O príncipe Harry e o News Group Newspapers (NGN), grupo de Ruper Murdoch dono do jornal The Sun, chegaram a acordo e o caso não segue para julgamento. Os detalhes foram conhecidos na manhã desta quarta-feira, 22 de janeiro, um dia depois da data marcada para o início da batalha judicial, no Tribunal Superior de Londres.

O advogado David Sherborne, que representa o duque de Sussex, e o antigo vice-líder do Partido Trabalhista Britânico, Tom Watson, leu em tribunal um pedido de desculpas formal por parte do NGN, no qual se assume a “séria intrusão pelo The Sun na vida privada” do príncipe, “incluindo incidentes e atividades ilegais, desempenhadas por investigadores particulares a trabalhar para o The Sun”. Dessa forma, pela primeira vez, o jornal assume ter obtido informações através de meios ilegais. O NGN também concordou “pagar pelos danos substanciais” causados aos dois queixosos, sem entretanto revelar os valores acordados. A BBC avança que o grupo de Murdoch deve assumir também todos os honorários, estimados em 10 milhões de libras, o equivalente a mais de 11 milhões de euros.

O advogado do príncipe Harry e Tom Watson considerou o acordo uma “vitória monumental”. “O News Group Newspapers foi finalmente responsabilizado pelas suas ações ilegais e o flagrante desrespeito pela lei”, disse David Sherborne aos jornalistas, à saída do tribunal. O antigo vice-líder do Partido Trabalhista também falou aos jornalistas e chamou a Harry “predador das grandes bestas” dos gigantes dos media. Tom Watson também pediu que Rupert Murdoch fizesse um pedido de desculpas ao príncipe, ao rei, e a todos os que terão sofrido “nas mãos do seu império”.

“Escutas telefónicas, vigilância e mau uso de informações privadas”

O caso chega a um acordo depois de um dia inteiro de negociações entre os advogados David Sherborne, que representa Harry e Tom Watson, e Anthony Hudson, que defende o grupo de média de Murdoch. O duque de Sussex o antigo vice-líder do Partido Trabalhista Britânico foram os únicos de um grupo de 40 figuras públicas que não entraram em acordo anteriormente e mantiveram o processo contra o grupo de Rupert Murdoch até a fase de julgamento.

No pedido de desculpas lido em tribunal, o NGN reconhece que jornalistas e investigadores privados a trabalhar para o The Sun desempenharam “incidentes e atividades ilegais” entre 1996 e 2011, no intuito de obter informações privadas sobre a vida do príncipe. A declaração também reconhece que o extinto News of the World usou “escutas telefónicas, vigilância e mau uso de informações privadas” do duque de Sussex. A declaração ainda inclui um pedido de desculpas pela “séria intrusão na vida privada de Diana, princesa de Gales, sua falecida mãe, particularmente durante a infância” do príncipe. Da mesma forma, o grupo de Murdoch pediu desculpas a Tom Watson “pela injustificada intrusão à sua vida privada durante o seu tempo no governo, pelo News of the World, durante o período entre 2009 e 2011.”

De acordo com o advogado de Harry, o NGN empregou ilegalmente mais de 100 investigadores privados em 35 mil ocasiões ao longo de 16 anos. Sherborne afirmou ainda que tal aconteceu tanto no News of The World quanto no The Sun, sempre com o conhecimento dos editores e executivos “até ao topo da empresa”. “O que é ainda pior é que durante a prisão de um correspondente internacional em 2006, houve uma extensa conspiração para encobrir o quê e quem sabia do que estava a acontecer”. O advogado afirmou ainda que foram apagados mais de 30 milhões de emails na tentativa de encobrir o envolvimento dos executivos no caso.

Sherborne fala do caso do jornalista Clive Goodman, que foi detido em 2006 por intercetar ligações telefónicas de membros da realeza britânica. Na altura o NGN negou o envolvimento de superiores e Rebekah Brooks, editora do News of The World e do The Sun, disse estar em “choque” e “incrédula”. Entretanto, no pedido de desculpas desta quarta-feira, o grupo não reconhece ilegalidades, assumindo apenas que “respondeu às detenções de 2006 e ações seguintes de forma lamentável.”

Apesar de não ir a julgamento, neste acordo o NGN reconhece pela primeira vez o emprego de técnicas ilegais na obtenção de informações por parte dos jornalistas do The Sun. Por outro lado, o News of the World era um jornal semanal de domingo que fechou em 2011, depois do escândalo de escutas telefónicas tornar-se público. Entretanto, o grupo de Rupert Murdoch sempre rejeitou qualquer infração por parte do The Sun, apesar do jornal ter chegado a acordo em processos anteriores relacionados com acusações de escutas telefónicas e obtenção de informações de forma ilegal.

Em declarações durante uma conferência do New York Times em dezembro, o duque de Sussex disse que procurava responsabilizar os jornais pelo emprego de técnicas ilegais. “Este processo tem quase 15 anos. O encobrimento das escutas é relativamente novo. Acho que esta será a peça que vai chocar o mundo”, disse na altura. “Nestes cinco anos, a retaliação e intimidação das quais fui alvo como testemunha foi extraordinária, especialmente contra a minha mulher e meus filhos”. Em 2023 Harry já tinha vencido uma ação contra o Mirror Group Newspaper, dono do Daily Mirror, que foi condenado a pagar uma indemnização de cerca de 164 mil euros por ter hackeado o telefone do príncipe entre 2003 e 2009. Pendente, o príncipe ainda tem uma ação contra a Associated Newspapers, detentora do Daily Mail.