituto que na manhã deste domingo deu todas as informações científicas sobre o fenómeno.

Bola de fogo que iluminou céu de quase todo o país foi um meteoroide. Não caíram fragmentos

Segundo o astrofísico José María Madiedo, responsável pelo projeto SMART do instituto, o meteroide não chegou ao solo. Ter-se-á extinguido a 54 quilómetros de altura, sobre o oceano Atlântico, já acima da zona do Porto e Braga, depois de um trajeto rasante (muito baixo, menos de 10 graus) de cerca de 500 quilómetros em que cruzou Portugal para noroeste, desde que entrou na atmosfera na zona de Badajoz, a uma altitude então de 122 quilómetros.

No entanto, nesse seu trajeto, a rocha incandescente sofreu várias explosões que são visíveis no vídeo divulgado pelo instituto. Isto significa que a pedra se parte, fragmenta — nessa altura fica ainda mais brilhante e podem ouvir-se barulhos —, e esses fragmentos ou detritos podem chegar ao solo.

À Rádio Observador, o investigador e astrofísico Nuno Peixinho admite que “pode ter havido fragmentos que, ao se libertarem, podem ter caído”. Mas considera que “a probabilidade é baixa”. O Instituto de Astrofísica de Andaluzia diz que isso não aconteceu.

Mas afinal não era um meteorito?

Não. Um meteoroide é uma rocha que navega no espaço e que pode ter origem num cometa, num planeta e até num asteroide. Quando um meteoroide entra na atmosfera da Terra ganha o nome de meteoro. No entanto, caso não se desfaça na atmosfera e atinja o solo, não se lhe pode chamar meteorito. Só se cair, é que ganha esse nome.

Normalmente estas rochas entram na atmosfera terrestre a uma velocidade superior a 72 mil quilómetros por hora. Neste caso, essa velocidade foi quase o dobro, o que é significativo. E tornam-se visíveis quando estão a cerca de 100 quilómetros acima do nível do mar. Os meteoroides podem ter origem no espaço interestelar, mas muitas vezes têm origem no Cinturão de Asteroides —  a região existente entre Marte e Júpiter, onde navegam pelo menos 40 mil asteróides.

Fotografia partilhada nas redes sociais

Por onde entrou na atmosfera e que percurso fez?

O meteoroide entrou na atmosfera em Don Benito, perto de Badajoz, no sudoeste de Espanha, a cerca de 161 mil quilómetros por hora e a uma altitude de 122 quilómetros. A trajetória foi quase paralela e rasante com a Terra, os tais 10 graus. Os dados do Instituto de Astrofísica de Andaluzia, acrescentam ainda que o meteoroide percorreu depois cerca de 500 quilómetros em direção a noroeste, cruzando Portugal. Mas foi visível em muitas outras zonas, de Madrid a Cádiz até ao Norte de Espanha, de Évora a Lisboa, passando por todo o centro de Portugal, até ao Porto, Viana do Castelo e Braga.

O vídeo do Instituto permite ver as zonas onde poderá ter sido avistado.

Onde foi visto?

Em Espanha, há relatos vindos de Madrid, Cádiz, Jaen e da região da Galícia. Já em Portugal, o meteoroide foi visto a partir de Lisboa, Coruche, Santarém, Porto, Braga, Vila Real e Viseu, pelo menos.

O geofísico Rui Gonçalves vai mais além e indica que o fenómeno foi observado desde a costa francesa ao sul do Algarve. Mais uma vez, o vídeo do Youtube do Instituto de Astrofísica de Andaluzia mostra com clareza o trajeto e o raio de abrangência para visionar o fenómeno.

Porque é que os testemunhos falam de uma luz azul ou verde quando a rocha passou?

De acordo com o astrofísico José María Madiedo, o meteoroide tinha tanta luminosidade que se poderia ver a 800 quilómetros de distância. Algumas pessoas viram uma luz verde e outras uma luz azul aquando da sua passagem.

À agência Lusa o investigador Nuno Peixinho já tinha explicado que, devido à velocidade que alcançam, as rochas atingem uma temperatura tão elevada que “essa temperatura vaporiza tudo”: “Como andam a vários quilómetros por segundo, contra o ar, a pressão que aquilo faz na atmosfera é tão grande que as temperaturas atingem facilmente os 25 mil graus, e a essa temperatura vaporiza tudo”.

Deste processo resulta o rasto de luz que se viu no céu português e espanhol — e que depende da composição química da rocha. À Rádio Observador, o especialista acrescenta que quando o níquel se vaporiza “dá uma cor verde”. Já o magnésio, “ao vaporizar-se, dá uma cor azul”. Assim, tudo indica que o meteoroide “teria níquel e magnésio, o que, aliás, é bastante frequente nestas rochas que vêm do espaço”, afirma.

Se o meteoroide tiver sódio na sua composição química, então deverá emitir uma luz amarela. Caso seja composto por cálcio terá uma luz arroxeada e caso seja composto por nitrogénio e/ou oxigénio deverá apresentar uma luz vermelha.

Que impactos se registaram?

Além da intensa luminosidade, o Instituto Português do Mar e Atmosfera diz ao Observador que “na rede sísmica foi detetado algum estremecer devido à onda de choque”. Alguns utilizadores das redes sociais relatam ter ouvido um barulho de explosão. Segundo Nuno Peixinho, citado pela CNN, este barulho “só significa que era grandinho”. Ou seja, uma rocha já com alguma dimensão significativa.

“Estremecer e fazer barulho é normal, porque é a onda de choque. É como se estivesse a passar um avião supersónico. Por alguma razão os militares estão proibidos de passar com os aviões acima da velocidade do som por cima das cidades. Caso passassem provocariam danos, como vidros partidos, por exemplo”, explica. A rocha que este sábado cruzou os céus portugueses ia a baixa altitude e a grande velocidade.

“Foi muito energético na atmosfera. Não foi suficientemente grande ou não passou suficientemente perto para, por exemplo, partir vidro. Mas já era grandinho”, acrescenta Nuno Peixinho.

Josep María Trigo, astrónomo do Instituto de Ciências do Espaço do CSIC, que também pertence ao projeto SMART como o Instituto da Andalúzia, disse ao El País, que deveria ter entre 20 a 30 cm.

Há perigo?

Pode haver. Enquanto a rocha está a fazer o seu percurso, soltam-se alguns fragmentos. Normalmente são de pequena dimensão, meros detritos, poeiras, porque se desfazem ao partir-se pela velocidade a que a pedra vai. Mas nem sempre é o caso. Podem ter tamanhos maiores e, por vezes, cair sobre habitações ou estruturas, causando danos.

Há cerca de um ano, nos Estados Unidos da América, um meteorito com cerca de 10 por 15 centímetros atingiu uma casa durante a noite. A família — que não ficou ferida — disse que o telhado tinha sido atingido por um objeto negro, que queimava e era do tamanho de uma batata. Na época, especialistas consideravam que o meteorito se teria soltado do cometa Halley.

Em 2021 registou-se uma situação semelhante no Canadá. Uma mulher acordou a meio da noite com o barulho de um meteorito que tinha atravessado o teto e aterrado na cama onde dormia, sem a ferir.

Meteorito atinge casa de mulher no Canadá e quase lhe cai em cima enquanto esta dormia

É raro isto acontecer?

Não. Exemplo disso são as conhecidas — e frequentes — “chuvas de estrelas”, que são, na verdade, meteoros que entram na atmosfera terrestre a grande velocidade. Diariamente caem sobre solo terreste 25 milhões meteoroides, micrometeoroides (pequenos grãos de areia) e outros detritos espaciais. De acordo com a CNN, nos últimos 10 anos a Terra foi atingida por pelo menos 26 meteoritos. O maior dos últimos 100 anos caiu na Rússia, em fevereiro 2013: 1500 pessoas terão ficado feridas e mais de sete mil casas danificadas, pelo que ficou conhecido como o meteoro de Cheliabinsk. Tinha 17 metros de diâmetro.

À Rádio Observador, o investigador  Nuno Peixinho assegura que “todos os anos há sempre vários destes meteoros grandes pelo mundo”. Mas, uma vez que Portugal é “um país mais pequeno”, “vemos menos” vezes este fenómeno, resume. Contudo, a rocha que marcou a noite deste sábado terá tido uma certa dimensão e entrou na atmosfera a grande velocidade, além de se deslocar a uma altitude muito baixa. Este tipo de caso — conhecido por bólide — é mais raro e é conhecido por ser extremamente brilhante e belo.

A última vez que um grande meteoro “invadiu” os céus portugueses foi em março. A “bola de fogo” entrou na atmosfera a 60 mil quilómetros por hora. Na época, algumas pessoas disseram ter visto um enorme clarão e sentido as casas tremer. Antes disso, em janeiro deste ano, já um meteoro tinha cruzado os céus de Portugal. Uma vez mais, a entrada na atmosfera fez-se por Espanha, perto de Badajoz, a cerca de 89 mil quilómetros por hora. Ambos os acontecimentos foram também registados pelo projeto SMART do instituto andaluz.

 
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